segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Acender velas... e almoçar


Dia de Finados


Professor Nazareno*


O dia 02 de novembro é o dedicado aos mortos. Os outros dias do ano devem ser dedicados aos vivos. Como de costume fui ao “Cemitério dos Pobres” acender velas para os mortos que não tenho aqui. Porto Velho tem 04 cemitérios: o de Santo Antônio, conhecido pela alcunha de “Tonhão”, o dos Inocentes no centro da cidade, e dois outros bem mais suntuosos e requintados: um na entrada leste da nossa capital, o Jardim da Saudade e outro na saída sul bem em frente à Universidade Federal de Rondônia, a Unir.

Enterrar e depois acender velas para os seus mortos é uma tradição milenar entre os cristãos. Outros povos e religiões costumam queimar ou cremar os seus mortos e guardar as cinzas como lembrança. Este costume não daria certo entre os cristãos, pois conheço gente que depois de queimada não daria uma única colher de cinzas. Mal terminaria o ritual e um simples vento faria desaparecer o sujeito no ar. Deve ser por isso que a tradição de enterrar os mortos é ensinada de geração a geração entre nós.

Vi de tudo lá pelas bandas do “Tonhão”. Resolvi comer uma bela e suculenta feijoada que estavam vendendo nas proximidades das tumbas. Havia também moqueca de peixe, sucos, guaranás, cervejas e toda a sorte de iguarias. Um comércio de compra e venda que os cristãos católicos permitem. Tudo era alegria, felicidade, festa, risos e para falar a verdade não vi ninguém chorando pelos seus mortos. Fiquei impressionado com algumas luxuosas tumbas e percebi que o capitalismo rompeu a barreira da morte também.

Porém o mais impressionante foi observar que o consórcio que está construindo a Hidrelétrica de Santo Antônio colocou avisos para o público informando que o Cemitério não será alagado quando a barragem estiver pronta. Pode até não ser alagado, mas a proximidade com tanto volume de água fará certamente aquele “canto santo” sofrer as conseqüências como assoreamento e talvez até inundação das covas mais profundas. É o capitalismo de novo agindo só que agora profanando, com nossa permissão, os nossos lugares sagrados.

De todos os mortos daquele lugar, no entanto, o que mais nos causa dor e tristeza é o rio Madeira. Dilacerado em suas entranhas, sangrando até a morte, agonizando ante o espetáculo doentio do bicho homem, o outrora rio das Madeiras é o morto mais famoso dali e deveria ter recebido velas e procissões neste Dia de Finados. Está agonizando e suas águas já estão paradas entre Porto Velho e o distrito de São Carlos. Talvez seja por isso que a morte do nosso maior símbolo tenha sido tramada num lugar tão pouco comum: um cemitério.


*É professor em Porto Velho


5 comentários:

Joice Xpds disse...

Desse eu gostei...
Sério! Muito bom...
"Como pode um peixe vivo, viver fora d'água fria? Como poderei viver? Como poderei viver, sem a sua, sem a sua, sem a sua companhia?"

Élio A. disse...

Mais um comentário IDIOTA desse ZÉ ROELA.

Gilson disse...

Como pode? Em um artigo anterior Porto Velho é uma cidade sem símbolo e agora tem o Rio Madeira como símbolo. Foi muita sábia sua colocação em relação a cremação efetuada por alguns povos, caso você fosse cremado nem as cinzas restariam.

Erivelto Carlos disse...

03/11/2009

Olha ele aí... Nazareno outra vez... muitos dos portovelhense desejam muito acender velas a você, e só lembrando, não tem dignidade pra ser enterrado no Cemitério do Santo Antônio. E por falar nisso, já encontrou então nosso simbolo. Nazareno, t´aficando famoso, parece BBB, só falta queres sair na G, afinal de contas tudo de escreve vira comentário, olha aí...

Ivete Quintela disse...

04/11/2009

Caro Erivelto Carlos e outros que como eu que se sentem indiginados pelas palavras do Nazareno, não iremos conseguiremos mudar o seu ponto infeliz de vista, mas podemos mudar o nosso, isto é, ignorando-o. Não falo em ignorar sua pessoa, náo o conheço e nem ä sua família, mas somente e tão somente seu ponto de vista. Penso eu que temos muito mais a nos preocupar em crescer com dignidader tentando contribuir com o nosso progresso e minimizar o impácto desse progresso que simplesmente com o pretenso impacto das palavras do dito professor.