terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Bem-vindo, Covid-19!

Bem-vindo, Covid-19!

Professor Nazareno

O Coronavírus ou Covid-19 é um vírus perigosíssimo que começou a infectar e a matar seres humanos no interior da China e está se espalhando por todo o mundo numa velocidade espantosa. Muitos países de Primeiro Mundo como a Itália, o Japão e a Coreia do Sul já registram várias mortes e centenas de pessoas já foram infectadas. Foi provavelmente uma falha humana e já chegou ao Brasil, pois era apenas uma questão de tempo. E, graças a Deus, logo estará “fazendo estragos” em terras tropicais. O que ainda não se sabe é se a ameaça chegará aqui com a mesma força que tem mostrado nas terras geladas do hemisfério norte ou se perderá força com o calor dos trópicos. O fato é que se demonstrar o mesmo poderio que tem mostrado no mundo civilizado, devastará meio mundo. Sem a menor infraestrutura no setor da saúde pública, será o novo Armagedom.
Com muita competência e determinação somente para pular Carnaval e torcer por times de futebol, e também para muitas outras coisas inúteis, os brasileiros morrerão feito formiga principalmente aqueles mais pobres. Com o Covid-19 instalado em terras tupiniquins, em todas as cidades o caos se instalará rapidamente piorando uma situação que por si só já é extremamente caótica. Se não perder força, o novo vírus será uma espécie de Peste Negra na “latrina do mundo”. Em províncias atrasadas como Rondônia, por exemplo, populações inteiras serão dizimadas como insetos. Sem a menor estrutura para enfrentar sequer a realidade do dia a dia, o caos se instalará em questão de dias. Hospitais lotarão e as cidades serão riscadas do mapa em semanas. Os cemitérios logo ficarão saturados e não caberá mais tanta gente morta com os enterros.
O pior é que o vírus sequer esperou o Carnaval passar para chegar a estas atrasadas e distantes terras. Os corruptos governantes do país, que esperam décadas e mais décadas para construir um simples hospital, não terão muito que fazer se a catástrofe viral for instalada. A falta de saneamento básico e de água tratada só vai contribuir para o vírus se disseminar mais rapidamente. Tremo só de pensar que em Porto Velho tenhamos somente o “açougue” João Paulo Segundo e o Hospital de Base para enfrentar a possível e concreta ameaça. E não adianta tratar apenas os ricos e endinheirados ou aqueles que têm os melhores planos de saúde. Todos estarão sujeitos à nova ameaça e deverão ter o mesmo tratamento do Poder Público. Pelo visto, nos próximos dias, muitos dos porto-velhenses usarão máscaras mesmo sem ser Carnaval.
Num país onde grande parte do povo pobre, que não pode pagar pela medicina privada, pede nas ruas a privatização de tudo, já se sabe quais serão as consequências sobre a população de uma pandemia como essa que se anuncia. A não ser que os muitos pastores evangélicos, aqueles que dizem curar as enfermidades de seus fiéis, comecem logo a buscar a cura para o Covid-19 antes que a “anunciada hecatombe” paire sobre nós. Se não for contida a tempo, a nova Peste Negra será um pandemônio. Quero ver os petistas, os bolsomínions e outras denominações toscas, tanto de direita quanto de esquerda, continuarem com seus discursos tolos e vazios diante do inferno instalado. Mas além do Coronavírus, há também outra terrível ameaça sobre Rondônia e sua gente: o ex-goleiro Bruno deverá jogar o campeonato estadual de futebol pelo Guajará Esporte Clube. Se existir outra reencarnação, acho que os rondonienses chutaram a cruz.



*Foi Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O ópio dos brasileiros


O ópio dos brasileiros

Professor Nazareno*

Karl Marx disse certa vez que a religião é o ópio do povo. Seguindo essa lógica, compreende-se que no Brasil também existem pelo menos duas coisas de efeito igualmente anestésico e hipnótico sobre o povão: o futebol e o Carnaval. Travestidas de cultura popular, essas duas “drogas” nacionais têm o poder de amortecer a realidade e de escamotear as agruras de um povo sofrido e espoliado. O Carnaval só acontece uma vez ao ano, mas consegue ocultar a triste realidade de maneira muito cruel. Leva multidões às ruas num delírio jamais visto numa sociedade civilizada. Dizem que une as pessoas das mais diferentes ideologias e visão social. Aqui, direita, esquerda e centro se irmanam numa infinita alegria nas comemorações populares. Durante a orgia, o país mergulha num processo de total esquecimento de seus problemas. E tudo vira festa.
Já o futebol é o ano todo. O esporte das multidões opõe torcedores de times diferentes, mas tem a mesma função da folia: inebriar multidões, semear o comodismo, dar a impressão de ser algo sério e tirar o pouco poder de luta das pessoas comuns. Por isso, a classe política e a elite econômica do país “pegam carona” nestas festas populares que nada têm de cultura. Carnaval é algo patético que apenas incita a violência e favorece o consumo de drogas. O número de mortos todos os anos por causa das “Folias de Momo” cresce de maneira ascendente em todo o país. Isso sem falar na sujeira que proporciona nas ruas. Em Porto Velho, por exemplo, a Banda do Vai Quem Quer promove todo ano um festival de lixo e nojeira. Mesmo após quarenta anos de desfile, os organizadores e brincantes ainda não foram civilizados em relação ao fato.
Talvez a única contribuição que essa banda dá a Porto Velho seja somente a imundície e o lixo que produz no sábado em que vai às ruas. Toneladas e mais toneladas de podridão e monturo é o que se observa já no domingo pela manhã. Ainda bem que não precisa do escasso dinheiro público para desfilar como fazem os muitos blocos daqui e de outras cidades do país. Nunca entendi por que seus organizadores nunca tentaram pelo menos conscientizar os brincantes com relação ao lixo que produzem. Em tempos de Coronavírus, desfilar blocos com milhares de pessoas é um risco desnecessário que os cidadãos conscientes deveriam evitar. Mas isso é quase impossível, pois dificilmente se encontra alguém com boa leitura de mundo e consciente entre os brincantes e também entre os amantes do futebol. Ali é só bebedor de cachaça.
Com o pré-carnaval, o Brasil “ganhou” mais uma semana de dias parados. São quase dez dias sem nenhuma produção nas indústrias e no governo, com escolas, fábricas e comércio paralisados em troca de nada. Mas é compreensível, pois “o ano só começa pra valer mesmo depois do Carnaval”, é o que se costuma dizer no país que nunca sai da “crise”. Nas nações civilizadas também existe futebol e Carnaval, mas tudo dentro do aceitável sem a necessidade absurda de paralisar um país inteiro nem de sair por aí matando pessoas a esmo em nome da folia. Futebol e Carnaval nunca acrescentaram nada ao Brasil, além de muito prejuízo, mortes e mais violência numa sociedade já turbinada pelo álcool e pelas drogas pesadas onde se matam quase 50 mil cidadãos todos os anos. É tempo de Carnaval e de Flamengo campeão. Não há como enxergar o Covid-19, fim da democracia, aquecimento global, violência. Tudo é samba!



*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Uma nação privatizada


Uma nação privatizada

Professor Nazareno*

Sempre acreditei na máxima de que “quando tudo for privado, seremos privados de tudo”. E essa discussão no Brasil vem desde os governos neoliberais de FHC no final da década de 1990. “O Estado tem que ser o menor possível”, diziam os teóricos dessa aberração social. No nosso país, onde os governantes nunca investiram em Educação de qualidade, o resultado não podia ser diferente: desemprego em massa e uma economia baseada na informalidade. Essas são as “conquistas” que observamos hoje mais de duas décadas depois. A Vale do Rio Doce e a Energisa são dois exemplos típicos da grande onda de privatizações que tomou conta do Brasil nos últimos anos. Mesmo com 13 anos de um governo de esquerda, a onda privatizante se espalhou pelo Brasil, entregou várias empresas estatais à iniciativa privada e ainda continua sendo uma panaceia milagreira.
Mas não é. A privatização dos bens pertencentes ao Estado só aumentou a desigualdade social e os problemas dos cidadãos brasileiros, que pagam uma das maiores cargas tributárias do mundo, e nada recebem em troca. Se o Estado se desfizer de seus bens, deveria também parar de cobrar tantos tributos. Mas a desestatização não funciona assim. Pelo menos no nosso país. O Estado se desfaz de seu patrimônio e continua cobrando altos impostos de todos. Aqui não temos Educação de qualidade, não temos Saúde, não temos saneamento básico, nem qualquer assistência do Poder Público. Até o que se paga de energia vai para uma empresa privada que só vê o lucro. No caso específico de Rondônia, a atuação da Energisa dispensa quaisquer comentários. Assim como a Vale do Rio Doce com os seus incríveis desastres de Mariana e de Brumadinho.
Nos países desenvolvidos de Primeiro Mundo tudo o que é público funciona muito bem. No Brasil, só dá certo tudo que é privado. Por isso, a ideia de privatizar tudo tomou conta de todos indistintamente. Quando os funcionários da antiga Ceron saíam às ruas, por exemplo, todo mundo gritava a uma só voz: “têm que privatizar mesmo. Só assim vai melhorar”. E a classe política local foi a primeira a entregar o patrimônio dos rondonienses aos forasteiros. Depois eles tentaram consertar a bobagem criando uma CPI na Assembleia Legislativa para “defender os consumidores lesados pela empresa mineira”. Tarde demais. “Só conversa para inglês ver”. Sem a sua empresa de energia elétrica e tendo que pagar por uma das mais altas taxas de energia elétrica do país, os tolos rondonienses perderam tudo e hoje choram “desolados” sobre o leite derramado.
Agora o governo do “Mito” quer privatizar o resto do que sobrou do Estado brasileiro. Os Correios, A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, os poucos bancos estaduais que ainda existem, as estradas, as escolas públicas, os hospitais, a Petrobras, os portos, a Amazônia, o Cerrado, o litoral, as chapadas, as universidades federais e talvez até todos os Estados da Federação. Nada escapa da sanha privacionista do atual governo. Se depender de Brasília, tudo será entregue à iniciativa privada. E nada de se fazer a reforma tributária. Nada de diminuir os impostos. Nada de tentar melhorar os serviços públicos. Os mais de 13 milhões de desempregados sofrem pela incompetência dos sucessivos governos. O Estado sendo público nunca funcionou para a maioria de seus sofridos cidadãos. Por que melhorará se for todo doado à iniciativa privada? Aqui sempre prevaleceu a ideia da “Casa Grande e Senzala”. Triste tudo isso!



*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Ilusões: Flamengo e Brasil


Ilusões: Flamengo e Brasil

Professor Nazareno*

            Jogando contra o “poderoso” Athlético de Curitiba, o Flamengo do Rio de Janeiro ganhou a Supercopa do Brasil. Sem dó nem piedade, meteu 3 X 0 no seu adversário e conquistou mais um título para o clube. Eufóricos e enganados, os torcedores do time carioca nem perceberam que mais essa conquista não passa de uma enganação, de um embuste, de uma mentira: seu time do coração é apenas mais uma enrolação que não representa o verdadeiro futebol. Por isso, em dezembro passado foi dominado e perdeu o último mundial de clubes para o Liverpool da Inglaterra, um verdadeiro time de futebol. Ganhar do inexpressivo “Furacão” deu a falsa impressão de que o Flamengo é imbatível. Assim como os brasileiros, que depois de terem colocado Bolsonaro na Presidência da República, creem que o país virou uma potência mundial.
            Nem o Brasil muito menos o Flamengo têm qualquer importância na atual conjuntura internacional. Há muito tempo que o nosso país deixou de ser uma potência no futebol. Depois dos 7 X 1 na Copa de 2014, a credibilidade do nosso futebol caiu por terra. Desde 2002 que não ganhamos uma Copa do Mundo e não temos resultados satisfatórios neste esporte. Além do mais, a corrupção, a roubalheira e o superfaturamento do PT e do governo Lula nas construções dos estádios colocaram o Brasil no lugar de sempre: sem a menor credibilidade no cenário mundial. Pior: no campo da política, a eleição de um governo de viés fascista em 2018 tirou do nosso país qualquer possiblidade de ser levado a sério pelas principais potências econômicas da atualidade. Como se não bastasse, as queimadas na Amazônia nos colocam como vilões.
            Até que prove o contrário, o Flamengo é uma vergonha nacional, assim como o atual governo do país. Os dois juntos só trazem humilhação para os brasileiros. O time de futebol carioca, endeusado por grande parte de nossos desinformados e tolos cidadãos, sequer pagou a indenização aos familiares de seus dez jogadores mortos no vergonhoso incêndio no Ninho do Urubu. E isso depois de anunciar aos quatro cantos do mundo que faturou quase um bilhão de reais com a conquista de alguns de seus últimos títulos. Torcer por um time de futebol com essa postura absurda deveria ser uma desonra inominável para qualquer cidadão de postura correta. Já no governo Bolsonaro, os vexames se sucedem no dia a dia. O Brasil, que nunca teve nenhuma admiração no exterior, tem servido de chacota em todos os fóruns e cúpulas de que tem participado.
            Quando viajo ao exterior, evito falar em Português em público e me viro com o meu “Inglês” ou o meu “Espanhol” macarrônico para não ter que passar tanto vexame. Como explicar aos meus interlocutores que moro num país que já teve o melhor futebol do mundo e hoje tem apenas esse tal de Flamengo para me representar? Como explicar a um estrangeiro com boa leitura de mundo e conhecimentos que em pleno século XXI pelo menos 57 milhões de meus conterrâneos escolheram “isso que aí está” para governar o meu país? Eles não iriam entender de maneira alguma como optamos em voltar para a Idade Média. Como lhes dizer que num mundo assustado com o Coronavírus, os brasileiros vão sair às ruas em multidões para brincar o Carnaval? Quem vai entender que estamos “comemorando” as 42 mil mortes em 2019 como uma vitória? Prefiro ser uma doméstica a ter que torcer por um time e viajar para o exterior.



*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Crime ambiental em condomínio de Porto Velho


Crime ambiental em condomínio de Porto Velho

O condomínio residencial Parque dos Piquiás II, na zona norte de Porto Velho, próximo à avenida rio Madeira, na Rua Particular, 4676, saída para o Parque Ecológico, era um dos condomínios mais arborizados de Porto Velho. Era. Para se ter uma ideia, na entrada do residencial havia pelo menos umas 10 árvores frondosas de jambeiros. As frutas abundavam e quando caíam no chão, literalmente faziam “lama” nos gramados junto aos apartamentos térreos. A sombra dava às residências um confortável clima muito mais ameno. Hoje, nenhuma dessas árvores existe mais. Todas foram arrancadas e nada foi replantado em seu lugar. Há reclamações de alguns moradores de que a temperatura, claro, aumentou consideravelmente dentro dos apartamentos. O calor agora é insuportável. O sol, antes bloqueado pelas árvores, agora incide diretamente sobre as residências diminuindo bastante valor dos imóveis.
Porém, o pior é que esse processo de eliminação das poucas árvores que ainda restaram continua indiscriminadamente ao arrepio da lei dentro deste condomínio. O atual síndico do Piquiás II, Senhor Leôncio Ferreira da Costa, que assumiu o residencial no dia 21 de outubro de 2019, foi recentemente à SEMA, Secretaria de Meio Ambiente do município, para pedir uma certidão a fim de fazer pequenas podas em algumas dessas árvores. Um funcionário da SEMA ao chegar ao condomínio constatou que várias árvores das que ainda restavam foram simplesmente envenenadas. Fizeram com uma furadeira, provavelmente na calada da noite, pequenos furos nas mesmas e colocaram talvez óleo diesel ou mesmo veneno para que as mesmas secassem e morressem. Há furinhos em várias árvores (veja nas fotos) inclusive em algumas espécies de Ipês, árvore nobre da região. E todas já secaram ou estão em processo adiantado de morte. Galhos caem levando risco às crianças e animais do condomínio.
No final de setembro do ano passado, uma árvore de goiaba do Bloco A, por exemplo, com centenas de frutos foi simplesmente arrancada sem a autorização da SEMA nem de qualquer outro órgão ambiental. Pior: no dia 3 de outubro de 2019, circulou entre os moradores do referido condomínio um documento com assinatura e timbre dando conta de que nenhuma árvore poderia ser plantada nas áreas em comum do residencial sem que houvesse deliberação da assembleia geral para este fim. O referido documento, no entanto, nada falava sobre a possibilidade de eliminar árvores.
Num momento em que o mundo civilizado clama por mais árvores e contra qualquer ação de desmatamento irregular, no condomínio Parque dos Piquiás II de Porto Velho, árvores são arrancadas sem autorização, outras são envenenadas às escondidas e os órgãos de defesa do meio ambiente pouco ou nada podem fazer: segundo o funcionário da SEMA que esteve no residencial, nada pode ser feito, pois algum tempo já se passou e o pior é que não se sabe quem cometeu o crime de furar com furadeira os Ipês e as outras árvores para envenená-las. Enquanto isso, o calor aumentou consideravelmente dentro da área do que era o condomínio residencial mais arborizado de Porto Velho. Desolado, um morador afirmou: “neste condomínio é como na própria cidade de Porto Velho: nada de flores, nada de árvores. Só muito calor mesmo”.

Democracia em perigo

Democracia em perigo

Professor Nazareno*

Sir Winston Churchill teria dito que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras formas. Ou seja, sem democracia não se consegue governar um povo de forma correta, coerente e justa. No Brasil, o nosso regime democrático é muito jovem se comparado a outros países civilizados do mundo. Temos hoje somente 35 anos de democracia, conquistada “há pouco tempo e a muito custo”. Só que nos 520 anos de História do nosso país, esse é o maior período ininterrupto com este regime. Desde 1985 com a saída espontânea do regime militar e o fim de 21 anos de arbítrio com torturas, perseguições, assassinatos e eleições indiretas, que vivemos ares de maior participação popular nas decisões governamentais. Mas a nossa jovem democracia corre perigo. Com a vitória da extrema-direita em 2018 com Jair Bolsonaro, tempos bicudos se anunciam.
Para tentar se livrar da roubalheira e da corrupção do PT e de suas quadrilhas, o eleitor brasileiro optou por conduzir ao poder maior da nação um grupo de políticos inexperientes e acusados de ter um viés fascista e antidemocrático. Jair Bolsonaro foi eleito com 57 milhões de votos mesmo não escondendo de ninguém a sua admiração por torturadores e por golpistas. Suas declarações absurdas e atemporais, antes e depois das eleições, apontavam e ainda apontam para um regime de exceção. Mas a nossa democracia tem resistido e demonstrado que grande parte da população brasileira não aceita regimes antidemocráticos e de exceção. Os três filhos do presidente assim como alguns dos seus mais fieis seguidores têm demonstrado em declarações que “o ideal” para o Brasil e para os brasileiros de um modo geral seria a volta dos anos de chumbo.
Tanto um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, como o Ministro da Economia Paulo Guedes já se referiram ao temível AI-5 como uma forma “viável” e também “possível” de se governar o país. Em Rondônia, ainda em 2017, o atual prefeito Thiago Flores de Ariquemes e mais sete vereadores da cidade tentaram iniciar a volta da censura ao propor rasgar páginas de livros escolares que continham ideologia de gênero. Agora, com a história muito mal contada da “lista de livros proibidos pela Seduc/RO” o tema da censura, do obscurantismo e do índex volta a rondar a nossa frágil democracia. Neste caso, ainda não se sabe quem está falando a verdade. Porém, as respostas a todas estas iniciativas monstruosas foram pontuais. Os fascistas recuaram e por enquanto nossa frágil democracia resiste e continua existindo.
Tanto no Brasil como em Rondônia, “a cadela do fascismo continua no cio” à espera de dar o bote. Se a sociedade titubear, se os defensores da democracia não estiverem atentos, o tempo pode fechar e a volta à “longa noite de terror” será apenas uma questão de dias ou meses. “Infelizmente esses talvez não sejam episódios isolados de ataques à democracia e à nossa sociedade. Já se vê isso desde o primeiro dia do governo Bolsonaro. E em todos os Estados e cidades governados por essa gente não é diferente. Paulo Freire, educador de renome internacional, virou algoz dos atuais governantes. A cultura do país foi demonizada. Autores e atores viraram inimigos da nação! Não há ninguém fora do círculo governamental que valha alguma coisa, que seja valorizado. Como nas mais cruéis e sanguinárias ditaduras, foram todos linchados e elevados a inimigos do Estado”. O ovo da serpente está para eclodir. Alerta, portanto!



*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Hoje, eu defendo o Suamy

Hoje, eu defendo o Suamy

Professor Nazareno*

            Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu é um rondoniense nato, formado em História pela Universidade Federal de Rondônia e um bom conhecedor da História da Educação neste Estado com vários anos atuando em escolas do interior e também da capital. É um dos fundadores, junto comigo e outros professores, do Projeto Terceirão da Escola João Bento da Costa de Porto Velho que dispensa quaisquer comentários. É atualmente secretário de Estado da Educação. E pesa contra ele a denúncia de ter mandando recolher vários livros das escolas públicas do Estado. Um escândalo estadual, nacional e até internacional. Foi acusado de ter censurado obras reconhecidas como best-sellers mundiais. Não sou advogado deste honrado professor e nem tenho procuração para lhe defender. Mas não acredito que o mesmo tenha feito esse absurdo.
            Suamy sempre foi meu amigo e trabalhamos juntos durante mais de 12 anos. Já divergimos em várias situações e não seria agora que o mesmo, apesar de ser secretário de Educação de um coronel-governador da extrema-direita, que é admirador de um capitão- presidente, do Exército e também da extrema-direita, iria “entregar o jogo com uma infantilidade dessas”. Suamy não é um intelectual refinado, não é autor de obras consagradas, nem tem profundos conhecimentos sobre todos os temas, mas também não é um idiota. Se ele obedeceu a uma ordem para recolher esses livros porque os mesmos tinham “conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”, aí o idiota sou eu que sempre acreditei nele e nos seus bons propósitos. Censurar Rubem Alves, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Euclides da Cunha e Franz Kafka não é para qualquer Suamy.
            E ele deveria saber disso. E ele, como um bom professor de História que sempre foi, não poderia jamais ter permitido que se fizesse isso. Suamy deve ter votado no coronel Marcos Rocha. Deve ter votado também no capitão Jair Bolsonaro, coisas que jamais eu teria feito. Eu tenho minha posição política e ele a dele. Até aí, tudo normal. Não sou de extrema-direita muito menos de esquerda. Odeio a ideologização desnecessária que se tem feito da sociedade brasileira atual. Para mim, quem destruiu e continua destruindo o Brasil não foi a direita nem a esquerda, mas as duas posições políticas. Ambas, quando estiveram no poder, roubaram, foram corruptas, pregaram a desigualdade social e nunca investiram o que deviam ter investido na Educação de qualidade. Por isso, ambas deviam ser escorraçadas de nossa vida política para sempre.
            Defendo o professor Suamy neste episódio por que sei que ele jamais se prestaria a um serviço “sujo” e “porco” como esse. E não por que eu queira alguma benesse do Estado. Já sou um professor aposentado e estou “bem”. Mas se ele falhou neste aspecto e fez o que “acho que ele não fez”, abomino o seu posicionamento e a sua atitude tosca, pois jamais compactuaria com a censura e o obscurantismo. Os atuais governos, nos quais acho que o professor Suamy votou, não podem nem devem fazer o que quiserem com a nossa sociedade, pois o que já está estabelecido não admite mudanças. E com pouco mais de um ano à frente da Seduc/RO, Suamy foi um dos responsáveis pelas notas de Redação no ENEM/2019 das escolas públicas, que ficaram muito acima dos alunos das escolas particulares de Rondônia. Por tudo isso, acho que ele não quer ideologizar as escolas, mas fazer um trabalho de relevância. Assim espero!



*Foi Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Eu também me censuraria!


Eu também me censuraria!


Professor Nazareno*

           
Eu fui professor de Redação e Gramática Normativa durante 43 anos. Também sou jornalista com formação acadêmica. Portanto, leio muito e escrevo textos. Mas não gosto deles. Nunca gostei de nenhum dos quase mil textos que já escrevi. Neles falo sobre Porto Velho, Rondônia, o Brasil e o mundo. Procuro mostrar a realidade. E como ela não presta... Geralmente escrevo pela manhã depois de ir ao banheiro fazer as minhas necessidades. Ou então quando estou sóbrio. E também não concordo com muitas ideias de meus textos. Gostaria de ver outra realidade para mudar minha maneira de escrever. Odeio a censura e o obscurantismo e sempre entendi que a leitura, qualquer leitura, torna o leitor mais maduro, mais esperto e mais conhecedor da realidade que o cerca. Por isso, qualquer tentativa de cercear uma obra deve ser repelida com toda força.
E parece que a censura quer voltar a nos incomodar. Em Rondônia, um documento da Secretaria de Estado da Educação, a SEDUC, teria determinado o recolhimento nas escolas estaduais de 43 livros dentre os quais clássicos da nossa literatura como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, “Macunaíma” de Mário de Andrade, “Os Sertões” de Euclides da Cunha. “Mas a ordem não chegou a ser efetivada”, disse o governo do Estado. Até clássicos da literatura internacional como “O Castelo” de Franz Kafka e “Contos de Terror, de Mistério e de Morte” de Edgar Allan Poe também passariam pela tesoura tresloucada da SEDUC/RO, que argumentava que os livros apresentavam “conteúdos inadequados às crianças e adolescentes”. E se for verdade, Voltaire tremeu no túmulo. Chegamos à Idade Média.
O problema é que acontece muita coisa dantesca em Rondônia com relação à censura. Já vi “jornalistas” se insurgirem contra meus textos e tentarem fazer campanhas contra mim nas redes sociais. Já vi um aluno de uma faculdade particular jogar um livro numa professora simplesmente porque não queria lê-lo. Já vi vários sujeitos metidos a intelectuais pedirem para os sites censurarem o que escrevo. Mas teimoso que sou, continuo escrevendo. E mostrando para todos a realidade como eu a vejo. Vai ler quem quer. Tenho esse direito que me é garantido pela Constituição e não pretendo parar tão cedo. Admito: eu me censuraria, pois como já disse, eu não gosto do que escrevo. Mas somente eu poderia fazer isto comigo mesmo. Ninguém mais. Por isso tremo de medo em pensar que tudo isto seja verdade. O Estado censurando a boa leitura.
Custa-me acreditar que alguém da SEDUC/RO, órgão a que orgulhosamente servi até durante a Ditadura Militar, tenha pensado em fazer uma sacanagem destas. Não se pode voltar no tempo e isto só pode ser brincadeira. Eu posso estar sonhando, mas em Ariquemes, há dois anos, tentaram proibir livros “impróprios para crianças” rasgando-lhes algumas páginas. O Brasil hoje, com este “governo de loucos”, vive dias sombrios em que se prega abertamente que a terra é plana, que nunca houve tortura aqui, que o Nazismo era de esquerda e tantas outras tolices já ultrapassadas. E Rondônia parece querer pegar carona na estupidez. Os jornais de todo o país já repercutem esta idiotice escancarada. Somos notícia (negativa) de novo. Como se já não bastassem os nossos políticos, o “açougue” João Paulo Segundo e de sermos a pior cidade do país em saneamento básico, agora alguns “sábios de araque” nos aprontam mais esta vergonha.



*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O meu amigo chinês


O meu amigo chinês

Professor Nazareno*

            Deng Hua Fong é um amigo meu. Ele é professor na província de Hubei, China, e leciona Mandarim na cidade de Xianning, distante apenas 97 quilômetros de Wuhan. Conheci-o quando estive na Europa no ano passado. Deng sempre quis conhecer a Amazônia. Por isso está hospedado em minha casa aqui mesmo em Porto Velho. Só que ele está um pouco gripado. Ele tosse muito, tem febre e está espirrando. Não estou muito preocupado com a saúde do meu amigo. Disse-lhe que a mudança de temperatura entre os dois países pode ter-lhe custado uma “gripezinha à toa”. Deng está todo feliz e já me disse que gostaria de fazer muitas visitas a órgãos públicos de Porto Velho. Assim que melhorar deste resfriado, pretendo andar com ele pelas ruas e bairros da cidade e, claro, visitar várias coisas desta capital, pois o mesmo está muito curioso com tudo.
            Terei o maior prazer em mostrar ao meu amigo oriental o novo prédio da Assembleia Legislativa de Rondônia ali na antiga Esplanada das Secretarias no encontro das avenidas Calama e Farquar. De preferência assistir com ele a uma das muitas sessões ordinárias daquela casa de leis. Não tem coisa mais prazerosa do que, entre um espirro e outro do meu amigo, observar atentamente aos discursos dos 24 deputados estaduais. Meu amigo ficará mais curioso ainda quando souber quanto custa para Rondônia cada um desses parlamentares. Direi a ele que todos os deputados em um ano equivalem aproximadamente a um novo hospital todo equipado. Não sei qual será a reação dele a todo este descalabro. Talvez mais espirros ainda dentro daquele ambiente também doentio. Deng é um sujeito muito politizado, por isso será normal a sua reação.
E quando ele souber que aqui em Rondônia o Estado e as prefeituras contratam mais funcionários comissionados do que concursados? Lógico que vindo de um país comunista como é a China ele não vai entender muito bem essa prática esquisita daqui. Mas explicarei tudo detalhado a ele: “Deng, o comissionado pode ser demitido a qualquer hora, enquanto o concursado é para a vida toda”. Além do mais, lhe mostrarei que um funcionário comissionado pode se prestar a uma “rachadinha”, prática muito usual no país. Meu medo é que ele espirre ainda mais. Na ponte ainda escura do rio Madeira ele sem dúvida ficará maravilhado quando eu levá-lo lá. Falarei a ele sobre a Energisa e as boas relações que ela tem com o consumidor de Rondônia. O ideal seria fazermos um passeio dentro de um ônibus urbano. Mas isso será impossível.
No Espaço Alternativo da cidade ele certamente ficará encantado com aquela “geringonça imprestável”. E deverá me perguntar para que serve aquilo. Mas legal mesmo será quando eu levar meu amigo chinês à Câmara Municipal de Porto Velho para ver os vereadores “trabalhando” em benefício do povo. Isso em outra sessão também ordinária, claro. Qual será a reação dele quando souber que as crianças da zona rural do município estão há mais de dois anos sem direito à escola por falta de transporte escolar? Tomara que ele não morra de tanto espirrar, pois lhe direi que Porto Velho é uma porcaria, mas tem mais de 20 pré-candidatos querendo ser prefeito. Já pensou na sua reação quando souber o que é auxílio-moradia e para quem é pago? Só não o levo à Banda do Vai Quem Quer porque parece que essa gripe dele está piorando e bem antes do Carnaval ele voltará à China. Já ao famoso “açougue” jamais o levaria.



*Foi Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Coronavírus em Rondônia

Coronavírus em Rondônia

Professor Nazareno*

            Até que enfim. Graças a Deus o terrível coronavírus chegou a Rondônia: sim, por que foi a hora de as autoridades daqui mostrarem ao mundo como enfrentar de forma competente a mais nova ameaça à humanidade. Uma família residente na zona leste desta capital, cansada da lama e das alagações, foi passar as férias de fim de ano na China e lamentavelmente trouxe para nós a terrível hecatombe. O governo do Estado colocou toda a sua infraestrutura para atender as pessoas contaminadas. Rondônia não é a China, mas aqui foram construídos dois enormes hospitais em apenas uma semana. Um, na parte leste da cidade e o outro nas proximidades do Porto Velho Shopping. Todas as pessoas com febre, tosse ou suspeitas de estarem com o terrível vírus foram levadas a um desses hospitais de referência. Só dependia da classe social de cada um.
            Equipes médicas do “açougue” João Paulo Segundo e do Hospital de Base se revezaram para dar conta de tanto trabalho. Todos eles muito atenciosos, competentes e dedicados. Cientistas e pesquisadores ligados à  Unir, a Universidade de Rondônia, e às universidades São Lucas, Uniron e FIMCA estiveram feito loucos na corrida para isolar o vírus e encontrar logo a cura para a doença. Nunca se viu em Rondônia um frenesi como esse. Nem no último verão, durante as apocalípticas queimadas da floresta, o governo mostrou tanta competência, rapidez e boa vontade para resolver um problema. Levas e mais levas de funcionários comissionados, “aqueles sujeitos que devem ser contratados em vez dos concursados”, se apresentaram espontaneamente para ajudar nos trabalhos. A mídia, antes omissa, esteve também ajudando em todas as tarefas.
            A classe política do Estado “entrou na jogada” e não mediu esforços para ajudar os seus eleitores infectados. Enquanto deputados e vereadores mandavam seus “assessores” distribuírem máscaras, muitos deles não paravam de fazer visitas aos internados. Essa síndrome do coronavírus mostrou ao Brasil como os políticos de Rondônia são importantes para um povo. Muitos inclusive abriram mão do seu auxílio-moradia em benefício dos mais carentes e necessitados. Rodeado de seus mais de 200 funcionários comissionados, um deputado estadual teria dito que daqui não sairia enquanto a questão não fosse resolvida e o vírus mortal totalmente debelado. “Morrerei aqui junto com o meu povo” teria dito o bom parlamentar. Isso é Rondônia, mano! Chineses, europeus, africanos e norte-americanos deveriam seguir este grande exemplo.
            Morrer contaminado por uma doença de nível internacional é o que muitos cidadãos de Rondônia querem hoje, infelizmente. “Chega! Já estamos cansados de morrer de malária, de infecção hospitalar, de ataques de lombrigas, dengue e até de fome”, é o que muitos diziam. “Queremos o coronavírus entre nós”, gritavam eufóricas muitas pessoas. Estranho e irônico, mas percebia-se certo ar de felicidade na maioria dos cidadãos contaminados. Via-se que depois da construção desses novos hospitais em tempo recorde e da empatia dos políticos com o seu povo, qualquer morte já seria uma dádiva. Até a antes odiada Energisa teria contribuído para sanar as dificuldades do povo sofrido do Estado. “” faltou energia na cidade oitenta vezes durante a epidemia. Uma coisa inédita, algo até inacreditável. Inédito também o trabalho da Polícia Civil, do Procon e IPEM. Nenhum erro na contagem dos mortos. A China não é aqui. Ainda bem.



*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 26 de janeiro de 2020

A sucata como História


A sucata como História


Professor Nazareno*

            A Estrada de Ferro Madeira Mamoré ou simplesmente “Ferrovia do Diabo” em Porto Velho, capital de Rondônia, foi uma daquelas obras que marcaram a história de toda a humanidade. Foi. No passado mesmo, pois a mesma deixou de existir já faz um bom tempo. O desrespeito aos seus construtores e à própria origem da capital dos rondonienses é algo jamais imaginado em qualquer sociedade minimamente civilizada. O cemitério de locomotivas, esquecido e apodrecendo a céu aberto, parte o coração de quem ainda tem coragem de caminhar entre as “tetânicas ferrugens” que lhe adornam. Rondônia perdeu a sua História para o descaso, para a irresponsabilidade. Hoje os pedaços que restaram da histórica ferrovia estão sendo vendidos como sucatas. O que restou de seus trilhos “defende” muitas casas. Seu outrora brilho internacional apagou.
            Os rondonienses não servem nem para defender suas origens” é a impressão que se tem. Diferentes de outros povos como os europeus, que hoje ganham fortunas mostrando a turistas e visitantes as suas grandiosas obras do passado. E um passado que algumas vezes ultrapassa os milhares de anos. A EFMM tem pouco mais de cem anos. E já está totalmente destruída e aniquilada. A enchente histórica de 2014 deu o tiro de misericórdia na velha ferrovia. Hoje a prefeitura de Porto Velho está “escavacando por lá” para fazer não se sabe ainda o quê. O PT gastou 11 milhões de reais na praça para que os desocupados continuassem cagando nela. Enquanto a China gasta uma semana para construir um enorme hospital devido à crise do coronavírus, os remendos e consertos na velha Madeira Mamoré demoram meses e até anos. Esperando as eleições?
            O que se percebe é que para o mundo, a abandonada ferrovia tem História e importância. Já para muitos rondonienses não passa de um lixo, de algo descartável. Toda festa ou comemoração que lá se faz, toneladas de dejetos são jogadas na grama. Guardadas as devidas proporções, é como se fosse as ruas de Porto Velho para a Banda do Vai Quem Quer: quantidades de lixo, monturo e sujeira é o presente que fica toda vez que o bloco desfila. Na EFMM a imundície e a carniça abundam como se aquilo fosse uma terra de ninguém. E se for a “mãe de Rondônia” como muitos dizem, teve o desprazer de ser estuprada silenciosamente por seus ingratos filhos. Se o diabo atentasse e eu fosse rondoniense teria vergonha de dizer que “aquilo” é um patrimônio histórico do lugar onde nasci. Tenho certeza de que qualquer povo, por mais rústico, se acanhava.
            Em 2020, Porto Velho terá eleições para prefeito e vereadores. Mas de 20 pré-candidatos estão na corrida. Não se sabe ainda o porquê de uma cidade tão abandonada, tão saqueada, tão desprezada, tão cheia de lama e alegações, tão problemática, ainda desperta o desejo de muitos para lhe administrar. Aqui só se veem problemas. A melhor época do ano nestas distantes terras são as férias de dezembro e janeiro quando “enxurradas” de porto-velhenses invadem as praias do Nordeste e os estados e cidades mais civilizadas e organizadas do Sul do Brasil para passar as férias e postar fotos nas redes sociais. Sempre disse que em Rondônia não tem cultura. Pelo menos uma cultura própria que fosse a marca peculiar de sua gente. E agora desconfio que também não tem História. A não ser que o “açougue” João Paulo Segundo, a ponte escura, as hidrelétricas, que elevaram a conta de energia, e a ferrugem da EFMM sejam tradição.




*Foi Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O “açougue” e o coronavírus

                                                                        Foto: Emily Wang
O “açougue” e o coronavírus


Professor Nazareno*

            O ano 2020 iniciou com a ameaça global de um vírus extremamente letal. De novo, a espécie humana corre o risco iminente de ser dizimada. O coronavírus foi diagnosticado inicialmente na China, já matou dezenas de pessoas e se espalha no mundo numa velocidade espantosa atingindo vários países. A OMS, Organização Mundial da Saúde já pensou em decretar um alerta de epidemia global. Cientistas, pesquisadores, virologistas, epidemiologistas, infectologistas e outros “istas” estão em polvorosa e praticamente já correndo contra o tempo para chegar à vacina ou a outro remédio para debelar a perigosa ameaça. Mas se esta hecatombe chegasse a Rondônia, o assombro da humanidade poderia mudar. Calma! Um vírus tão renomado jamais viria para este fim de mundo isolado. E se vier, aqui temos o “açougue” João Paulo Segundo.
            Esse insólito hospital público de Porto Velho é tão importante que resiste há décadas sem que governante nenhum lhe substitua. Aqui se constroem fóruns de mármore, palácios de vidros, assembleias legislativas de cristal e muitos outros prédios suntuosos sem que sobre um só centavo para se construir um novo “açougue”. Sua importância é tanta que se algum político em início de carreira promete lhe substituir, vira logo pré-candidato a prefeito da “currutela fedida”. Além do mais, se esse insolente coronavírus aparecer por aqui será aniquilado na hora por outros vírus e bactérias muito mais resistentes. Os corredores do nosso mais importante “açougue” são depositários de espécies incríveis de agentes epidêmicos. E as ruas de Porto Velho também. O mundo científico precisa nos ver. Isso sem falar na competência das equipes médicas daqui.
            Foi no “açougue rondoniano”, que num caso inédito e curioso, amputaram uma paciente e assim a mesma não pôde mais assinar seu nome e com isso, perdeu a possiblidade de receber auxílios do INSS. Como não se orgulhar desse renomado hospital que, via de regra, vira manchete nacional? Além do mais, a própria cidade de Porto Velho, a pior dentre as capitais brasileiras para se viver e a última colocada em saneamento de água e esgotos, é também uma ameaça à rebelde enfermidade. Sujeira, carniça e imundícies espalhadas no meio das ruas sempre foram uma constante. Não é qualquer vírus que resistiria a esta suja capital. Ainda não entendi por que a comunidade científica internacional não se muda imediatamente para Porto Velho a fim de estudar as curas para esta ameaça global. O problema é saber se este vírus ataca também os ricos.
            Sim, por que no “açougue” de Porto Velho só os pobres e miseráveis é que morrem. É uma cruel realidade que as autoridades e as pessoas normais daqui nunca entenderam o porquê. Mas a capital de Rondônia deve ser um lugar maravilhoso, pois só neste ano de 2020 já tem uma penca de mais de 20 pré-candidatos a prefeito da cidade. E todos eles, claro, prometendo construir um novo “açougue”. E se forem espertos, todos eles vão também prometer beijar, amar, acariciar e cuidar da “maldita currutela”. Se já deu certo antes... O que custa tentar nas próximas eleições? Como visto, o coronavírus teria uma vida muito difícil em terras karipunas. Além do “açougue” temos também o Hospital de Base com qualidade e competência já reconhecidas no mundo inteiro. Isso sem falar nas muitas policlínicas espalhadas pela cidade e na medicina particular de Rondônia. Já estou com pena desse tal coronavírus!



*Foi Professor em Porto Velho.