segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Rondônia: viadutos sem Arte


Rondônia: viadutos sem Arte


Professor Nazareno*

            
            A principal diferença entre uma obra de arte e um simples desenho é porque a primeira induz o apreciador ao raciocínio, à inteligência, à reflexão. A obra de arte se eterniza por que mostra o novo e o inusitado. Já o desenho simples não passa de uma cópia, às vezes até mal feita, apesar da boa vontade e do talento do desenhista. Dificilmente uma obra de arte é produzida por um sujeito que tem apenas o senso comum, o conhecimento rasteiro e a pouca leitura de mundo. A tela Guernica de Pablo Picasso é um exemplo disso. O mestre espanhol se esmerou em trabalhar elementos coesivos, interdisciplinares e fez um alerta com a sua obra: o perigo do Holocausto pelos nazistas, fato que se comprovou pouco tempo depois. Artista é o que cria, que revoluciona. Já o desenhista é um copiador que não demonstra inteligência no que faz.
Em Porto Velho, vários desenhistas até bem intencionados tentam rabiscar telas de gosto duvidoso nos desnecessários viadutos da cidade. Nem perceberam que por se tratar de época de campanha política o seu trabalho só serviria para isso: fazer proselitismo alheio. E até agora não fizeram nenhum desenho que não fosse cópia, até bem feita, diga-se. Não há ali nada que se possa dizer que é uma obra de arte daquelas eternizadas pelos renascentistas europeus. Da Vinci, Rembrandt, Picasso, Van Gogh e Michelangelo devem se remexer no túmulo se forem apresentados àquilo. O “trabalho artístico” dos viadutos está muito feio tornando ainda mais horríveis aquelas paisagens horrorosas e cheias de lixo. Pior: muitos dos porto-velhenses, que nada entendem de arte e bom gosto, ficam inebriados e maravilhados com todas as horrendas caricaturas.
Não se vê ali, por exemplo, nenhum desenho que nos remeta à reflexão e ao conhecimento, infelizmente. É quase tudo “cópia da cópia” sem nenhum resquício de inteligência. Ademais, deviam registrar naquele ambiente o que de fato representa a cidade de Porto Velho: um saco cheio de lixo com tapurus esparramados. Nada representaria melhor a “capital da fedentina”, que tem uma das piores qualidades de vida do Brasil. Mas hipocritamente esconderam isso dos transeuntes. Só está faltando desenharem a foto de algum candidato. Uma lástima, mas os rondonienses de um modo geral ficam encantados com tolices e bizarrices. A “montanha-russa do atraso” no superfaturado Espaço Alternativo é um claro exemplo dessa mania esdrúxula. A ponte escura do rio Madeira e a “Praça da Bosta” na EFMM corroboram esta sinistra tese.
Rondônia não tem cultura nem arte. Nunca teve. Tudo aqui é cópia mal feita do que acontece em outros lugares. Parintins, Campina Grande e Rio de Janeiro são as vítimas mais corriqueiras desse plágio. Cadê o sucesso de uma banda que “encantou” o Brasil com a música “vinte graus e uma coberta”? Aqui, cultura é distribuir cachaça durante o Carnaval para as pessoas saírem pulando pelo meio da rua emporcalhando tudo por onde passam. Um dos teatros da cidade quase foi devorado por cupins e passa mais tempo fechado do que encenando espetáculos. Sua serventia tem sido apenas para congressos, cultos evangélicos, aulões e outras atividades alheias à verdadeira arte. Até no esporte, o nosso Estado é uma piada: sem time em nenhuma modalidade esportiva, tem-se que importar jogos para o recém-inaugurado Ginásio Cláudio Coutinho. Arte que não leva à reflexão não é arte, é cópia. Fato: Rondônia só copia o “resto” do Brasil.




*É Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Meu candidato NÃO é fascista!


Meu candidato NÃO é fascista!


Professor Nazareno*

            
             Já escolhi o candidato em quem poderei votar nas próximas eleições para Presidente da República. Dentre todos eles, não há um melhor e que represente tão bem todos os anseios e pensamentos da esmagadora maioria dos brasileiros. E já vou logo adiantando: ele NÃO é fascista. Nunca foi, embora seja cria da caserna. Chegou ao posto de capitão e por isso tem pensamento e mentalidade moldada dentro dos quartéis. Pode até ter certo viés antidemocrático, porém a sua “visão de mundo” supera todas as adversidades possíveis. De propostas simplistas para administrar um país de enorme complexidade, o meu escolhido não assimila nem de longe os resquícios que marcaram os perdedores do Tratado de Versalhes. E é apenas uma coincidência ele ter subido nas preferências por causa da crise econômica, desemprego, corrupção e violência urbana.
            As ideias do meu guru são mesmo revolucionárias. De início, prega-se armar toda a população para combater a violência desenfreada. Esqueçam códigos, leis, tratados, convenções, acordos e outras “tolices” mais. Embarquem no caminho perigoso e sem volta da “violência se combate com mais violência”. Pode até ser uma reedição da lei de Talião, mas “é melhor ter uma sociedade de cegos e banguelas do que ter de viver acossado nas mãos de bandidos ou de comunistas”. “Bandido bom é bandido morto”. Aliás, a lição da caserna foi-lhe muito útil mesmo: impossível viver numa sociedade dominada pelos adoradores de Karl Marx. Fora do campo ideológico, no entanto, as soluções fáceis grassam naturalmente para o delírio de seus eleitores. Negros, índios, mulheres e minorias como homossexuais e quilombolas já sentem um frio na espinha.
            O meu candidato NÃO é tirano, mas entende que existe uma ordem natural das coisas. Por isso, defende intransigentemente a família tradicional, mesmo já tendo se casado três vezes e de ter dois filhos “por fora”. Ele é o máximo: tem quatro filhos homens e “fraquejou” quando nasceu o quinto, uma menina. Mas NÃO é misógino. E vou logo avisando: nada de Estado Laico. “O negócio aqui é Estado Cristão”. Gays, esquerdistas, mulheres e até alguns tipos de religião podem sofrer “privações” por parte do governo. E está liberada de agora em diante a nossa capacidade de fazer piada com eles. Não há fascismo nenhum em mostrar o peso dos negros em arroubas ou de se recusar a estuprar mulher feia. Será que só as bonitas é que mereceriam este tratamento? E filhos bem criados não “viram” homossexuais nem se casam com mulheres negras.
Meu futuro presidente NÃO é despótico, mas defende que a mulher deve ganhar menos do que o homem porque engravida todos os anos. Não há tirania também em se usar a estupidez e a ignorância como armas políticas para defender seus ideais. Muitos já fizeram isso. Só que agora, meio que tardio, prega-se abertamente a utilização do voto útil para derrubar o meu escolhido. Tolice, ele é fruto da incompetência da Direita e da Esquerda e por isso fica muito difícil parar com as suas investidas. Estado fraco, corrupção sem controle, leniência da lei e da ordem, judiciário corrupto, privilégios, caos social, injustiça secular e desigualdade social abriram o caminho para ele e agora estão querendo se arrepender? O meu preferido não é um homem de carne e osso como esses de vocês e NÃO é ditador. “É uma mentalidade, uma ideia, uma imaginação que quer usar a democracia para asfixiá-la no seu nascedouro”. Será que ele vai conseguir?




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Desafio aos candidatos


Desafio aos candidatos


Professor Nazareno*

Como de costume, nestas eleições são muitos os candidatos. Só para presidente da República são mais de uma dúzia deles. Em Rondônia tem outra penca querendo ser governador do Estado. Para senador, deputado federal e deputado estadual os números se multiplicam exponencialmente. Todos prometendo aquilo que sabem que jamais poderão cumprir. São, portanto, mentirosos e enganadores da boa fé do idiota eleitor. Porém, eles não se preocupam em fazer isso: faz parte do jogo político e todos, eleitores e candidatos, já se acostumaram à hipocrisia que movimenta as campanhas. Terminadas as eleições, recolhem-se aos seus afazeres e aos trancos e barrancos o país, os Estados e muitas vezes os municípios continuam a sua rotina de colapso e de desrespeito ao povo. Os cidadãos que pagam impostos seguem tendo negados seus direitos mais elementares.
Mas no jovem, atrasado e subdesenvolvido Estado de Rondônia, por exemplo, não há a menor necessidade de se fazer tantas promessas inatingíveis. Três realizações, isso mesmo, apenas três fatos poderiam ser resolvidos sem a necessidade de se mentir tanto para os simplórios eleitores. Com isso, metade dos problemas estaria sanada e a “Latrina do Brasil” poderia ter dias melhores. A fumaça absurda que todos os anos atormenta os moradores do Estado. O calvário do “açougue” João Paulo Segundo e o saneamento básico da pior capital do Brasil para se viver. Claro que há inúmeros outros problemas a serem resolvidos como melhoria na qualidade da educação pública, combate à corrupção e melhoria das estradas para escoamento da produção. Só que o sujeito que resolver estes três entraves, jamais deixará de ganhar eleições neste Estado.
Em tempos de preservação do meio ambiente, o governador que resolvesse definitivamente a terrível questão das queimadas nesta parte da Amazônia, ganharia notoriedade internacional. Todos os anos nesta época é um horror morar nas cidades de Rondônia. A fumaça insuportável provoca mortes, fecha aeroportos e lota os precários hospitais da região. Será que nenhum dos candidatos vê este calvário que todos nós, inclusive eles mesmos, sofrem? Estrutura há de sobra no aparelho do Estado para enfrentar o caos. Com inúmeros órgãos responsáveis pela preservação ambiental esta hecatombe amazônica anual poderia ter um fim sem muito esforço. Outro problema é o “açougue” João Paulo Segundo da capital. Será que os candidatos acham bonita sua existência? O “campo de extermínio de pobres” sempre manchou a imagem do Estado.
Quase nenhum dos candidatos, quase nenhuma autoridade daqui parece já ter precisado dos serviços do velho “açougue”. Deve ser por isso que fazem pouco caso dele. O terceiro problema a ser resolvido seria fazer saneamento básico nas cidades rondonienses principalmente na capital Porto Velho. Ver a “cidade da fedentina” figurar todos os anos como o pior lugar do Brasil para se viver parece que não faz nenhuma vergonha aos políticos, mesmo aqueles que são filhos da terra. Por isso, espero que o professor Alecks Palitot e a ativista social Luciana Oliveira, se eleitos, comecem a pensar nesta possibilidade. Seria muito bom também que outros candidatos, que se orgulham de serem filhos da terra, começassem a se movimentar neste sentido. Todos temos esses direitos e não é pedir demais a quem tem o poder de saná-los. Candidato bom não promete, faz: fim das queimadas, mais atenção à saúde e saneamento básico.




*É Professor em Porto Velho.

sábado, 15 de setembro de 2018

Desvendando o rondoniense


Desvendando o rondoniense



Professor Nazareno*

            
     Já ouvi dizer várias vezes que o brasileiro precisa ser estudado devido às suas inúmeras esquisitices. Resultado do cruzamento genético das três etnias majoritárias da espécie humana: negro, branco e oriental, o cidadão do nosso país de um modo geral, segundo as teorias deterministas mais conservadoras, não tem concorrente no mundo todo. Levando-se em consideração este pensamento quem precisa também ser analisado seriamente é o sujeito nascido em Rondônia, um rincão atrasado, subdesenvolvido e esquecido do restante da humanidade. Se o brasileiro comum é fruto de uma mistura racial, o rondoniense ou rondoniano é fruto da “mistura dessa mistura”. Nem superior nem inferior a nenhum outro povo, mas dono de uma esquisitice tamanha nas suas ações que a Antropologia levaria milênios para compreender como eles ainda sobrevivem.
            Muito estranho que os rondonienses tenham como ídolo maior um gaúcho e não um autêntico filho da terra. Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, um preposto da ditadura militar em terras karipunas e que jamais teve um único voto dos eleitores rondonienses, desponta como um verdadeiro Deus por aqui. José Maurício Bustani, diplomata de reconhecimento internacional nunca foi citado pelos moradores locais. Raríssimos rondonienses sabem que ele nasceu em Porto Velho. Carlos Ghosn, megaempresário de sucesso na área automobilística nasceu também em Rondônia, mas por aqui quase ninguém sabe disto. O rondoniano comum costuma endeusar apenas quem nasceu em outro lugar. Tanto é que quase nenhum deles jamais governou o Estado. A prefeitura da capital nunca teve um administrador nascido em terras karipunas. Todos vieram de fora.
            É muito esquisito que o povo rondoniense, mesmo sendo honesto e correto em sua maioria, nas eleições quase só vota e elege candidatos ladrões e corruptos. E de preferência que tenha nascido em outro Estado. O governo estadual, as câmaras municipais e o Poder Legislativo local, por exemplo, estão infestados de forâneos. Neste aspecto, Rondônia é a puta do Brasil e ainda tem que pagar pelo preservativo. Muitos se satisfazem quando pegam um empreguinho qualquer no segundo ou terceiro escalão das administrações públicas. “Tudo para quem é de fora, nada para os nativos” parece ser o lema deste povo bisonho. Os melhores empregos, as melhores colocações, as melhores terras. Tudo para os visitantes. A imponente floresta Amazônica, o Cerrado no Cone Sul do Estado e até o majestoso rio Madeira foram estuprados só para atender aos outros.
            O cidadão daqui parece que está muito bem conformado com o “açougue” João Paulo Segundo, um campo de extermínio de pobres feito sob medida para matar somente quem nasceu aqui. Sim, porque quem é de fora geralmente tem bons planos de saúde e quando a “coisa se complica” volta para se tratar em seus locais de origem. A fumaça criminosa todos os anos alegra também muitos cidadãos nativos. “É o pregresso chegando”, dizem euforicamente. Porto Velho ser a pior dentre as capitais do Brasil em saneamento básico, qualidade de vida e queimadas traz euforia para todos. Futebol nem existe por aqui. Só os times de fora é que merecem destaque. E todo final de ano muitos passam suas férias nas praias do Nordeste, no exterior e também no Centro-Sul do país. Aqui só ficam os pobres. Rondoniense adora andar de barco, mas sem colete. Será que estas “qualidades sinistras” habitam também os que se dizem rondonienses de coração?





*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

BR-319, uma estrada inútil


BR-319, uma estrada inútil


Professor Nazareno*

            Todo ano de campanha política é a mesma ladainha: a rodovia Álvaro Maia ou BR- 319, que liga Porto Velho e Manaus finalmente vai sair do papel e voltará a existir. Tolice, bobagem, conversa para boi dormir, sonho inatingível, lengalenga inútil. Sem nenhuma importância para o desenvolvimento do país, a esquecida estrada cortando o coração da Amazônia já existiu de fato. Inaugurada em 1976, mas sem nenhuma manutenção, ela resistiu só até o início dos anos 80 e hoje se transformou num lamaçal intransponível durante o período de chuvas do rigoroso inverno amazônico. Os dois governos estaduais e o governo federal sempre fizeram pouco caso da sua existência, por isso ela desapareceu. O seu reaparecimento, no entanto, seria a repetição de um erro que pode trazer seriíssimas consequências ambientais para toda a região que ela corta.
            Se a velha estrada não tem nenhuma importância para o Brasil, para a região Norte é igualmente desnecessária. O Amazonas praticamente nada produz em termos de agropecuária e a pouca produção de Rondônia pode ser escoada pela BR-364 em direção ao sul do país. Gastar bilhões de reais para reativar uma estrada fantasma apenas para transportar farinha d’água e peixe Jaraqui é uma insensatez sem tamanho que vai de encontro a toda e qualquer teoria macroeconômica. Isso sem falar que temos o melhor meio de transporte em uso: os rios da região, cuja extensão entre as duas capitais é totalmente navegável. Rasgar a floresta para reativar um caminho que liga “o nada a coisa alguma” é simplesmente decretar a morte de toda a Amazônia brasileira. Com a “Trans-Jaraqui”, em pouco tempo nenhuma árvore será mais vista em seu longo trajeto.
            Fala-se que o atual govenador do Amazonas, Amazonino Mendes, não tem nenhum interesse nessa rodovia uma vez que ele seria dono de várias empresas de navegação. Além do mais, os manauaras e os amazonenses de um modo geral não querem se ligar a Rondônia nem ao restante do Brasil. Se quisessem, não teriam gasto um bilhão e trezentos milhões de reais para construir uma ponte ligando Manaus ao Cacau Pirera e a Iranduba do outro lado do rio Negro. Uma ponte entre Manaus e o  Careiro da Várzea e consequentemente à velha rodovia, teria tirado há tempos a capital do Amazonas do isolamento. Mas ninguém lutou para isso. Sem essa ponte, as duas cidades continuariam sem nenhuma ligação por terra, uma vez que sempre haverá a necessidade de uma balsa para cruzar a área do encontro das águas próxima a Manaus.
            Decretar o fim da Amazônia e de todas as suas riquezas naturais somente para satisfazer a vontade de meia dúzia de turistas pobres é o fim da picada. Tolice por tolice já existe uma ponte aqui que não tem nenhuma serventia mesmo. Chega de gastar dinheiro à toa. E quem teria coragem de dirigir 12 ou 14 horas apenas para tomar banho de rio? Essa idiotice nós já fazemos aqui há tempos. Humaitá já sobrevive em função de Porto Velho e duvido que alguém de bom senso queira se ligar à “capital da sujeira”. Reconstruir a 319 seria a indução talvez ao maior crime ambiental de que se tem notícia. As ONG’s ambientalistas do Brasil e a opinião pública internacional deviam se movimentar para evitar mais esse desastre ecológico. A pavimentação da BR-364, por exemplo, além da enorme devastação ambiental e dos problemas que causou, resultou na burrice que é conhecida hoje por Rondônia. E quem precisaria errar mais uma vez?





*É Professor em Porto Velho.

sábado, 8 de setembro de 2018

Turismo na fumaça



Turismo na fumaça


Professor Nazareno*

           
             Porto Velho, a capital de Roraima, é o cu do mundo. Disso quase todo mundo que tem o azar de morar por aqui sabe. Claro que essa comparação não é para ofender ninguém, pois se deve respeitar essa parte do corpo humano. Sabe-se também que é a última dobra do esfíncter anal e que tem talvez a pior qualidade de vida dentre as capitais do país. E nesta época do ano, a fumaça tóxica das criminosas queimadas dão o toque urbano característico da cidade. Estamos no início de setembro, em pleno verão nesta parte do Brasil, com temperaturas beirando os 40 graus, umidade relativa do ar muito baixa e fumaça sufocante. Visitar a cidade só se for a negócios. Turismo neste buraco quente e asfixiante nem pensar. O apelido de antessala do inferno é fácil de entender se alguém passar pelo menos uma hora andando por suas ruas quentes e sujas.
            Por isso, o desfile de sete de setembro em Porto Velho é algo patético no meio de todo este ambiente infernal. Pelotões se perdem em meio à densa camada de fuligem. Pior: o Corpo de Bombeiros, ironizando a todos os presentes ali, desfila seus modernos carros de combate a incêndios florestais. Autoridades se cumprimentam e o povão aplaude a todos no meio daquele verdadeiro inferno na terra. Entra ano e sai ano e a fumaça densa atormenta os moradores. Crianças e velhos doentes lotam os poucos e despreparados hospitais públicos. Rinite alérgica, asma, bronquite, sinusite e outras doenças da estação é o que mais se observa nesta época. Uma vergonha se levarmos em consideração que aqui temos Bombeiros, SIPAM, Sivam, Sema, IBAMA dentre muitos outros órgãos responsáveis pela defesa do meio ambiente e das florestas equatoriais.
            Ninguém sabe qual a época do ano é a pior por aqui. Quando terminar este suplício sufocante, vêm as chuvas torrenciais com rajadas de ventos que derrubam árvores, torres de comunicação, sinais de trânsito e provocam as já famosas alagações com lama podre entrando nas residências feitas de palafitas. As ruas sem esgotos ou saneamento básico se enchem rapidamente de água contaminada e pútrida. Os poucos bueiros são tomados por lixo, papel, plástico e garrafas pet provocando um caos urbano só visto nas piores cidades do mundo subdesenvolvido. O martírio na “capital do lixo” passa a ser movido a água. Só escapa da hecatombe quem tem a sorte de morar nos dois ou três únicos edifícios da urbe. Para completar a bagunça, a cidade não tem mobilidade urbana nenhuma. Moto táxis, táxis compartilhados e ônibus velhos completam o caos.
            Sem nenhum acanhamento, os políticos estão agora à cata de votos. Mesmo aqueles que nada fizeram pela cidade. Na maior cara de pau os miseráveis prometem mundos e fundos para os sofridos eleitores porto-velhenses. Só que quanto menos eles fizerem por Porto Velho e por Rondônia mais chances eles terão de ser eleitos. Essa rotina amaldiçoada se repete a cada ano que tem eleições. Nenhum deles promete, por exemplo, acabar com a fumaça e o lodaçal, marcas registradas das duas únicas estações climáticas da cidade. Passam-se as eleições, sai verão, entra inverno e a rotina de sofrimento e angústias continua a nos fazer companhia. Para fazer turismo na “capital da fedentina” é necessário usar máscara no verão e botas sete léguas no inverno. As campanhas do governo do Estado, em outdoor e cartazes, para acabar com as queimadas não são lidas porque há muita fumaça. Turismo em Rondônia: estágio para o inferno.




*É Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma facada no Brasil


 Uma facada no Brasil 

Professor Nazareno*

O covarde ataque contra a vida do presidenciável Jair Bolsonaro durante atos de  campanha eleitoral em Minas Gerais mostra ao mundo a verdadeira face do Brasil: incivilidade, violência, selvageria, ódio, vingança, desejos homicidas e acima de tudo intolerância às posições políticas divergentes. A facada durante o trágico atentado político atingiu não apenas o candidato do PSL, chamado por muitos de “mito”, mas principalmente acertou a já fragilizada imagem do Brasil no mundo civilizado. Jair Bolsonaro nem nenhum outro ser humano merecia sofrer algo tão bárbaro e medieval como esse ataque abominável. Ideias se combatem com outras ideias. Argumentos se contestam com outros argumentos. Posições políticas contrárias se enfrentam com outras posições políticas, nunca com tiros, facadas ou violência gratuita e premeditada.
Eu particularmente nunca concordei e nem concordo com a maioria das posições políticas assumidas pelo candidato Bolsonaro. Não só as ideias do ex-militar, mas de muitos outros candidatos que estão nesta disputa. Entendo que a solução para o Brasil não passa pela violência nem pelo acirramento do ódio entre as pessoas. No campo das ideias e dos argumentos tenho as minhas convicções que são totalmente divergentes das dele e de todos os seus apoiadores e simpatizantes. Nenhum atentado vai destruir ideias e substituí-las por outras. Só a dialética, o debate saudável e a discussão podem levar a um consenso. Os problemas da democracia têm que ser resolvidos sempre com mais democracia. Essa estupidez inexplicável coloca o nosso país ao lado das atrasadas repúblicas bananeiras e também das nações terceiro-mundistas da África subsaariana.
Essa agressão infame não foi somente contra um candidato à Presidência da República. Foi contra a civilidade e também contra qualquer ser humano que deseja a paz e a tolerância entre os cidadãos. E tomara que a barbárie tenha sido apenas mais um atentando político e não, como muitos já estão afirmando nas redes sociais, que se trata de uma encenação sórdida para arrebatar mais votos, admiração e apoio ao ex-militar da extrema direita. “Atentado sem sangue?” é a frase dos opositores que mais se vê na internet. A campanha política tem que ser tranquila. São os projetos que precisam ser discutidos e não as pessoas ou suas atitudes. Nada de querer metralhar militantes do PT ou de qualquer outro partido. Essa postura lamentável provoca infelizmente mais ódio entre o povo. O Brasil vive hoje dias de muita tensão desde o fatídico golpe de 2016.
O voto de Jair Bolsonaro na ocasião do golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff do PT foi uma incitação grosseira à violência e à tortura. Pouca gente se esqueceu daquele triste episódio. O ódio e a insensatez, que não justificam facadas, cresceram e infelizmente culminaram nesta incivilidade. Nada de dar porrada em pessoas. Nada de “bandido bom é bandido morto”, de pena de morte, de diminuição da maioridade penal, de ataques a homossexuais, quilombolas e outras minorias, nada de desrespeitos aos direitos humanos nem de perseguição a ninguém. Tomara que Jair Bolsonaro saia logo dessa com muito mais saúde e disposição para poder entender que suas posições políticas estão equivocadas, ultrapassadas e que por isso merecem ser repensadas e mudadas para o bem do Brasil e de todos nós. Saúde longa ao “mito”. O nosso país não precisa de violência nem de radicalismos para ter futuro. Precisa de paz.





*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O “mito” de mãos atadas


O “mito” de mãos atadas


Professor Nazareno*

            
             À medida que avança a campanha eleitoral no Brasil, tem-se cada vez mais uma certeza macabra: Jair Bolsonaro, o candidato reacionário da extrema direita, pode disputar o segundo turno com outro concorrente. Chamado de “mito” pelos mais fanáticos seguidores, ele continua disparando a sua metralhadora verbal à cata dos votos daqueles eleitores mais incautos, despolitizados, tolos e sem leitura de mundo. Assim como outros déspotas, como o Collor e o próprio Lula, todos equivocadamente também chamados de mito e de salvadores da pátria, Bolsonaro encarna o que de mais estranho, antidemocrático e ultrapassado existe na política moderna. E pelas suas absurdas declarações, o que se vê é um candidato cujas propostas políticas semeiam o ódio, o medo, a vingança e a divisão cada vez mais acentuada entre os cidadãos brasileiros.
            O insólito crescimento nas pesquisas, no entanto, não mostra nenhum mérito do ex-militar da extrema direita. Ele cresceu e apareceu por causa da maneira fracassada de se fazer política neste país. Crise, inflação e caos social fizeram-no ganhar terreno e se projetar na cabeça dos eleitores como mais um dos nossos muitos “salvadores da pátria”. O caótico governo de Michel Temer foi o combustível que adubou e deu fôlego à campanha mais reacionária da nossa História recente. A roubalheira do PT e do presidiário Lula também contribuíram para esse falso “fenômeno eleitoral”. Há muito tempo que o Estado brasileiro é ineficiente e injusto para com os seus cidadãos. E como no Brasil da “Nova República” de Sarney e em países derrotados em guerras criou-se o terreno fértil para se pregar ideias mirabolantes. Eis, de novo, a “tábua da salvação”.
            Mas eleito, o “mito” pouco pode fazer. E suas promessas não passarão disso: só promessas mesmo. O atual sistema presidencialista engessa e inviabiliza toda e qualquer pretensão do chefe do Executivo e a Constituição está repleta de cláusulas pétreas. Além disso, existe o Congresso Nacional onde, se o presidente eleito não tiver maioria, pode ter parte de suas propostas vetadas. Isso sem falar no Ministério Público e no Poder Judiciário, que estão cada vez mais atuantes e fiscalizadores. Bolsonaro esquece que o Brasil é signatário de várias convenções e de tratados internacionais e por isso não pode deixar de cumprir o que foi acordado. Porém a maioria de seus ingênuos eleitores não entende nada disto e assim alimenta vãs esperanças de que o seu “herói” será o todo poderoso que tudo pode. Alguém viu, por exemplo, algum marajá que o Collor caçou?
            Mulheres, quilombolas, negros, índios, presidiários, homossexuais e algumas minorias podem até votar no “mito”, mas primeiro deveriam se informar melhor sobre as funções de um presidente da República num sistema presidencialista e democrático. “Ninguém vai deixar de votar em Bolsonaro a essa altura”, comentou nas redes sociais um professor de Filosofia do Amazonas. E continuou: “ele é apenas um amplificador do preconceito e uma autoimagem de muitos brasileiros. É racista, homofóbico, misógino, sádico e subletrado. E muitos brasileiros têm um Bolsonaro perto de si”, ironizou. Porém é bom que se diga: quase não há candidatos em quem se possa confiar. É tudo mais do mesmo. Para presidente e também para governador dos Estados o que se observa é a mesma desgraça sendo repetida. “Mas o senhor Jair Messias Bolsonaro não é um mito, é só um espelho da ignorância brasileira”, concluiu o professor amazonense.




*É Professor em Porto Velho. (http://blogdotionaza.blogspot.com/)

domingo, 2 de setembro de 2018

O meu governador!


O meu governador!

Professor Nazareno*

            
        Claro que eu vou votar em governador nas próximas eleições. E até já escolhi o candidato que terá o meu voto para administrar Rondônia pelos próximos quatro anos. O meu escolhido é um legítimo “karipuna” e nasceu aqui mesmo nestas longínquas e atrasadas terras. Ama de verdade o Estado e não é um amor falso daqueles apenas “de coração” como muitos afirmam. O meu futuro governador é muito diferente de todos os que já mandaram nesta província esquecida e distante. Ele não pertence a nenhum partido político nem fez coligações com nenhum outro candidato ou grupo. Anda sempre no meio do povão, não tem nenhum plano de saúde e quando adoece vai a uma UPA esperar o médico em uma fila e se gaba de já ter sido internado no “açougue” João Paulo Segundo, de onde saiu vivo e ainda muito mais saudável do que quando entrou.
            O meu governador vai recriar a feira agropecuária de Porto Velho, a Expovel, já que a merda e a sujeira combinam muito bem com a capital e com muitos de seus imundos habitantes. Já Rolim de Moura continuará com a sua sem problema nenhum. E mesmo que Rondônia não tenha nem nunca teve importância nenhuma para o resto do país, ele criará uma lei para punir todos aqueles que confundirem o nosso Estado com Roraima. Assim, em pouco tempo deixaremos de ser o “gogó do Brasil” e os nossos menos de 0,8% da população nacional terão maior reconhecimento. O meu líder nunca foi preso nem nunca respondeu a nenhum processo na Justiça. Sua candidatura é ficha limpa, portanto. Muito menos comprou votos a cem reais e nem a preço nenhum. Na sua administração todos os “açougues” serão transformados em bons hospitais públicos.
            Eleito, ele transformará de uma vez por todas o aeroporto de Porto Velho em internacional. A capital terá a partir de agora lindos e iluminados natais. E nada de pneus velhos e ridículos para envergonhar os nossos tolos moradores, embora isso dê muitos votos e até aceitação popular. Na sua administração futurística, todo rondoniense se orgulhará do seu Estado. A ponte escura e inútil do rio Madeira será cartão postal junto ao superfaturado Espaço Alternativo com a sua sinistra roda gigante do atraso. Com ele teremos novidades na área de pessoal, pois haverá concurso público para contratar somente os comissionados. Meu governador defenderá de forma intransigente a família, principalmente a dele, já que o mesmo está no terceiro ou quarto casamento e publicamente admite que tem vários filhos com muitas das suas assumidas amantes.
            A partir de 2019, todo habitante de Rondônia terá que torcer obrigatoriamente por um time de fora. Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Vasco, São Paulo dentre outros terão torcidas devidamente acomodadas em botecos de quinta categoria. Nada de Genus ou Rondoniense. Na Copa do Mundo, por exemplo, serão distribuídas gratuitamente camisas amarelas e outros adereços que lembrem o nosso esquadrão canarinho. Fiscais se encarregarão de garantir que todos torcerão pela seleção pentacampeã do mundo. Violência não haverá mais por aqui. E como um bandido custa mais do que um aluno da rede pública, todos serão incentivados a ser bandidos também. “Tudo para quem é de fora, nada para os nativos” será o lema do novo governo. Energia barata, os melhores empregos, terras produtivas, cargos públicos. Todo cidadão forâneo será contemplado e amado. Médicos formados na Bolívia terão prioridade. Meu governador não é um herói?




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Rondônia para otários



Rondônia para otários


Professor Nazareno*

Calama, a bucólica vilazinha do Madeira já tem médico. Não só médico, mas uma equipe completa com dentista, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista e vários outros profissionais da saúde. Remédio na sua unidade de atendimento é o que não falta. Tem também laboratórios para detectar malária e tem soro antiofídico para resolver imediatamente todos os acidentes com cobras peçonhentas. Imaginem que tem até um lindo e funcional porto rampeado. O cemitério da vila foi todo cercado com um muro de dois metros de altura e construíram lá no alto São José um lindo campo de pouso para atender às emergências. Essa rotina de progresso e desenvolvimento também é vista em outras localidades do baixo Madeira como São Carlos e Nazaré bem como em todos os distritos da BR 364. Os 52 municípios do Estado também desfrutam dessas benesses.
Em Rondônia, a rotina de progresso e desenvolvimento é uma realidade a olhos vistos. Porto Velho, a outrora imunda e suja capital do Estado, é uma espécie de jardim encantado com flores, praças, recantos de lazer, saneamento básico, água tratada, mobilidade urbana e quase zero de violência. A ponte do rio Madeira não é mais escura à noite. Turistas se encantam com o brilho das luzes refletindo nas águas turvas do rio. A rodoviária da capital é um deslumbre só. Banheiros higiênicos, funcionários sorridentes e bom atendimento com ônibus sempre chegando e saindo no horário certo. Pontualidade é a rotina sempre a ser seguida naquele limpo e aconchegante ambiente. Igarapés cheirosos e cristalinos cortam as ruas sempre floridas e cheias de crianças brincando. Porto Velho é um paraíso com coelhinhos saltitantes e borboletas azuis.
O “açougue” João Paulo Segundo é uma referência em vários tipos de doença. Cientistas do MIT e da Universidade de Oxford, por exemplo, lhe fazem visitas rotineiras para aprender com os médicos que ali trabalham como prestar excelentes atendimentos e como salvar tantas vidas de pessoas humildes e carentes. A Unir, Universidade de Rondônia, já conta com um lindo e enorme hospital universitário. Formandos em Medicina, muitos alunos dali ensinam a seus colegas estrangeiros como erradicar várias doenças. O aeroporto local faz voos regulares para a Europa e os Estados Unidos. O porto do Cai N’água é uma espécie de ajuntamento de turistas e viajantes. De Cabixi a Calama, de Machadinho do Oeste a Extrema o que se observa é o respeito à natureza aliado à produção de grãos com esforços em prol dos mais pobres.
Rondônia é uma potência que salvará o mundo, afirmam muitos especialistas. A cultura em expansão mostra a riqueza do Estado. O acanhado estádio Aluízio Ferreira foi todo reformulado e hoje tem capacidade para mais de 30 mil torcedores sentados confortavelmente. O ginásio Cláudio Coutinho recebe semanalmente jogos de todas as modalidades esportivas. Anitta e Rafinha Bastos já fazem suas apresentações artísticas em Porto Velho sem risco de xenofobismo barato. As nossas hidrelétricas fornecem energia abundante para alavancar o progresso do país. A educação no Estado é de tempo integral e as escolas são verdadeiros laboratórios de novas ideias e de pesquisas em todas as áreas do saber. O governo do Estado e a Prefeitura de Porto Velho não têm mais um só funcionário comissionado em seus quadros e a capital já desbanca em IDH qualquer cidade europeia. Acordem, otários! Já começou a campanha eleitoral por aqui.





*É Professor em Porto Velho.