quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Prof. Carlos, um sonhador


Prof. Carlos, um sonhador


Professor Nazareno*

            
          Carlos Alberto Bezerra de Freitas ou simplesmente professor Carlos do colégio Classe A é uma dessas pessoas que passam pela nossa vida e deixam não só saudades, mas principalmente muitos ensinamentos. Professor de Química formado em Campina Grande, interior da Paraíba, o professor Carlos chegou a Rondônia ainda na década de 1980 e começou a lecionar no colégio Orlando Freire em Porto Velho. Junto com outros colegas professores acreditou na ideia de uma educação de qualidade e por isso fundaram o Classe A, colégio que se tornou uma referência na educação de Rondônia nos últimos tempos. Durante 12 anos consecutivos, o colégio do professor Carlos liderou o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio, em todo o Estado de Rondônia. O Classe A também é líder absoluto nas aprovações do ITA e em várias outras escolas.
            Tive o prazer de trabalhar com o professor Carlos no Classe A. Entre 2004 e 2013 prestei serviços àquela escola de renome e lá aprendi muitas coisas com o jovem e dedicado mestre. Disciplina, organização pedagógica e competência formavam o tripé de sua visão escolar. E isso ele implantou com maestria no seu estabelecimento de ensino durante quase três décadas. Ser “aluno Classe A” não era para qualquer um. Estar morando em Rondônia e estudar em uma das 200 melhores escolas do Brasil sempre foi um privilégio, um grande orgulho. Carlos sempre soube como ninguém escolher a sua equipe de professores e colaboradores. Incentivava a todos e sempre sincero e acolhedor, não media esforços para ajudar os que mais necessitavam. Do servente ao mais graduado professor, ele tratava a todos com igualdade e muito respeito.
Da Páscoa Solidária aos mais incríveis projetos sociais e educacionais. Assim era a rotina de uma das melhores escolas de Rondônia e do Brasil. Muito diferente de minhas posições, o professor Carlos sempre acreditou em Rondônia e nas potencialidades de sua gente. “Devo tudo o que tenho a este brilhante Estado”, costumava me dizer sem arrodeio, quando “chateado” lia alguns dos meus textos. Tentei, sem sucesso, várias vezes convencê-lo a não gostar de um lugar tão atrasado, sujo e inóspito. “É preciso ter gratidão, Babaloo!”. Guardadas as devidas proporções, a Educação de Rondônia se divide em duas partes bem distintas: antes e depois do Colégio Classe A. Impossível para muitos médicos, advogados, engenheiros, e tantos outros profissionais liberais não se lembrarem dos ensinamentos deste grande homem.
Suas lições de honestidade, competência, humildade, reconhecimento e acima de tudo humanidade nunca serão esquecidas pelas novas gerações. O professor Carlos do colégio Classe A nos deixará muitas saudades, é verdade. Sua ida precoce nos entristece como se tivéssemos perdido alguém da nossa família. E perdemos mesmo: a família Classe A está de luto por esta irreparável e insubstituível perda. A educação de Rondônia perdeu um dos seus maiores baluartes e um dos seus maiores incentivadores. Carlos engrandeceu o nome de Rondônia dentre as melhores escolas do país. Eu fico um pouco mais pobre agora que meu amigo “resolveu” nos deixar. Mas todos nós temos de nos conformar. São as regras já estabelecidas e que não podemos e nunca vamos mudar. Aos familiares, minhas mais sinceras condolências. Carlos se foi, mas nos deixou sua marca indelével. Seu sonho se transformou em realidade. E o Classe A nos será eterno.




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Merda na cidade sitiada


Merda na cidade sitiada


Professor Nazareno*


   Porto Velho, a eterna capital de Roraima, se transforma agora durante o rigoroso inverno amazônico na “Veneza do Norte” devido às fortes chuvas na região. Já durante o verão, no meio do ano, pode ser chamada também de a “Pequim dos Trópicos” devido à poeira e à fumaça das criminosas queimadas. Nesta quarta-feira, dia 9 de janeiro de 2019, a capital dos rondonienses amanheceu do jeito que o diabo gosta: toda alagada e sitiada pela lama podre. Suas principais ruas e avenidas foram tomadas por água infecta e fedorenta congestionando o já precário trânsito e transformando a vida dos seus moradores num verdadeiro inferno. As ruas viraram rios. Os previsíveis vendavais amazônicos da época castigaram impiedosamente a mais suja e imunda dentre as capitais do Brasil e pioraram ainda mais o inexistente IDH dos seus infelizes moradores.
Entra prefeito e sai prefeito e a desgraça não acaba. Grande parte dos habitantes da cidade se parece com hienas: felizes, embora tenha que comer carne podre a vida toda. Acredita-se que já se adaptaram ao inferno que é viver aqui. O festival de merda boiando e invadindo as precárias residências parece alegrar muita gente. Ninguém, mas quase ninguém, cobra absolutamente nada das autoridades municipais. Pagam o seu IPTU e seguem felizes com a sua macabra rotina de conviver no meio de tanta bosta. O penúltimo prefeito da cidade, o Dr. Mauro Nazif, nada fez para acabar com o rotineiro tormento, embora tivesse sido sua principal promessa de campanha. Nada fez, mas foi eleito deputado federal com uma soma assombrosa de votos dos tolos porto-velhenses. É inútil procurar saber de quem é a culpa pela hecatombe que vivemos todos os anos.
Muitos daqui são porcos e por isso também “contribuímos” para a catástrofe. Jogamos lixo no chão, entupimos os raros bueiros, não somos higiênicos e não cuidamos da nossa urbe. Se Porto Velho fosse uma mulher, todos nós seríamos enquadrados na Lei Maria da Penha. É claro que as autoridades têm também a sua parcela de culpa. O atual prefeito, o Dr. Hildon Chaves do PSDB, se elegeu prometendo transformar a “maldita currutela fedida” em uma cidade boa e digna para se morar. Fez até versinhos ridículos durante a campanha eleitoral para enganar os otários. Deu certo: foi eleito com uma soma avassaladora de votos. “Vou curar tuas feridas, limpar todos teus cantos, enterrar os desencantos” disse o mentiroso político. E ainda falou que não ia enganar, pois só sabia realizar. E concluiu: “vou perfumar os teus canteiros e ares”.
Mas tudo isso pode ser “café pequeno” diante do que pode estar por vir. O rio Madeira não dá tréguas e promete para 2019 uma enchente avassaladora pior do que aquela de 2014. Sem a menor infraestrutura, a cidade será coberta de dejetos e lama podre. Como se já não nos bastassem o lixo, a carniça, a fedentina, a merda, os ratos e os urubus que enfeitam a paisagem urbana. O pandemônio que se anuncia pode ser a tão esperada chuva de merda na cidade. Porto Velho não tem água tratada e sua rede de esgotos não é superior a três por cento. Raríssimos habitantes daqui sabem o que é limpeza. Cobramos, às vezes, das autoridades, mas geralmente não damos o exemplo. Além do mais, o inverno amazônico está apenas no começo. Faltam os meses de janeiro quase todo, fevereiro e março. Até lá talvez já tenhamos aprendido “a comer merda” e a “matar a sede com água podre”. Há turista disposto a presenciar bosta no meio da rua?




*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Ícone em apenas dez dias


Ícone em apenas dez dias


Professor Nazareno*


   Mal tomou posse na Presidência da República, o senhor Jair Messias Bolsonaro, o “Mito”, encantou a todos com a sua maestria em saber bem administrar o povo brasileiro. Demonstrou competência, carisma, sabedoria e acima de tudo bom senso na difícil arte de conduzir os destinos de um país tão complexo como o nosso. O Brasil nunca mais será o mesmo depois desta “administração dourada”. Cercado pelo que de melhor há em termos de pessoal, ministros e assessores, Bolsonaro é um poço de sabedoria que já está recusando convites de várias universidades e centros de pesquisas do mundo para dar palestras sobre administração, visão de mundo e principalmente humanidades. Harvard, MIT, Cambridge, Sorbonne, Stanford, dentre outras escolas, querem seus ensinamentos. Se John Reed estivesse vivo, outra grande obra seria escrita.
Os dez dias que abalaram o Brasil” seria mais um best-seller com tiragens esgotadas em centenas de idiomas. Os eleitores de Bolsonaro estão encantados com todas as suas ações como o líder maior do país. Muitos dos professores de História e  apoiadores de primeira hora do “Mito” estão deslumbrados e extremamente satisfeitos com o seu “Estimado Líder”. Desde a posse, suas sábias decisões comovem a todos. Da caneta Bic ao relógio barato, o país não fala em outra coisa. As redes sociais não param de mostrar os feitos do “mais humilde dos homens”, que fora mandado por Deus para salvar o Brasil e os brasileiros. Muitos homossexuais, travestis, quilombolas, indígenas, educadores, pais de família e outras minorias se regozijam de orgulho e felicidade pela retumbante e acertada escolha que fizeram. De “Mito”, ele logo será promovido a Deus.
Seus filhos são amados pelo Brasil inteiro. Íntegros, honestos e batalhadores nunca se envolveram em escândalos. Sempre estiveram ali, colados ao lado do pai e mostrando o real valor da família.  Seu vice é também outra estupenda figura de enorme aceitação popular. Militar de excelentes serviços prestados ao país ele tem um filho que, apenas por sua ilibada competência, vai prestar assessoria ao Banco do Brasil com um salário de 37 mil reais mensais. A ministra da ‘Mulher, Família e Direitos Humanos’ não poderia ter sido uma melhor escolha por parte do “sábio” presidente. Damares “Goiabeira” Alves emociona a todos com a sua fala e as suas elucubrações. Desbancou Simone de Beauvoir com a sua retórica e os seus saberes quase divinos. E já sabiamente previu: “menino veste azul e menina veste rosa”. É uma ministra “terrivelmente” cristã.
Para onde se olhe nestes poucos dias de administração Bolsonaro, o que se vê é um festival de competência, brilhantismo, profissionalismo e amor pelo Brasil. Até nos Estados, muitos dos governadores que foram eleitos à sua sombra se esmeram em mostrar trabalho só para agradar e satisfazer o “abençoado” líder. Funcionários comissionados foram todos demitidos para o bem geral. Nepotismo, por exemplo, é uma palavra já devidamente riscada do mapa político nacional. Relações com a mídia é algo incentivado desde o primeiro dia de governo. No plano externo, nada de subalternidade aos interesses internacionais. “O Brasil a partir de agora assumirá em definitivo a sua verdadeira posição no mundo globalizado”, é o mantra que mais se ouve no Itamaraty. Não consigo entender: onde estivemos neste tempo todo que não vimos essas pessoas abençoadas para nos liderar? “Bolsonaro que estás no céu, santificado seja teu nome...”.




*É Professor em Porto Velho.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Parabéns, prefeito e governador!


Parabéns, prefeito e governador!


Professor Nazareno*


        O prefeito de Porto Velho Dr. Hildon Chaves e o recém-eleito governador do Estado coronel Marcos Rocha tomaram recentemente uma heroica decisão: não vão colocar dinheiro público para patrocinar o Carnaval de Porto Velho em 2019. Decidiram também que qualquer verba disponível será (?) investida nas áreas da saúde e da educação do município e do Estado. Para se ter uma ideia, as escolas de samba daqui pediram à prefeitura “somente” meio milhão de reais para sair às ruas. Um acinte, uma piada de mau gosto, um desrespeito aos contribuintes. Um Estado cuja capital tem um “açougue” como o João Paulo Segundo não pode mesmo investir um só centavo público numa festa que só serve para sujar as já emporcalhadas ruas. Uma cidade como Porto Velho, a pior dentre as capitais do Brasil em IDH, não pode gastar dinheiro com orgia.
Porto Velho e Rondônia não têm cultura. Aliás, nunca tiveram. E não adianta citar a Sociologia, a Filosofia ou a Antropologia para dizer o contrário. Tudo aqui é cópia, e muito mal feita, do que acontece lá fora. O Carnaval daqui é uma porcaria que não chega nem aos pés do que acontece no Rio de Janeiro. O mês de junho é uma desgraça só, que sequer imita Parintins ou mesmo Manaus. Festas juninas iguais a Campina Grande na Paraíba nem em sonho. Futebol, se esta bobagem for cultura, também não existe por aqui. Só um tal de Genus faz a alegria de cinco ou seis torcedores. Aqui só se torce pelos times de fora. Então, para que se gastarem milhões em reais com estádios ou estrutura desportiva? Até o “ginásio de esportes” da cidade, o Cláudio Coutinho, tem servido para tudo menos para a verdadeira prática de esportes.
Não tenho nada contra o Carnaval, o São João, a quadrilha, o boi, o futebol ou outra “manifestação cultural” qualquer. Elas têm que existir e em alguns casos até divertem as pessoas. Mas tudo tem que ser bancado com o seu próprio dinheiro. Agora, se não têm recursos para existir, que desapareçam e deixem o Erário em paz. Não sei se a famosa banda consegue sobreviver sem verbas oficiais. Se conseguir, ótimo. Desfile com os seus brincantes e dê estrutura para todos eles. Nada de sujar e emporcalhar as já imundas ruas com lixo, imundície, sujeira e depois não mandar limpar nada. O Poder Público, na maioria dos casos, oferece a rua, a polícia para fazer segurança e ainda tem seus horrorosos hospitais entupidos de gente baleada, esfaqueada e ferida por acidentes de trânsito, tudo consequência da folia. Verbas para educação e saúde é o mais correto.
Porém, tomara que essa verba seja mesmo investida nessas áreas tão carentes do nosso Estado e de nossa cidade. É preciso que haja fiscalização. Chega de “açougue” e de UPAS sem remédios e médicos. Não votei em nenhum dos dois, mas sou obrigado a admitir que eles estão certíssimos nesta decisão. Agiram como estadistas de Primeiro Mundo: primeiro as necessidades, depois as festas e o supérfluo. A tal “Marcha para Jesus” se recebe ajuda oficial, essa prática tem que ser abolida também. Da mesma forma, nada contra a religião de ninguém. Mas é preciso se levar em conta que não há nada mais rico e cheio de dinheiro do que essas Igrejas. Claude Lévi-Strauss, antropólogo franco-belga, disse que se quiser acabar com um povo, basta acabar com a sua cultura. Em Porto Velho e em Rondônia acontece o contrário: se acabar essas tolices, salvará esse povo do desperdício e da miséria. E lhe dará uma melhor existência.




*É Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O Brasil de Angela Merkel


O Brasil de Angela Merkel


Professor Nazareno*

                
               Independente de quem tenha dito a célebre frase, o Brasil realmente não é um país sério. Mal tomou posse, o novo governo “de salvação nacional” apenas deu prosseguimento às “brasileirices” já amplamente conhecidas por todos nós. De norte a sul do país o que se viu em apenas dois ou três dias foi um espetáculo de bizarrices e de ações governamentais que lembram os velhos governos. Nada mudou ainda. O povo, burro e desinformado como sempre, foi às urnas na vã esperança de ter dias melhores e o que se vê é um festival de velhas práticas quando se trata da coisa pública. “É muito cedo para se colher resultados”, dirão alguns eleitores ainda otimistas a essa altura do campeonato. O governo Bolsonaro já começou todo errado e o do coronel Marcos Rocha em Rondônia também. Até agora, nada se viu de novo “nem aqui e nem acolá”.
            O governo do Bolsonaro vai ficar caracterizado como o governo das cores”, como muito bem disse o professor Francisco Xavier Gomes de Cacoal: “a campanha foi feita em verde, amarelo e azul. Na posse, ele declarou guerra ao vermelho. Nossa bandeira nunca será vermelha, disse. A ‘ministra da goiabeira’, Damares Alves, declarou em discurso que ‘menina usa rosa e menino usa azul’. O motorista da família ganha em um ano uma grana preta. Um dos filhos de Bolsonaro parece gostar mais de laranja. O SBT, a TV da família, faz a parte da imprensa marrom. E o clima está ficando cinza...”. Em países sérios como a Alemanha, por exemplo, nenhum governante se sustentaria no cargo por muito tempo se falasse essas tolices para a nação. Mas no Brasil, o nível de leitura de mundo do nosso eleitorado dispensa qualquer comentário.
            Já pensou a chanceler alemã Angela Merkel demitir todos os funcionários comissionados e fazer propaganda disso? Óbvio que ela diria que demitiu muitos, mas iria contratar outros tantos. “Tiro os teus e coloco os meus”, é a regra daqui. Não haverá economia de nada. As despesas podem inclusive aumentar com tantos funcionários contratados sem concurso. Comissionado é uma velha prática que precisa acabar, simples assim! Só que nenhum governante eleito falou isso para o eleitorado. E na maior cara de pau continuará com a prática. É preciso “despetizar” o governo. Porém, como nada é para sempre, depois haverá também a necessidade de “desbolsonarizar” esse mesmo governo? E viajar a custa do contribuinte? Se a presidente da Croácia, Kolinda Kitarovic visse o péssimo exemplo dado em Rondônia, ficaria envergonhada.
            Se esse governo fosse realmente sério, a ministra Damares Alves não daria tantas declarações folclóricas e absurdas. “Ou se cala ou será advertida”. Será que ela já ouviu falar em Simone de Beauvoir? O caos se aproxima: em vez de tentar resolver os problemas reais do país, Bolsonaro quer combater o que nunca existiu como kit gay, ideologia de gênero e Socialismo. O Brasil socialista é um engodo inimaginável que só existe na cabeça dele e de alguns de seus seguidores. Em Rondônia, será que o novo governador não percebeu a tolice que fez ao viajar a Brasília e de ter deixado o Estado quase três dias praticamente sem funcionar? E nem precisa citar o escândalo das diárias. Os novos governantes deveriam imitar Angela Merkel e não continuar com as mesmas práticas do Temer, da Dilma, do Lula e do PT. O Brasil queria mudanças, mas onde é que estão elas? Ou esses novos “sábios” mudam sua postura ou nada mudará no país.




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Rondônia: já começou errado


Rondônia: já começou errado


Professor Nazareno*


        O governador de Rondônia é o coronel Marcos Rocha do PSL. Foi eleito com mais de 530 mil votos e tomou posse ontem, dia primeiro de janeiro, como manda o figurino. Mas hoje, dia 2, já é feriado em todo o Estado. E quem decidiu isto não foi ele,  o governador atual. Foi o seu antecessor, Daniel Pereira, que sequer concorreu à reeleição. Ainda no cargo, Daniel determinou que a data de instalação do Estado de Rondônia deveria ser antecipada em dois dias. Ou seja, o seu decreto assinado no dia 28 de dezembro de 2018, quando ainda era governador de Rondônia, “invadiu” a administração do seu sucessor. Nenhum artigo ou inciso da Constituição local prevê que um governador pode “ordenar” no mandato do outro. Se houver qualquer antecipação de feriado ou outra providência futura, isso deveria ser atribuição do atual governante.
Antecipar feriado para coincidir com outros feriados é uma invenção tipicamente brasileira. Mas está errado e os primeiros a não permitir essa “brasileirice” deviam ser os governantes. O fato histórico aconteceu em data específica e isso não pode e nem deve ser mudado por decretos ou questões que fogem à lógica e à compreensão. O dia da independência do Brasil é sete de setembro, por exemplo. Nada de antecipar ou adiar essa data. Nem essa e nem nenhuma outra. É desrespeitoso com nossos ancestrais e com a própria História. O Estado de Rondônia foi criado no dia 22 de dezembro de 1981 e instalado no dia 4 de janeiro do ano seguinte. São datas históricas da nossa realidade e acabou a conversa. Feriado no dia 2 de janeiro em Rondônia é uma aberração criada somente para atender a desconhecidos interesses alheios. Isso devia ser proibido por lei.
O novo governo foi eleito para mudar a realidade do país. E também a do nosso Estado. “São novos tempos e novos costumes”. É o que se comenta. Mas já começou aceitando as velhas regras e inclusive “cumpriu” um feriado em sua administração que fora criado por outro governante totalmente alheio ao seu mandato. Não são coisas de Rondônia apenas. São coisas do Brasil, que insistem em permanecer incutidas na nossa cultura e na nossa História, infelizmente. Será que os eleitores mudaram tudo para tudo continuar do mesmo jeito? A nomeação de parentes direitos para a administração pública foi algo tenazmente combatido durante anos no Brasil. É nepotismo e precisa ser banido da vida pública deste país. E o que se vê lamentavelmente é um festival de nomeações “domésticas” de norte a sul do país. Parece até com os governos dos Sarney.
E não adianta dizer que é uma questão pequena, algo sem importância que não faz diferença nenhuma. Faz diferença, sim, pois as mudanças reais de uma sociedade começam sempre nas pequenas coisas. Tão brasileiro quanto saquear uma carga tombada, esse costume enraizado e desrespeitoso de “antecipar feriados para coincidir com outros feriados” tem que acabar. É uma espécie de corrupção às avessas. E os novos governantes prometeram solenemente dar um fim a essas velhas práticas. Mas em Porto Velho, a “capital brasileira das farmácias” quase não foi sentida essa mudança de datas, pois quem tem dinheiro caiu fora para passar Réveillon nas praias do Nordeste, na paradisíaca Serra Gaúcha e até fora do país. Num lugar onde a principal emissora de TV transmite o Jornal Nacional com uma hora de atraso, que mal há em um governador “invadir” a administração do outro e antecipar um simples feriado? É Rondônia, mano!




*É Professor em Porto Velho.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Retrospectiva Macabra


Retrospectiva Macabra


Professor Nazareno*

            
             Todo lugar decente, civilizado, desenvolvido e amado pelo seu povo tem a sua retrospectiva dos últimos 365 dias. Talvez por isso, Rondônia não tenha nenhuma lembrança. Tem apenas a repetição dos fatos, pois tudo o que aconteceu em 2018 por aqui foi apenas a reincidência pura e simples do que já havia acontecido no ano anterior. Como numa rotina macabra, nenhuma novidade apareceu no ano que ora se encerra e que não já tivéssemos visto antes. A ponte do rio Madeira, por exemplo, continuou em 2018 inútil, fatal e escura feito breu, apesar das inúmeras promessas dos políticos para iluminá-la. Os viadutos imprestáveis e íngremes da cidade continuaram causando engarrafamentos e só serviram neste ano para que se fizessem lá uns desenhos mal feitos, travestidos de arte, em meio ao mato e à sujeira. Só para impressionar otários.
            O “açougue” João Paulo Segundo de Porto Velho continuou como sempre sendo um campo de extermínio de pobres. Em Rondônia, as pessoas das classes baixas principalmente continuaram morrendo feito insetos, jogadas no chão dos hospitais públicos. A cidade de Porto Velho foi a latrina de sempre. Uma pocilga infecta, sem esgotos e praticamente abandonada pelos administradores, uma vez que as autoridades em vez de cuidar da capital, passaram mais tempo viajando para o primeiro mundo. Na política não houve nenhuma novidade: o tosco do eleitor rondoniense continuou elegendo ladrões, bandidos e malfeitores e a Justiça diplomando-os normalmente. A própria Assembleia Legislativa do Estado concedeu aos deputados no final deste ano que se encerra um aumento generoso. O povo como sempre ficou à míngua e esquecido.
            Uma das únicas coisas boas que aconteceram em 2018 foi a derrota do Brasil na Copa do Mundo da Rússia. Nossos fracos e ricos jogadores levaram um baile da competente seleção belga e voltaram mais cedo para casa. Um alívio. O ano mostrou que o Brasil não manda mais no futebol. Enquanto isso, eu continuei por aqui a escrever meus textos. Em 2018 foram exatos 112 no total. Com cinco ou seis leitores apenas, tive a permissão de vários sites locais para expor a minha opinião. E se tudo der certo, a censura e o obscurantismo não voltarem e também para a tristeza de muita gente, devo continuar em 2019 a dar aulas e a produzir textos expondo a minha verdade aos leitores. Numa sociedade de cidadãos ignorantes, reacionários, sem leitura de mundo e iletrados sempre é bom ter uma opinião divergente. No ano de 2018 a opinião ainda foi livre.
            Porém, o ano serviu para muitos dos eleitores acharem que eram os protótipos da mudança no Brasil. Em massa e guiados por um “estranho e direcionado sentimento antipetista” elegeram os novos governantes do país sonhando que eles serão a partir de agora a “panaceia milagreira” que fará jorrar mel e leite das ruas. Uma guinada à extrema-direita foi o resultado das eleições que nos dividiram em esquerda e direita. A TV Rondônia continuou a exibir o Jornal Nacional com uma hora de atraso durante o horário de verão, a rodoviária continuou suja e imunda e o aeroporto “internacional” de Porto Velho não fez um só voo para fora do país. Mas em 2019 haverá retrospectiva, pois os fatos vindouros poderão nos levar a ser uma das maiores piadas da humanidade. Sem perspectivas, o correto seria desejarmos um feliz 2017 para todos, pois a partir de 2019 provavelmente a miséria, o atraso e a desgraça serão nossas parceiras inseparáveis.




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Quem elegeu Bolsonaro?


Quem elegeu Bolsonaro?


Eduardo Marinho*


Bolsonaro é cúmplice do sistema criminoso. Sendo cumplice ele é protegido, não importa se o escândalo dele é mais alto. Mas o interesse não eram os escândalos, era tirar esses governantes que estavam botando pobres dentro de universidade. Ainda que fosse só um punhado, isso já ameaça o sistema. Esse é um cara que eu dizia antes dele ser candidato: era só soltar ele com um microfone na mão que ele mesmo se derrubaria, pois só fala barbaridade. Mas aí os marqueteiros dele perceberam isso e não deixaram ele falar. Não sei se simularam ou se contrataram um cara para dar uma facada nele. Não sei o que foi que houve, só sei que não deixaram ele falar. E ele foi eleito como um “mito”, que não deu nenhuma explicação, não gostou de nenhum programa de governo por que o programa não é dele. O programa é do real poder. E o poder real é do mercado financeiro, é dos megaempresários, dos exploradores, dos colonizadores, dos caras que querem o país de joelhos.
Ele é a figura ideal. Inclusive Bolsonaro tem a cara da elite brasileira, que como todas as elites dos países que foram colonizados foi criada na base do privilégio. A elite local, geralmente branca, que tem desprezo pelo seu próprio povo e uma subalternidade nojenta pelo colonizador e pelos poderes externos. Ele tem este perfil. Então, não tem escândalo que derrube ele nesse sentido. Agora que ele é isso aí não tem novidade nenhuma. Ele é isso aí mesmo. Ele é a cara da elite brasileira por quê? Por que a elite brasileira é racista, é escravista, é agarrada nos privilégios e é indiferente ao sofrimento da população. Ela usufrui das injustiças sociais. Sacaneia seus funcionários e empregados pela forma de ganhar dinheiro, pela forma de existir. Esse cara é a cara da elite brasileira. Então, nós temos um presidente que tem a cara da elite dominante. Pela primeira vez nós temos um governo que é sincero. É homofóbico, é violento, é punitivista. Não vai às raízes dos problemas sociais. Não tem interesse em tratar dos problemas da sociedade, não tem interesse em harmonia social.
 Bolsonaro está a serviço do explorador. E o explorador faz o quê? Cria miséria nas suas colônias, ele domina para saquear os recursos, para roubar o povo, para explorar a população. Então nós temos aí um governante com a cara da elite. Mas não acredito que dure muito tempo não, porque ele mesmo mete os pés pelas mãos. Eu acho que vai haver permuta. O negócio é exatamente esse: manter os pobres na ignorância, na desinformação para serem escravizados, para serem conduzidos. Por isso que eles deram inclusive conversor de televisão digital de graça num Estado que não cumpre os direitos constitucionais, que não garante a alimentação, não garante moradia, não garante educação, não garante informação decente. Garante um conversor de televisão digital. Que é o papel da mídia: fazer a cabeça da população. Bolsonaro para mim não tem novidade. Alguma coisa tinha que ser feita para tirar um governo que se dizia de esquerda (o do PT), mas que não tomou nenhuma atitude com relação à estrutura da sociedade. Os banqueiros continuaram dominando tudo, a mídia privada continuou dominando as comunicações.
Ele, o PT, durante o seu governo não pulverizou, não tocou nesses assuntos, não trouxe conscientização para ninguém. O que Lula e o PT deram de acesso à população de baixa renda foi o consumo. Não foi nem a instrução, nem a consciência, nem a informação. Aí ficou fácil derrubá-lo. Simples assim. Derrubaram aqueles que se diziam de esquerda, mas que estavam ali servindo aos donos da “fazenda Brasil”. Eram capatazes. Reles capatazes. Como todo presidente é um capataz. E se ele pisar fora da risca, ele cai. Qualquer presidente que se pôs a serviço da população caiu. Assim foi Getúlio Vargas, assim foi João Goulart. E assim foi o PT. Não que ele (O PT) tenha se posto a serviço da população, mas deixou cair migalhas demais. Pobre dentro das universidades dando aulas é uma heresia para os banqueiros internacionais. Então esse governo (do PT) foi trabalhado na rejeição popular. Desde 2005, 2006 que vem sendo trabalhado. O que elegeu Bolsonaro foi o antipetismo criado pela mídia, pelas redes sociais, pela rapaziada que conduz a mentalidade, pelo subconsciente, impregnação mental, geral mesmo.



*Eduardo Marinho é um morador de rua.

O coronel e o “açougue”


O coronel e o “açougue


Professor Nazareno*

            
           Finalmente o coronel Marcos Rocha, futuro governador de Rondônia, divulgou os nomes de sua equipe de governo. O que se desenhou, no entanto, foi um grupo de assessores apenas baseado na amizade pessoal do futuro mandatário. E para não fugir aos costumes políticos já há muito tempo vigentes, a sua esposa, Luana Rocha, também foi contemplada com um cargo: comandará a SEAS, a poderosa Secretaria de Ação Social. Se eu tivesse sido eleito governador, por exemplo, jamais teria indicado a Francisca, minha esposa, para qualquer cargo público. Nem ela, nem qualquer outro parente meu como filhos, pais ou irmãos. “Façam concurso público se quiserem trabalhar no governo”, diria. Isso para evitar o “mimimi”. Porém, independente disto, críticas e elogios à nova equipe soam como algo perfeitamente normal nesta situação.
            Mas ainda é muito prematuro dizer que esta equipe nada vai fazer pelo Estado de Rondônia ou que foi uma escolha acertada que fará “jorrar mel e leite das ruas”. Os trabalhos precisam começar para se colher os resultados positivos ou negativos. Óbvio que muitos torcem para que tudo dê certo num Estado tão castigado por péssimas administrações como é Rondônia. Com uma minúscula população de menos de dois milhões de habitantes e uma potência na agropecuária e nos recursos naturais, este Estado tem tudo para dar certo. Só que nunca deu. Basta ver a sua suja, fedorenta, inóspita e sempre mal administrada capital. Em Rondônia, até hoje nenhum político parece ter demonstrado amor a este lugar. Quase todos eles roubaram descaradamente o erário e nada fizeram em benefício dos sofridos rondonienses que pagam tanto imposto.
            Resta saber para quem este governo vai governar. Se for para o povo sofrido e para as classes menos privilegiadas, a primeira providência será construir um novo hospital de pronto-socorro na capital. Ninguém aguenta mais o “açougue” João Paulo Segundo. O ex-governador Confúcio Moura, que era médico por formação, trouxe a TV Globo no início do seu governo para denunciar o que todo mundo já sabia. E só ficou nisso mesmo. Governou por oito anos o Estado, deixou tudo como antes estava e ainda assim foi eleito senador. Mas se o novo governo for governar para a elite, como é de costume, certamente nada vai fazer pela frágil saúde de seu povo. Consertando o velho “açougue”, ele pode inviabilizar alguns hospitais, clínicas particulares e também os planos de saúde. O povo sofrido vota, mas quem financia a votação são os poderosos.
O cel. Marcos Rocha tem que governar de fato este Estado e não fazê-lo como mais uma “fazenda da elite”. É preciso melhorar todas as escolas públicas e implantar, ainda que paulatinamente, a escola de tempo integral. Mesmo que isso aborreça os “barões do ensino” deste Estado. Com hospitais bons e escolas de excelência, não se precisará mais se humilhar aos poderosos. Mas haverá coragem suficiente para se enfrentar essa dura e cruel realidade? É preciso combater a violência que nos assola.  Funcionários públicos também precisam ser valorizados. É preciso deter a Assembleia Legislativa na sua desmedida ambição de surrupiar todo o dinheiro deste pobre lugar. Enfim, é necessário governar para os pobres e oprimidos. Sem isso, essa equipe será “tudo mais do mesmo”. Como enaltecer o governo de um Estado cuja população carente vagueia pelo chão dos hospitais públicos? Dê logo um fim ao velho “açougue”, coronel!




*É Professor em Porto Velho.

domingo, 23 de dezembro de 2018

O país de um só problema


O país de um só problema


Professor Nazareno*

            
         Há quase meio século que o Brasil figura entre as dez maiores potências econômicas do mundo. Chegou a ser a sexta no início deste século desbancando países como a França, a Itália e o Canadá. Tem as maiores extensões de terras agricultáveis do planeta e é o segundo maior produtor de alimentos do mundo. Seus rebanhos figuram entre os maiores, tem mais de 20 por cento de toda a água doce da terra e o seu vasto território não é sacudido por terremotos, vulcões, nevascas ou outras intempéries da natureza. Mas tem um problema que a maioria dos outros países do mundo não tem: a desigualdade social. Uma das maiores que se produziu. Nossa sociedade é conhecida no mundo inteiro como a “Casa Grande e Senzala” tão bem descrita no livro do sociólogo Gilberto Freyre. Aqui, há muitos habitantes que nada têm e pouquíssimos muito ricos.
            Desde o longínquo ano de 1.500 quando Cabral aportou nestas longes terras, que a desgraça da desigualdade nos acompanha. O Brasil colônia iniciou o tormento que continuou no Império e permanece até hoje com a República. Em plena era da globalização, entra governo e sai governo e a miséria continua a atormentar uma das nações mais ricas da atualidade. Tudo neste país é feito e concebido para que se continue com esta estrutura social draconiana. São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro, por exemplo, são Estados ricos enquanto Rondônia, Acre, Piauí e Alagoas são Estados muito pobres. Em todas as cidades do país percebe-se esta lastimável divisão dos que têm e dos que nada têm. No Brasil, há bairros de pobres e de ricos, escolas para pobres e para ricos, transportes, residências, centros de compra, hospitais, prisões e Justiça, idem.
            Mesmo tendo roubado e saqueado o Estado como ninguém, o PT até que criou alguns programas para enfrentar este caos. Porém todos os seus líderes se envolveram em roubalheiras, corrupções, maracutaias e saques. Governaram apenas 13 anos e fizeram o que antes outros partidos também já haviam feito: roubaram tudo, não resolveram o problema crônico da desigualdade social e de quebra empobreceram ainda mais o Estado em detrimento dos mais ricos e endinheirados. Bolsonaro, o “Mito” se elegeu muito mais porque se disse fiscal de “cu alheio” e não por que iria acabar com a desigualdade que assola o país. E todos os que foram eleitos nessa onda conservadora da extrema-direita não mostraram na prática como enfrentar este gravíssimo problema. Fala-se até que a nossa desigualdade social aumentará ainda mais com essa nova gente.   
No Brasil não há direita nem esquerda. Não há nenhuma ideologia para governar os miseráveis. Nunca houve. Os políticos se unem e dividem toda a riqueza do país entre eles mesmos e a elite que eles representam. São raros os que dão “uma penada” em benefício dos mais necessitados. E quando isso acontece, o sujeito é simplesmente eliminado. Dentro de um mesmo país sempre houve dois países bem distintos. Eis a nossa cruel realidade. Para diminuir esta penúria, no entanto, seria preciso investir em serviços públicos de qualidade como saúde, segurança, mobilidade, infraestrutura e principalmente educação. E Jair Bolsonaro sabe disto. E o coronel Marcos Rocha também. Todos os seus auxiliares certamente têm a exata compreensão de toda esta problemática. E todos sabem como agir. Mas vão resolver o problema ou vão apenas administrá-lo para que continue tudo do mesmo jeito? Assim, jamais sairemos do caos.




*É Professor em Porto Velho.