Professor
Nazareno*
O dicionário Aurélio diz que cultura é
o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de
outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos
de uma sociedade, de uma civilização. Já para o antropólogo e professor belga
Claude Lévi-Strauss, falecido recentemente, cultura é algo bem mais complexo
uma vez que “se alguém quiser destruir um povo, basta destruir a sua cultura”.
O Brasil é anunciado ao mundo inteiro como um país de variadas culturas. As
contribuições dos elementos branco, negro e índio à nossa História corroboram
com esta tese. No entanto, tem-se verificado ultimamente no país uma espécie de
afunilamento e da diminuição da quantidade dos processos sociais relacionados à
cultura ou às expressões culturais. O Carnaval e o Futebol, cantados em verso e
prosa mundo afora, parecem ser as nossas únicas fontes de cultura.
Há tentativas de se diversificar esta área em todo o território nacional. Das
Festas Juninas do Nordeste, Dança do Boi em Parintins, Axé na Bahia, Cavalgadas
e Exposições Agropecuárias no Centro Sul, o que se observa é uma preocupação
crescente para se expandir o corolário de ações culturais do Brasil. Todas
estas manifestações, além do Carnaval e do Futebol, são vergonhosamente
copiadas em Rondônia sem nenhum acanhamento, sem nenhuma criatividade. Mas
diante da precariedade, da falta de uma boa organização e do interesse
puramente econômico e muitas vezes até político-partidário envolvido nestas
ditas “festas populares”, o que se tem observado é que cada vez mais o
povo é usado para dar alegria a esta orgia coletiva. E ele, justamente o povo,
que é o que mais padece pela falta de ação dos governantes, dá a impressão de
que esbanja alegria e felicidade. Um engano só.
A Expovel, realizada em Porto Velho, por exemplo, existe coisa mais absurda e
patética do que esta “manifestação cultural”? Existe algo mais
alienante, deprimente e totalmente sem sentido do que cavalos sujando ainda
mais as nossas já sujas e imundas ruas? Mas muitas pessoas daqui ainda
acreditam que somos “a Califórnia brasileira”. É um exagero, pois
situada em plena floresta Amazônica e às margens do lendário e hoje já estuprado
rio Madeira, Porto Velho em absolutamente nada lembra as verdejantes cidades da
Califórnia e muito menos o próspero e progressista interior mais ao Sul. Não se
pode comparar uma cidade de ‘beiradeiros e barnabés’, onde o
contracheque responde por grande parte da economia local, com lugares como
Barretos, Ribeirão Preto, Presidente Prudente, Caxias do Sul, Londrina, Maringá
ou Cascavel, por exemplo. Muitas delas bem mais novas do que Porto Velho. Além
do mais, não devia ter dinheiro público “jogado na poeira”. Já se falou
em 350 mil reais. Será possível que em Rondônia, onde falta tudo, cavalo e
cachaça são melhores do que Educação ou Saúde?
Porém, o “cardápio de atrações artísticas” da festa é o que mais
impressiona pela sua incrível capacidade de alienar ainda mais o sofrido e já
alienado público expectador. As músicas horrorosas, desconcertantes,
desafinadas, de letras previsíveis, culturalmente pobres e totalmente
descartáveis de Michel Teló, Léo Magalhães e uma dupla caipira de nome João Bosco
e Vinícius darão o tom das brincadeiras e tentarão animar os brincantes. E o
pior de tudo é que se paga para assistir a estas embromações. Para os poucos
artistas da terra, nenhum dia, ou seja, a cultura local é desprezada, jogada no
lixo. É o dinheiro de Rondônia sendo carreado mais uma vez para fora do Estado
em troca de nada. Em troca apenas da estupidez e da imbecilização geral. Porém,
esta cultura de massa, pífia e decadente do “sertanejo universitário”,
esse lixo cultural, é defendida ”com unhas e dentes” por alguns
indivíduos metidos a intelectuais que, sem nada entenderem, dizem escrever
sobre cultura. Estamos perdidos. Diante de toda esta aberração, Lévi-Strauss
deve se remexer no túmulo.
Mas mesmo sem pão, a alegria da “indústria do circo” funciona a todo
vapor em Rondônia. Aqui temos o carnaval fora de época, carnaval de 120 mil
pessoas numa banda só, espetáculos da Semana Santa em junho, Sete de Setembro e
até “arraial sem santo”: O Flor do Maracujá está próximo. “Os
anestesistas do povo”, “os gigolôs da alienação geral” já
programaram para que tudo funcione sem nenhum erro. Mesmo com os eternos
problemas sociais, ninguém numa hora dessas se lembrará deles. A Rondônia da
pouca Educação, da saúde pública precária, da incompetência do Estado, das
mortes na luta pela posse da terra, da falta de saneamento básico, da corrupção
na política, da sujeira nas ruas e de tantas outras mazelas é envolta numa
mobilização bestial onde o que importa é apenas a sacanagem, o lucro fácil e a
festa muitas vezes regada a drogas e álcool. Nestas horas, povo e político se
confraternizam como se fôssemos uma espécie de Jardins do Éden, de Terra
Prometida. O Estado que copia mal a cultura alheia, tem em sua capital a
síntese de um Brasil que vive à míngua e eternamente à espera de soluções.
Aqui, só a cultura de viadutos inacabados. Como não se acanhar de se divertir
num lugar onde quase nada funciona a contento? Contrariando Lévi-Strauss, tenho
certeza de que se acabássemos com todas estas tolices que se praticam em nome
da cultura, este Estado em vez de se extinguir, seria um lugar bem melhor para
se viver.
*É
Professor em Porto Velho (profnazareno@hotmail.com