sábado, 29 de junho de 2024

Reuniões ocultas de condomínios

Reuniões ocultas de condomínios

 

Professor Nazareno*

 

           Neste ano de 2024 haverá eleições em todos os condomínios do Brasil para a escolha dos novos síndicos. Por isso, o burburinho é muito grande entre boa parte dos condôminos. O TRE, Tribunal Reformador das Exclusões, já esteve em campo induzindo com propagandas falsas todos os eleitores a votarem para escolher os seus representantes. No Brasil, infelizmente, votar para a escolha de qualquer síndico de condomínio é uma tarefa obrigatória e não optativa, embora sejamos uma democracia cantada em prosa e verso. E quem não votar, terá punição, ainda que branda. Os candidatos a síndico e também para o Conselho Fiscal dos respectivos condomínios estão bem otimistas. Assim, muitas reuniões são marcadas constantemente entre muitos dos candidatados para que se possam decidir, com antecedência, os destinos de todos os moradores desses residenciais.

        No Condomínio “Esperança da Pobreza”, localizado num dos rincões do país, o resultado do pleito já está praticamente decidido. Quem vai ganhar as próximas eleições serão os candidatos da direita e da extrema-direita. Todos os 21 conselheiros daqueles apartamentos, por exemplo, estão alinhados com o atual síndico. Não há oposição nem também nenhum candidato da esquerda. Esse síndico atual não pode, por lei, concorrer a um terceiro mandato, mas quer ser futuramente um ‘inspetor de quarteirão’ e por isso está depositando todas as suas fichas em seus escolhidos. Assim, todos eles convocam para se reunir e se reúnem para convocar. Reuniões e mais reuniões de conchavos são marcadas. Numa delas, discutem-se como serão os discursos na futura campanha para continuar enganando os moradores, que em última análise é quem sustenta o condomínio com taxas.

      No “Esperança da Pobreza” nada nunca funcionou direito, mas por incrível que pareça, quase todos os moradores dali estão alegres e felizes com a administração de agora. Não há fornecimento de água potável, não há arborização, não há esgotos ou uma boa coleta de lixo no residencial. O síndico atual está construindo uma guarita nova no mesmo lugar da velha e vai inaugurá-la vergonhosamente um mês depois do fim da atual campanha eleitoral. E ninguém contesta nada! Esse administrador é um verdadeiro “mito” entre os tolos inquilinos. A direita e a extrema-direita fizeram direitinho a cabeça dos habitantes daquela “morada do satanás”. Nessas reuniões fica hipocritamente decidido que a partir das próximas eleições, “tudo deve mudar naquele condomínio”, mas para ficar “tudo do mesmo jeito”. Ou seja, os administradores vão continuar sempre no poder.

            O “Esperança da Pobreza” não tem sequer um “Built to Suit” para atender aos seus moradores. Fala-se que vão construir um, talvez só no próximo pleito. Haverá, agora, vários candidatos ao Conselho Fiscal e também alguns candidatos a síndico que devem prometer, durante as campanhas eleitorais deste ano, que vão fazer um novo hospital em tempo recorde. Os moradores acreditam e ainda aplaudem aquelas falsas promessas. E muitas pessoas dali estão esperançosas com o único “açougue” que têm. “Nada de fazer rede de esgotos nem de saneamento básico no residencial. Sempre fomos felizes assim: comendo merda e esperando dias bem melhores”, dizem alguns dos alegres residentes-eleitores. Antes de acontecer o pleito propriamente dito, quase todos os candidatos ao Conselho Fiscal já decidiram, se eleitos, dar total apoio ao novo síndico ou até mesmo síndica que será eleito(a). Falam até que o “campo de pouso”, ali perto, terá muitos voos.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Estuprada e depois condenada


 

Estuprada e depois condenada

 

Professor Nazareno*

 

            Rondônia Acomodada da Silva é uma linda jovem de apenas 15 anos de idade. Mora numa pequena cidade do interior do Brasil e trabalha como doméstica em uma residência bem perto de sua casa. Certa noite, já bastante cansada, quando voltava do seu trabalho, Rondônia foi seguida por dois homens desconhecidos. Apressou seus passinhos de menina/moça, mas foi logo alcançada pelos seus algozes. Não deu tempo sequer de gritar. Foi dominada, amarrada, despida e depois estuprada pelos dois meliantes. Depois de terminado o “serviço” os dois tinham a certeza de que Rondônia morreria ali mesmo, pois deram-lhe vários golpes na sua cabeça. Mas a pobre garota escapou por milagre. Socorrida por acaso por algumas pessoas que passavam por ali, o martírio dela continuou pelo resto de sua vida. Rondônia engravidou e a pedido de seus pais, ela decidiu abortar.

            A pobre Rondônia não tinha a menor ideia de quantos meses estava grávida. Seus pais até procuraram ajuda no posto médico da cidade, mas de nada adiantou. Então, por conta própria e seguindo a indicação de alguns vizinhos e conhecidos, deram-lhe algumas “garrafadas” de ervas abortivas. Depois de interromper a gravidez, o estado de saúde da menina piorou e a solução foi procurar ajuda médica “de qualquer jeito”. A partir daí o caso tomou outras proporções. O delegado da cidade abriu o devido inquérito e Rondônia teve que responder a um longo processo. “Aborto é crime. E principalmente nesse caso gravíssimo, quando o feto já estava com mais de 22 semanas de gestação”, disse o delegado a seus pais. E assim foi feito. Rondônia foi presa, julgada e condenada a uma pena de quase 20 anos de prisão. Seus dois estupradores foram presos e também julgados.

            Cada um deles foi sentenciado a pouquíssimos anos de cadeia e como eram réus primários e também muito ricos, seus advogados recorreram e eles estão cumprindo a pena em liberdade. Apesar de ter sido estuprada e violentada, Rondônia continuou presa e sofrendo horrores no presídio feminino da capital para onde foi levada depois. Este acontecimento pode até parecer esdrúxulo e surreal. E não aconteceu na Indonésia, Afeganistão, Síria ou Arábia Saudita, países muçulmanos e misóginos. Mas poderá acontecer em breve no Brasil se o Projeto de Lei (PL) do Aborto for aprovado no nosso Parlamento. Um deputado federal da Frente Evangélica e da Bancada da Bíblia, um bolsonarista de carteirinha, é o responsável maior por esta “inovação”. É quase a mesma tolice que fizeram com o show da cantora Madonna no Rio. Um festival só de bizarrices.

            Dar uma punição a uma mulher vítima de estupro muito maior do que a pena dada aos seus estupradores é algo praticamente só visto na extrema-direita raivosa que temos em nosso país. Isso pode ser a síntese do bolsonarismo evangélico mais radical que se instalou em nossa política. É a teoria da terra plana, do negacionismo da ciência, do estado com religião, do índex de livros nas escolas, da criminalização do Comunismo e da misoginia clara e explícita. Os problemas do Brasil são muitos e precisam de soluções urgentes. Um parlamento é muito importante em qualquer regime democrático, mas os parlamentares precisam mostrar serviço e resolver as dificuldades de seus eleitores. Ao sair da cadeia, a jovem continuou sendo estuprada e teve muitos outros filhos. Embora com eleitores e cidadãos acomodados, Rondônia não devia mais ser violentada. Nem na ficção muito menos na realidade. E seus filhos continuam votando nos pais estupradores.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

terça-feira, 11 de junho de 2024

O Madeira caminha para o fim

O Madeira caminha para o fim

 

Professor Nazareno*

 

            O outrora pujante e majestoso rio Madeira em Rondônia caminha inexoravelmente para o seu melancólico fim. Os negacionistas do aquecimento global e das mudanças climáticas continuam discordando sem, no entanto, apresentar argumentos convincentes para o que defendem, mas a realidade pode ser constatada fazendo-se uma pequena observação nesse outrora curso de água que já foi o décimo oitavo maior rio do mundo. Em 2014 o velho Madeira, descontrolado por duas grandes hidrelétricas que lhe fincaram em seu já moribundo leito, chegou a quase 20 metros na grande e histórica enchente. Porém, há três anos consecutivos, não tem mais enchentes nem água suficiente para permitir pelo menos a tranquilidade na navegação. Estamos ainda no mês de junho e o seu nível hoje é de apenas uns 6 metros, quando deveria ter pelo menos o dobro de água.

      Nesta mesma época do ano, em tempos anteriores, por exemplo, o mais importante rio dos rondonienses abundava de tanta água. Ainda assim, passou por severas vazantes como em 2022 e 2023. Acredita-se que neste ano a seca será a mais severa de todas. E não adianta dizer que mais esta tragédia é apenas um desígnio de Deus. A Amazônia e os outros biomas nacionais como um todo padecem pela cruel e assassina mão do homem. As hidrelétricas no leito do sofrido e devastado Madeira só aumentaram o sofrimento daquele curso de água. E que benefícios vieram para o povo daqui? Nenhum. Nada. Até a única concessionária de energia do estado foi privatizada (na verdade, presenteada pela classe política local) para desespero de muitas pessoas. Em Rondônia pagamos uma das taxas mais caras de energia do país e o serviço prestado não está à altura do que se paga.

            O iminente desaparecimento do rio Madeira é uma clara consequência do que os rondonienses fizeram e também permitiram fazer com o seu combalido meio ambiente. As recentes tempestades que destroçaram o Rio Grande do Sul provavelmente têm muito a ver com o que se faz de perversidade com a natureza. Não só aqui em Rondônia, mas também em toda a região amazônica. A ganância do agronegócio, que devasta sem dó nem piedade, mas não consegue sequer matar a fome de todos os brasileiros, tem dado a sua contribuição nefasta para piorar a situação de calamidade climática de hoje. E engana-se quem pensa que a morte do Madeira será o fim de tudo. É, infelizmente, só o começo do que ainda vão fazer com o que resta de natureza. Insatisfeitos com o que já causaram, muitos rondonienses clamam pela reabertura da BR-319 e também pela volta do garimpo.

            As hidrelétricas não só interferiram no volume de água das enchentes e vazantes do rio, mas também destruíram a piracema e o tradicional e lindo espetáculo da natureza lá na ex-cachoeira do Teotônio. Antes de tudo isso, Porto Velho não tinha água tratada nem rede de esgotos. Depois de tudo isso, Porto Velho continuou sem água tratada e também sem rede de esgotos. E a classe política se elegendo todo ano de eleição como se nada de anormal estivesse acontecendo. Antes do agronegócio destruir a natureza, havia muita fome em Porto Velho, em Rondônia e também no Brasil. Depois da destruição, a fome continua sendo uma de nossas maiores mazelas. É só vergonha! Com a Lei Kandir, exportar comodities sem pagar impostos, é o que importa. Fome e miséria são problemas pequenos, coisas de intelectuais, apenas. A morte do rio Madeira é só uma consequência da estupidez humana. E sem ele, muitos rondonienses sairão daqui e só o terão em fotos.

 

 


*Foi Professor em Porto Velho. 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Um pobre pode ser de direita?

Um pobre pode ser de direita?

 

Professor Nazareno*

 

            O Brasil é um país rico. Muito rico mesmo. Esta semana passou a figurar entre as oito maiores economias do mundo. Tem um PIB, Produto Interno Bruto, superior a 2,3 trilhões de dólares. Ultrapassa, portanto, países tradicionais e civilizados como a Itália e o Canadá. Há mais de 50 anos que o nosso país figura no topo desta relação, que sempre foi liderada pelos Estados Unidos, Japão, Alemanha e Reino Unido. E hoje já conta com a China e a Índia como países emergentes de PIB também muito alto. Embora rico, o Brasil é um país de uma população pobre. Muito pobre mesmo. Esse PIB descomunal que temos sempre esteve concentrado nas mãos de uma elite reacionária e privilegiada que nunca cansou de mandar em todos a sua volta. Essa minúscula elite manda na política, nos governos, nos negócios, nas pessoas, nas leis, nas terras e até no destino dessa gente.

O Brasil tem 203 milhões de habitantes. Uns 3 milhões pertencem à elite ou estão lutando bravamente para chegar ao topo da pirâmide financeira. O restante são pessoas pobres e miseráveis que mal têm o que comer. Até há pouco tempo, havia no país cerca de 35 milhões de famintos. Em termos de política ideológica, os ricos e poderosos são, evidentemente, da direita e da extrema-direita. Os pobres e miseráveis geralmente não entendem nada de política nem de sociedade e geralmente comungam das mesmas aspirações políticas e ideológicas de seus algozes. Não é à toa que com democracia ou sem democracia, foram os ricos e poderosos que sempre estiveram no poder determinando todo tipo de política para gerir essa sociedade paupérrima. Privados de bons serviços públicos, sem escolarização e escravos da burguesia, os pobres são obrigados a obedecer.

Se a direita e a extrema-direita querem manter tudo do mesmo jeito sem mexer em nenhum de seus muitos privilégios e nem na exploração contínua da mão de obra que lhe produz toda a riqueza, para que mudar, então? Assim, mecanismos são criados para manter o pobre sempre cada vez mais pobre e subserviente aos mais ricos. É a velha fórmula da Casa Grande e Senzala que nunca deixou de existir em nossa injusta e cruel sociedade. Pobre não tem ideologia nem preferência política. Geralmente segue por obrigação e por conveniência o que lhe mandam seguir. Rondônia, por exemplo, é um dos estados mais pobres e miseráveis da nação. Mas é talvez o mais direitista e reacionário do país. Em Porto Velho, sua suja e imunda capital, quase toda a mídia é de direita e para as próximas eleições não existe um candidato sequer que seja da esquerda ou progressista.

O problema é que a esquerda do Brasil também é outra porcaria. Usa o pobre e a pobreza como fetiche para seus discursos vazios e mentirosos. De um modo geral, muitos brasileiros se dizem de direita e de extrema-direita, já outros se dizem de esquerda ou de centro. Só que todos eles são vassalos da elite endinheirada que sempre ditou as regras do jogo. O Brasil nunca teve um governo que beneficiasse os mais pobres, o trabalhador, aquele que produz a riqueza com o seu trabalho. Somos a oitava potência econômica do mundo e pagamos um salário de apenas 265 dólares enquanto Portugal paga quase 800 dólares. Nem o pobre nem o rico precisam ser de esquerda ou de direita respectivamente. Devia ser mais humano e fraterno e para isso precisa melhorar mais sua leitura de mundo e aprofundar mais seus poucos conhecimentos. Já pensou se os pobres do Brasil lessem e entendessem Eduardo Galeano, Paulo Freire, Karl Marx, Gramsci, Nietzsche ou Voltaire?

 

 



*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 1 de junho de 2024

Uma esquerda de direita

Uma esquerda de direita - II

Professor Nazareno*

 

Este ano de 2024, a Bolívia tem eleições municipais. Os milhões de tolos e manipulados eleitores do país vão escolher os seus novos prefeitos e vereadores. Ação esta que em nada mudará as suas miseráveis vidas. Mas como no país andino, que diz ser uma democracia, votar é uma obrigação e não um direito ou uma opção, todos eles devem ir às urnas para apenas sacramentar uma possível boa vida para os poucos candidatos que serão eleitos. Em Trinidad, a abandonada capital do departamento do Beni, a vida sempre foi uma dureza para os seus imbecis, brocos e ignorantes habitantes. Trinidad não tem declaradamente políticos de direita nem de esquerda. Apenas um bando de salafrários sem caráter e desonestos que a cada quatro anos se juntam para dilapidar o pouco dinheiro fruto do trabalho da população pobre e humilde. Ser político virou uma atividade de vida.

Há no lugar apenas uma meia dúzia de pessoas, geralmente de fora da província, com algum poder aquisitivo e que se autodenominam de extrema-direita. Como têm algum dinheiro num lugar de pessoas muito pobres e miseráveis, mantêm o domínio sobre toda a sociedade. Por isso, essa elite nefasta indica os seus candidatos para quase todas as eleições. O poder continua, dessa forma, sempre nas mãos dos mais ricos e abastados. Ali esquerda praticamente não existe. Talvez nem 30 por cento dos eleitores simpatizam com alguma ideia ou candidato dessa vertente política. Porém, muitos dos mal intencionados candidatos de Trinidad dizem para todo mundo que é de esquerda somente para ter acesso a esses poucos, mas ainda fieis, eleitores progressistas. Não só na capital como em todo o departamento o que prevalece são ideias conservadores de direita e de extrema-direita.

A qualidade de vida na capital Trinidad é péssima. Levas e mais levas de pessoas pobres, rotas e famintas são vistas diariamente pedindo esmolas em suas sujas e imundas ruas. Não há arborização, não há água tratada nem sequer saneamento básico. Tudo ali é igual ou muito pior do que Porto Príncipe no Haiti ou até mesmo comprável àquelas cidades dos países da África subsaariana. Não há mobilidade urbana, não tem aeroporto decente, nem porto no grande rio que banha a cidade. Os poucos ricos do lugar até que vivem bem, enquanto a maioria do povo vegeta e passa necessidades. Mas quase todos esses miseráveis são eleitores da direita e da extrema-direita, pois muitos dizem que “é preciso obedecer a quem sempre pode dar uma sombra”. O povo de Trinidad gosta mesmo é de adular só os cidadãos nascidos fora do lugar. E quase também só vota neles.

Trinidad é uma cidade repleta de direitistas ignorantes e de ignorantes direitistas. A maioria da população da capital do pobre departamento tem apenas a (des) informação primária. Nada entende de política, de administração pública, de sociedade organizada, de governança. Por conta disso, o povão, sem leitura de mundo, vai votar sempre nos candidatos indicados pela elite política local. E os eleitos apenas cuidam dos seus próprios interesses. Os muitos escândalos de roubo, de corrupção e de apropriação do dinheiro público são noticiados quase todo ano. O povo é lembrado somente na véspera das eleições, para ser iludido novamente. Em vez de direito ou dever, o voto no Beni, e principalmente em Trinidad, é uma desgraça que só mantém o status quo desses pobres e miseráveis eleitores. E em 2024 não vai ser diferente. Muitos colunistas e até “jornalistas” são financiados por políticos e pela elite abastada apenas para manter a direita no poder.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 26 de maio de 2024

A maior de todas as invenções

A maior de todas as invenções

 

Professor Nazareno*

 

         Foi a religião, sem dúvida. Não há, em toda a rica história da Humanidade, algo que tenha revolucionado e acalmado tanto o ser humano do que a crença em seres superiores que mandam e desmandam no destino das pessoas. A roda, o fogo, a eletricidade, a democracia, a energia atômica, a pílula anticoncepcional, os mísseis balísticos, o avião, o carro. Nada disso pode se comparar à ideia, nunca provada, da existência de um ser que mora num lugar chamado céu ou paraíso e manda em todos nós. Para Albert Einstein, o Deus que existe é o Deus de Espinoza, ou seja, a natureza e toda a sua complexidade. Para Voltaire, no entanto, “a religião começou no dia em que o primeiro picareta se encontrou com o primeiro idiota”. Já para Sêneca a religião é uma verdade para os imbecis, uma mentira para os sábios e uma utilidade para os governantes.

       Para a maioria dos seres humanos a estupidez e a ignorância não têm limites. Por isso, foi muito fácil a algum esperto convencê-los da existência de “algo superior a todos nós” que está observando as nossas ações, nossos gestos, as nossas palavras e nossos pensamentos lá de cima. E que “se não nos comportarmos como Ele quer e determina e não fizermos a sua vontade”, nos castigará. Quase todas as guerras da História foram feitas em nome da religião. Desde as antigas Cruzadas passando pela Reforma e a Contrarreforma e até pela criação do Estado de Israel no século passado, que o homem usa o nome de Deus para matar, trucidar, explorar, escravizar, dominar, roubar e humilhar outros seres humanos. Talvez por isso, a grande ironia de hoje é que muitos países ateus e sem religião são muito mais pacíficos do que aqueles que têm na fé a sua conduta moral.

    Afeganistão, Paquistão, Irã, Iêmen, Brasil são países em que mais de 90% de sua população têm uma religião. Já países como a Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Holanda são nações em que predomina o ateísmo entre a maioria de seu povo. Quando na sua infinita sabedoria o homem criou Deus, providenciou também todas as situações inerentes a essa sua criação. Um livro sagrado, o inferno, o céu, os santos, os milagres, a vida eterna, a criação do mundo e também os descendentes desse Deus. Para algumas pessoas, por exemplo, Jesus Cristo é o único filho de Deus. Já na religião muçulmana, Maomé foi um dos enviados de Deus e para os judeus, Abraão era íntimo de Javé. O pior dos mundos: os inventores da religião estão, hoje em dia, mesclando-a com a política partidária. Mistura explosiva, religião e política estão ditando regras para seus seguidores.

       Muita gente fala que a religião às vezes dita a moda, censura a arte, nega a ciência, condena comportamentos, arrecada dinheiro dos incautos, promove o atraso e explora a fé alheia. Verdade ou mentira, percebe-se que "há milhares de anos, as lendas, mentiras, besteiras, mitos e costumes primitivos de uma pequena tribo de nômades semisselvagens foram reunidos e escritos em pergaminhos. Ao longo dos séculos, todos estes textos foram modificados, mutilados, truncados, floreados e divididos em pequenos pedaços que foram então embaralhados várias vezes. Em seguida, todo este material foi mal traduzido para várias línguas e vários povos o adotaram como a expressão da verdade, a palavra de Deus definitiva e irretocável". Porém se a religião torna um homem mais amável, fraterno, justo e bondoso, ele não deve abandoná-la. Inventada ou não, foi ela que sempre norteou os destinos do homem. Religião, política e futebol se discutem. Não se misturam!

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.


quarta-feira, 22 de maio de 2024

Para que servem os políticos?


Para que servem os políticos?

 

Professor Nazareno*

 

            Aristóteles disse certa vez que a política é a ciência mais importante de uma sociedade. Segundo ele, é essa ação quem define as prioridades em todas as áreas. Assim, a política é muito mais importante do que a educação, a religião ou a medicina, por exemplo. Essas atribuições sociais são, em última análise, determinadas pela política e não o contrário. Sem ela, uma sociedade civilizada desmoronaria e enfrentaria a barbárie e os confrontos só para estabelecer quem lhe governaria. Imagine-se em outras áreas cruciais. A democracia, no entanto, foi criada para estabelecer regras e limites para a política. Dessa maneira, os políticos são extremamente importantes para a condução de todo processo político. Eles são, em último caso, os intermediários entre o povo e os seus governantes. Entre quem paga impostos e quem arrecada. Mas e todo político age assim?

            Definitivamente não! No Brasil, a classe política é na maioria das vezes quase toda ela odiada pela população. Muitos brasileiros só votam porque é escandalosamente obrigatório. Político em nosso país, infelizmente já virou sinônimo de ladrão, de corrupto, de desonesto. Aqui, fala-se que “não existe direita nem esquerda, mas tão somente um bando de salafrários que se reúnem nos gabinetes para roubar o dinheiro do povo, para superfaturar obras e também para praticar todo tipo de sacanagem”. A política é vista em quase todos os meios como um trampolim para subir na vida às custas dos outros. Além de, claro, muitos políticos fazerem de tudo para carrear mais dinheiro e mais riqueza para a elite reacionária que sempre mandou no país. Recentemente vimos três exemplos, dentre tantos outros, de políticos que de certa forma corroboram com esta tese insensata.

            Um governador (da direita reacionária) de um estado assolado por fortes chuvas e inundações com mais de 160 mortos e um outro tanto de pessoas desaparecidas e com incalculáveis prejuízos financeiros, deu uma entrevista reclamando das doações que o país inteiro estava mandando para os seus conterrâneos. “Essas doações físicas podem prejudicar os comerciantes locais”, disse ele de forma monstruosa diante da calamidade que seus governados estão passando com a catástrofe. Depois se arrependeu da estupidez que falou e pediu desculpas publicamente. Talvez ele tenha se incomodado com tantas doações. Afinal dividir o pouco que se tem com quem mais precisa é um ato socialista, humano e até meio comunista. E isso incomoda os reacionários, que querem manter o povo na miséria e na exploração constantes. Fato: passada essa tormenta, todos esquecem.

            Pior foi a proposta de um outro político tentando modificar os artigos do Código Florestal de forma a reduzir de 80% para 50% a cota de reserva legal na Amazônia. Segundo especialistas, esse projeto vai desmatar quase cinco milhões de hectares a mais na região e consequentemente assim podem aumentar os problemas climáticos como este verificado no sul do Brasil recentemente. A parte risível, no entanto, de anomalia social dos nossos políticos coube à proposta de uma deputada federal ao propor uma Moção de Repúdio ao show da Madonna, Anitta e Pablo Vittar que aconteceu no Rio de Janeiro. A parlamentar desrespeita os quase dois milhões de eleitores que foram ao espetáculo. Além do mais, mistura de forma tosca política e religião como se em seu estado não houvesse uma infinidade de problemas bem mais sérios para serem solucionados por ela própria. A Madonna nem vai dormir. Triste: o eleitor vê, discorda, só que torna a votar nessa gente.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.


sábado, 18 de maio de 2024

EFMM, a Paris dos trópicos

EFMM, a Paris dos trópicos

 

Professor Nazareno*

 

          Fala-se que a administração do PT gastou no início desse século a bagatela de 13 milhões de reais para recuperar a Praça da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em Porto Velho. Já a atual administração gastou cerca de 30 milhões de reais, mas a “escondeu” da população por longos cinco anos. Só agora em 2024, como sempre em ano de eleições, foi feita com pompas e estardalhaços a reinauguração do referido elefante branco. A velha EFMM foi realmente um marco na história da humanidade. Remonta ainda ao Primeiro Ciclo da Borracha passando pelas guerras mundiais e também pela aquisição do Acre. Não restam dúvidas de que sua importância para a criação do município de Porto Velho, capital de Roraima, foi notória. Inaugurada em 1912, a “dormente de ouro” nunca teve reconhecimento. Os seus trilhos hoje se espalham pela cidade como proteção de calçadas.

          A Ferrovia do Diabo (e não de Deus) é a “mãe” de Porto Velho, mas há muito tempo os habitantes daqui lhe viraram as costas. E o vergonhoso cemitério de locomotivas enferrujadas e apodrecendo abandonadas no meio do matagal é a prova mais cruel desta constatação. De um modo geral, os rondonienses não gostam mesmo de sua velha, feia e desajeitada mãe. Na enchente histórica de 2014, por exemplo, deixaram-na se afogar nas caudalosas águas do rio Madeira. Tempo havia para salvá-la da derrocada final, já que as águas chegavam ali mansamente, mas os rondonienses e também os “rondonienses de coração” preferiram ver o espetáculo da sua própria história se afogando. Insensíveis ao seu sofrimento e à sua importância, deixaram todo o seu acervo ao léu e à lama. E o descaso com ela não para, já que logo ali ao lado tem um porto abandonado enferrujando.

          A EFMM talvez não atraia muita gente para vê-la. Muitas pessoas gostam mesmo é só de ver o pôr do sol dali, ainda que em meio aos urubus, ratos, catinga e lixo. Além do mais, a capacidade intelectual de muitos cidadãos locais faz com que a importância histórica da velha ferrovia e o turismo sejam atividades sem sentido. E mesmo quando não havia tanta burocracia para lhe poder visitar, só apareciam por lá raríssimas pessoas. Porto Velho não tem turismo. Em vez de revitalizar algo que certamente não lhe darão a menor importância, deviam era limpar aquela imunda e fedida beira de rio e quem sabe um dia construir ali um porto de passageiros decente e uma boa pista de caminhadas como em Santarém no Pará ou mesmo Manaus. A entrada será gratuita, mas mesmo assim a velha praça pode ficar jogada às moscas e voltará a servir só para os espetáculos circenses.

     Em matéria de turismo, Porto Velho lamentavelmente é o oposto do mundo dito civilizado. Com tanta sujeira e imundice nas suas ruas, violência, falta de saneamento básico, de arborização, mobilidade urbana e infraestrutura de cidade, não somos nem nunca seremos a “Paris dos trópicos”. Enquanto Veneza, Madri, Machu Picchu, Paris, Barcelona, Tóquio e tantos outros paradisíacos destinos mundiais criam barreiras para lhes visitarem, a “capital das sentinelas avançadas” patina em organização, mas hoje implora para que venham conhecê-la. Se o turista adoecer aqui, onde será internado? Nem “Built to Suit” nós temos. E como chegar a um lugar que nem bom aeroporto, nem porto, nem voos regulares, nem boa receptividade existem? Como é que um visitante vai querer explorar a “história fascinante” da EFMM se ela já nem existe mais? Como ter uma “experiência memorável” ao lado de um barranco sujo, íngreme, seboso e escorregadio?

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.


domingo, 12 de maio de 2024

E quem vai ajudar Porto Velho?

E quem vai ajudar Porto Velho?

 

Professor Nazareno*

 

            Porto Alegre, a exuberante capital do Rio Grande do Sul foi sacudida neste início de maio de 2024 quase que por uma “explosão atômica”. Chuvas torrenciais de mais de 500 milímetros/dia inundaram a capital dos gaúchos e a reduziram a escombros. O número de mortos já passa de cem pessoas e há até agora muitos desaparecidos nesse “dilúvio” de proporções bíblicas. A área metropolitana da cidade também foi duramente afetada e está um caos, assim como mais de 430 cidades espalhadas pelo território gaúcho. O Brasil deve ajudar aquele estado sem impor nenhuma condição. Por isso, várias cidades de norte a sul e de leste a oeste do país têm contribuído para amenizar a dor dos irmãos riograndenses. Todos eles são vítimas das mudanças climáticas e também do descaso da prejudicial classe política, que só pensa em si mesma e nunca se preocupa com os outros.

            Todos nós, sem exceção, devemos ajudar nossos irmãos do sul e torcer para que a situação não piore ainda mais. Mesmo se tratando de um desastre natural, não há como não entender que se trata de algo causado pela mão humana. A natureza reage sempre quando é agredida. Por isso, o agronegócio predador e as devastações ambientais verificadas em outras partes do Brasil, e também do mundo, têm muito a ver com mais esta catástrofe. O Rio Grande do Sul vive hoje o seu Armagedon. Porém, há uma outra cidade, também capital de um estado, e bem distante de Porto Alegre, que sofre dia após dia as suas intempéries. Trata-se de Porto Velho, capital de Roraima. A cidade do norte até está acostumada com as chuvas torrenciais, que têm diminuído muito ultimamente. O caos na “capital das sentinelas avançadas” é a constante falta de infraestrutura da cidade.

            O drama de Porto Velho, no entanto, quase não é sentido, pois está diluído pelo longo tempo. Mas talvez mate mais gente do que a atual tragédia dos gaúchos. Falta de esgotos e de saneamento básico em uma cidade grande funciona como um holocausto sobre crianças, velhos e pessoas fragilizadas. E em Porto Velho, bem diferente de Porto Alegre, só tem uns dois ou três por cento de esgotos e de saneamento básico. Depois de ajudar a capital gaúcha, os brasileiros deveriam ajudar nossa cidade. Aqui a classe política também não faz nada. Desde 1914, nossa capital é uma pocilga, uma fossa a céu aberto, uma latrina suja e imunda. Porto Velho não tem mobilidade urbana, não tem rede de esgotos e a população bebe água de poços imundos cavados ao lado de fossas podres e fedorentas. Pior: a menos de 5 km há uma barragem que pode se romper e devastar tudo.

      Além de ajudar os seus irmãos gaúchos, os rondonienses deveriam contribuir e muito para diminuir catástrofes como essa. Mas um político local quer é aumentar ainda mais os índices de desmatamentos nas florestas. O povo daqui, de um modo geral, quer recuperar a BR-319 e também pede a volta do garimpo assassino e poluidor do rio Madeira. Com isso, os desastres ambientais só vão piorar. A própria ONU já reconheceu o drama de Porto Alegre como sendo uma consequência dos constantes ataques do homem à já combalida natureza. Porto Velho e Rondônia ajudam agora, mas depois deviam pedir socorro ao Brasil e ao mundo para tentar sair do eterno e fétido lodaçal em que vive há mais de cem anos. Os políticos deviam doar todo o dinheiro do fundo eleitoral para os gaúchos, que sofrem agora. Mas os porto-velhenses têm sofrido muito também. Só que a nossa dor é invisível. Os políticos só se mexerão quando chover merda por aqui.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Madonna fez um show divino!

Madonna fez um show divino!

 

Professor Nazareno*

 

            Não assisti ao megashow da cantora Madonna nas areias de Copacabana no Rio de Janeiro. Não sou muito adepto do tipo de músicas que ela canta. Gosto mais de música clássica como as de Vivaldi, Bach ou Beethoven. Por isso, jamais iria a uma apresentação dela. Mas reconheço que a mesma é uma megaestrela mundial que merece todos os elogios. E por isso respeito a sua grande e memorável performance. Respeito os seus fãs e admiradores. No Rio de Janeiro, a popstar norte-americana colocou quase dois milhões de pessoas para dançarem seus animados hits. Fato inédito em um país ainda dividido pela surreal política. Nem Lula e o seu PT muito menos o Bolsonaro com a sua trupe conservadora conseguirão hoje mobilizar tanta gente. Aliás, o colossal fracasso das comemorações do último dia 1° de maio foi uma prova cabal dessa inequívoca realidade.

            Do lado dos conservadores da extrema-direita raivosa o retumbante fracasso de mobilizar pessoas também é visível. Jair Bolsonaro, que está inelegível e na iminência de ser preso e condenado, sentiu o baque. A ala mais religiosa e reacionária do Brasil também percebeu o seu frágil poder de mobilização se for comparada com Madonna. O inelegível estava em Manaus durante o megashow no Rio e parece que “adoeceu” ao perceber o sucesso do megaevento. As cenas divulgadas direto das areias de Copacabana certamente abalaram o sistema nervoso do falso “Mito”. Ficou mais do que provado que Madonna é que é o verdadeiro mito. E mundial. O ataque de erisipela que fez o “Bozo” voltar ao Rio de Janeiro em uma UTI no ar pode ter sido o efeito colateral mais visível do show de Madonna. Para desespero de muitos, a Globo retransmitiu tudo ao vivo para todo o país.

            A cantora norte-americana é tão importante que “com um pé nas costas”, com as mãos amarradas e sem falar ou entender uma única palavra em Português ela inebriou, emocionou e levou ao delírio multidões espalhadas pelo país inteiro. Os invejosos de direita quase morrem de desgosto. Inventaram que foi dinheiro público que trouxe a artista ao Brasil. Mas foi a Heineken e o banco Itaú que patrocinaram todo o espetáculo. No palco, Madonna teve como protagonistas drag-queens, pretos, pretas, lésbicas e gays. O público foi à loucura quando as cantoras Pabllo Vittar e Anitta contracenaram com a popstar. O megashow recuperou também o real valor da bandeira brasileira. Fazia tempo que a nossa bandeira festejava o amor. E quase todos eles vestidos com a gloriosa camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Um deslumbre que pode levar muitos ao enfarte.

            O inesquecível e divino show também entronizou Chico Mendes, Marina Silva, Erika Hilton e Cazuza como os verdadeiros mitos de todo o povo brasileiro. Demonstrou inequivocamente que “se o show foi imoral, satânico” como muitos afirmaram, então por que assistiram a ele? Pelo que se sabe ninguém foi obrigado a isso. Nada de censurar nenhum show. Nem gospel, nem ateu, nem de Madonna, nem de outro cantor. O Brasil precisa de muitas outras pessoas como a Madonna e não de Lula ou de Bolsonaro. Ela transmite alegria e descontração. Nada de PT, de PL, de Patriotas ou de outra agremiação política. Nada de políticos escroques que só servem para roubar e explorar o povo sofrido sem lhe dar alegrias nem esperanças. Todos devem se confraternizar em prol da paz e da esperança. Nada de dividir pela política uma sociedade tão sofrida como a nossa. Quando será que ela vai voltar de novo a nossos palcos? Se Jesus é popstar, Madonna também é!

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 4 de maio de 2024

Rondônia sacaneia os gaúchos

Rondônia sacaneia os gaúchos

 

Professor Nazareno*

 

            Por causa das mudanças climáticas, o Rio Grande do Sul tem vivido dias tenebrosos neste início/meio de 2024. Chuvas torrenciais têm castigado o estado gaúcho em proporções jamais vistas. Cidades inteiras da paradisíaca Serra Gaúcha estão submersas. O número de mortos e desaparecidos já chega a mais de cem pessoas. Os prejuízos são incalculáveis. Em vez de estar passeando de Jet Ski, o presidente Lula foi ao estado, mandou ajuda e pôs vários de seus ministros à disposição do governador Eduardo Leite. Enquanto isso, o senador recém-eleito do Rio Grande, Hamilton Mourão, ex-vice presidente de Jair Bolsonaro, sequer deu uma só entrevista se solidarizando com seus eleitores. Mas de quem é a culpa por este terrível estado de calamidade que os gaúchos infelizmente estão vivendo? Há um causador para que isso esteja acontecendo?

            Na verdade, os maiores responsáveis por esta tragédia são muitos. E Rondônia se encontra dentre eles. A criação deste jovem e caótico estado da região norte do país foi praticamente baseada na destruição da natureza. A partir da década de 1980, ironicamente para desafogar a região sul dos inúmeros problemas socais no campo por causa da recente mecanização agrícola, o governo militar resolveu transformar o então território de Rondônia em estado. Havia também a necessidade de aumentar na época o número de parlamentares da Arena, o partido que dava sustentação à cruel ditadura militar. E assim foi feito. Vastas extensões de florestas virgens foram devastadas. Índios foram mortos e muitos animais extintos. Rondônia foi um dos maiores desastres ambientais de toda a história da humanidade. Ainda assim, riqueza e prosperidade nunca deram as caras aqui.

Ao longo da BR-364, entre Cuiabá no Mato Grosso e Porto Velho, a devastação da exuberante cobertura vegetal local deu lugar a muitas cidadezinhas pobres. E é claro que toda esta agressão à natureza antes intacta trouxe problemas e turbinou as mudanças climáticas que estão sendo vivenciadas já nos dias atuais. O clima mudou e continua mudando em todo o mundo. O vento, agora quente e úmido, viaja para o sul do Brasil causando esses transtornos que gaúchos e catarinenses estão passando. A destruição da Amazônia é a consequente destruição do mundo civilizado. Mas as desgraças não param por aí. Em Rondônia estupraram o majestoso rio Madeira ao construir duas grandes hidrelétricas em seu calmo leito. O povo originário, enganado, influenciado e incentivado só pelos interesses capitalistas, aderiu ao projeto e hoje também já sofre as consequências.

Agredir a natureza em Rondônia é uma espécie de hobby.  Do pequeno ao grande produtor, praticamente todos já devastaram o seu quinhão. E como se vê, não saciaram ainda a sua vontade. Está chegando agora o verão e com ele os grandes incêndios do que ainda resta de florestas. A fumaça vai nos acompanhar sem tréguas nos próximos meses. Mas como se todas estas desgraças não bastassem, os rondonienses, de novo incentivados pelos interesses escusos, bradam aos quatro cantos pela reconstrução da BR-319. Isso certamente gerará mais devastação ambiental, mais invasões de terras, mais derrubadas e muito mais problemas, principalmente em outras regiões do Brasil como estas enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul. Aqui, vê-se quase que diariamente pessoas pedindo a volta do garimpo poluidor no já estuprado e morto rio Madeira. Além de ajudar, Rondônia deveria era pedir desculpas aos gaúchos: destruir a natureza tem consequências.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.