Extrema-direita,
minha paixão!
Professor
Nazareno*
No
próximo ano haverá eleições. E eu quero me candidatar a um cargo político. Não
interessa qual. Vou procurar um partido qualquer para que eu possa concorrer
nas urnas. O negócio é ser eleito para poder colocar em prática tudo aquilo que
penso e entendo ser o melhor para o meu povo, o meu Estado e também para o meu
glorioso país. Sou e sempre fui orgulhosamente da extrema-direita e por isso,
acreditei sempre no slogan “Deus, Pátria e Família”. Minha
plataforma é muito singela: entendo que toda mulher deve ser submissa ao seu
marido. Creio que muitas mulheres deveriam ser surradas pelo esposo toda vez
que ousassem discordar dele. Ser a favor da violência conta a mulher é algo
normal em nossa sociedade levando-se em conta que “tem muita mulher
que merece apanhar”. E justifico: Deus fez primeiro o Homem e
depois, de sua costela, fez a Mulher.
O
pensamento da extrema-direita, de um modo geral, sempre foi a minha paixão. Por
isso entendo também que não deviam existir pessoas pobres em lugar nenhum do
nosso país. Muito menos vivendo em nossa cidade. Todo morador de rua, por
exemplo, deve ser expulso sistematicamente do lugar onde nós moramos e educamos
a nossa família. Pessoas sem emprego, sem moradia fixa, enfim, pessoas “sem
lenço e sem documento” não devem ter a dignidade nem o privilégio de se
misturar conosco, que temos “horror a pobre”. Se eleito
for, manterei fiscalização rigorosa tanto no porto quanto na rodoviária para
impedir esse acinte, essa invasão descabida de gente “estranha” ao nosso
meio. Todas as pessoas deviam viajar só de avião. É muito mais chique esperar
pessoas num aeroporto do que em um barranco escorregadio ou num ônibus sujo e
fedido.
Eleito
deputado estadual ou mesmo federal, eu coloco toda a minha família em empregos
custeados pelo Estado. Minha esposa será a minha assessora direta com salário
de 30, 40 ou 50 mil reais por mês. Meus filhos e até outros parentes mais
próximos também serão beneficiados com empregos em meu gabinete. Detalhe:
nenhum deles precisará ir ao trabalho. Receberão a grana em casa mesmo. Sei que
muita gente invejosa pode até dizer que é nepotismo. Mas se for, não terá
nenhum problema. Não serei o primeiro nem o último a fazer isso. Afinal de
contas eu fui eleito e esses idiotas que ficam falando bobagens sequer foram
candidatos. Como político da extrema-direita reacionária, eu também não gosto de
índios e muito menos de pessoas negras. Se der, trabalharei incansavelmente
para restaurar a escravidão. “Naqueles bons tempos todos trabalhavam”.
Uma vez eleito, vou transformar todas as escolas públicas do Brasil em escolas militares, que é o único lugar onde reina a disciplina e o bom-senso. Comigo não haverá também esse negócio ridículo de direitos humanos e muito menos de respeito à natureza. Lutarei com força para desmatar toda a região amazônica. E desde que me entendo por gente sempre achei que “bandido bom é bandido morto”. Pregarei com força uma única religião, a cristã, e o Estado por aqui jamais será laico. Ensinarei que esse negócio de soberania nacional é bobagem. Todos deverão amar Israel e os Estados Unidos. Censura comigo não haverá, mas toda a mídia terá um certo controle. Comunismo? Nunca, jamais! Não vou me preocupar se algum indivíduo pobre, uma mulher ou algum negro se sentir injustiçado com as minhas medidas. Existem muitos pobres de direita neste país e todos sempre só votaram em candidatos que pensam assim como eu. Alguém votaria em mim?
*Foi Professor em Porto
Velho.

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