quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A “Munique brasileira” pede socorro



A “Munique brasileira” pede socorro


Professor Nazareno*

                   
                Segundo o Instituto Trata Brasil, Porto Velho, capital de Rondônia, é o lugar que tem o menor percentual de saneamento básico e água tratada dentre as cidades acima de 200 mil habitantes e também entre as capitais do país. Essa informação é nova, mas poderia estar sendo noticiada desde 1914, ano oficial da fundação do município em fins do Primeiro Ciclo da Borracha. Nascida para ser a “latrina do Brasil”, a capital dos rondonienses é um exemplo às avessas de como seria o protótipo de uma cidade humanamente decente para ser habitada. Com uma população urbana inferior a meio milhão de pessoas e prestes a completar um século de existência, Porto Velho nada tem de bom em termos de infraestrutura para oferecer aos seus moradores. Nem o arquiteto Oscar Niemayer, falecido recentemente, teria soluções concretas para salvar os porto-velhenses do monturo, da carniça, da sujeira, da poeira e das alagações.
            E foi exatamente no dia da morte do grande arquiteto que a cidade viveu mais um de seus piores momentos. Mesmo acostumada ao caos, a população sentiu medo e pavor e viveu momentos de horror com o forte temporal de pouco mais de duas horas. Foram cerca de 12 milímetros de chuva forte prenunciando a desgraça que vem pela frente, já que está apenas iniciando o rigoroso inverno amazônico. Além de ser a “fossa do país”, Porto Velho parece ser também uma cidade amaldiçoada: entra Prefeito e sai Prefeito e a situação de calamidade pública insiste em continuar. Desde o major Fernando Guapindaia até Roberto Sobrinho que os moradores daqui sofrem com a lama, a poeira, os animais mortos, os tapurus, as fossas estouradas, a falta de esgoto e as alagações. O desafio do futuro Prefeito, médico Mauro Nazif, é hercúleo, embora ele já tenha prometido publicamente que vai resolver o caos e a desgraça.
            Sabe-se que parte da sujeira e da carniça dessa cidade é culpa de nós mesmos, os moradores que, infelizmente, não temos a cultura de limpeza e higiene como acontece com a maioria dos habitantes de Munique e de outras grandes cidades europeias. Porém, dentro da maioria das repartições públicas e palácios daqui, a sujeira e a imundície também campeiam. É Operação Vórtice e Endemia na Prefeitura Municipal, Operação Termópilas na Assembléia Legislativa, Operação Pretório no Tribunal Regional do Trabalho e OAB, CPI dos Consignados no Governo do Estado. Isso só para citar as operações atuais. Não se sabe onde há mais sujeira. Praticamente não há uma única área do Poder Público onde não haja carniça, ratos, imundície e monturo. Por isso, a capital, que precisa urgentemente de verbas para sanear suas ruas, fica jogada às traças e a sua população sofrendo afogada na catinga, sujeira e falta de esgotos.
            Uma recente reportagem mostrou a situação dos banheiros da nossa única rodoviária. Nunca se viu tanta imundície, fezes e sujeira num único órgão público. A entrada da cidade parece que foi alvo de um intenso bombardeio aéreo. É tanta lama, bichos mortos, tapurus e buracos que se parece com a entrada do inferno. Sem árvores, flores, praças e locais de lazer, Porto Velho lembra uma cidade fantasma já abandonada há tempos pelos seus administradores e moradores. Há a nítida impressão de que seres humanos normais não conseguem habitar neste “buraco quente”. Só mesmo ratazanas, cachorros, sapos, sanguessugas, cobras, lacraias, aranhas, escorpiões e percevejos. Porém, a Justiça e o bom senso sabem que matando, extinguindo e prendendo boa parte desses “ratos”, a limpeza e a higiene podem, em pouco tempo, nos fazer companhia. Aqui, parece que ser ladrão e corrupto virou status. E por favor, não me mandem embora, pois é a cidade que infelizmente escolhi para viver, criar e educar meus filhos e netos. Nem me peçam soluções, sou apenas um simples professor. Mas como comprar flores numa cidade tão imunda e sem flores se há quase 30 anos eu só tive vergonha de ser morador daqui?



*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma cidade inacabada



Uma cidade inacabada


Professor Nazareno*
           

Comparada a muitas outras cidades do Brasil como, por exemplo, Londrina e Maringá no Paraná ou Caxias do Sul no Rio Grande do Sul e que apresentam uma boa estrutura urbana, limpeza e planejamento urbanístico decente, apesar de serem muito mais jovens, a minha cidade é velha e acabada. Parece um lugar fantasma. Tem quase um século de existência, e por isso mesmo é um município quase cem anos. E essa característica, a ausência do órgão excretor, é vista diariamente em suas sujas e imundas ruas.  Porém, o seu mau cheiro característico, o trânsito caótico, a desorganização, a falta de saneamento básico e esgotos, a violência, dentre outras mazelas, estão perdendo espaço para uma nova e arrojada marca registrada: o acúmulo de obras inacabadas que campeiam por todos os bairros e ruas. Esse verdadeiro descaso verificado tanto na área pública quanto na particular enfeia ainda mais a já deplorável paisagem local.
Como em nenhum outro lugar do mundo, um Shopping Center abandonado há anos e sem data para ser terminado tem na minha cidade. Servindo ninguém sabe para quê, está lá ele no meio do mato e do lixo sendo esconderijo para marginais só que está estrategicamente localizado bem na porta da frente do meu lugar de morada. Parece até dizendo para os poucos visitantes que aqui é a terra das obras inacabadas. Como é uma cidade horizontal, edifícios de apartamentos devem ter uns três ou quatro em minha cidade. Só que metade deles está ainda por terminar. Ficam esperando talvez compradores que nunca chegarão. Não tem rodoviária nova na minha cidade, mas existe um projeto de uma que vão começar e terminar ninguém sabe quando. Teatro estadual até quem tem um, mas está inacabado, assim como toda a estrutura que abrigará a administração do Estado. Tiveram data só para ser iniciados e esperam, pacientes, seu término.
Mesmo sem ter importância nenhuma, a minha cidade tem uma linda e maravilhosa ponte, só que inacabada também. Conhecida como “aquela que ligará o nada a coisa alguma”, já gastaram quase 300 milhões de reais e, para não perder o ritmo das coisas, já anunciaram que será entregue com pelo menos nove meses de atraso. Como a população e até alguns jornalistas sobreviverão sem ver esta obra servindo à população? Teremos que esperar mais um ano para comer farinha de mandioca subsidiada? Como dizer aos nossos parentes distantes que “uma das mais importantes obras do século” ainda não está em pleno funcionamento? E para quê dizer que na minha cidade existem viadutos inacabados se todo mundo sabe disto? Mas é preciso dizer que tem anel viário na minha cidade, só que, também inacabado. Dizem que fará uma volta enorme e depois terminará bem no meio da cidade. Incrível, não? Essa minha cidade!
Há nessa minha cidade uma Assembleia Legislativa. É uma espécie de circo às avessas, já que faz todos nós de palhaços. Funciona provisoriamente num lugar ermo, mas a sua nova sede já está sendo construída há anos num lugar onde havia um circo de verdade e, obviamente, não tem data para ser concluída. Quem não se lembra das antigas escolas técnicas federais? Aqui nós temos o IFRO, que está sendo construído há vários anos na zona norte da cidade. Tem alunos, direção, professores, processos seletivos e tudo, mas quando estará pronto, ninguém sabe nem dá notícia. Até o estádio de futebol da minha cidade, que muitos juram que será usado na próxima Copa do Mundo, teve sua derrubada adiada várias vezes: qualquer dia o muro cai matando várias pessoas e a ideia absurda de ser sub-sede de uma Copa. Universidades públicas não existem na minha cidade. Na verdade tem uma só, que apesar de ser pública se parece com uma privada e está sempre em construção. No meu torrão tem vários açougues que funcionam como hospitais públicos, já hospitais públicos são prometidos todos os dias pelas autoridades, mas nunca aparecem. Dizem até que um dia será construído, não se sabe onde, um tal de espaço multi-eventos. E assim, minha inacabada cidade vai levando a sua inacabada e inútil vida.



*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Rondônia, o Primeiro Mundo é aqui



Rondônia, o Primeiro Mundo é aqui


Professor Nazareno*
           

Não sou filho de Rondônia, disso muita gente sabe. Mesmo assim, tenho muito orgulho de viver neste lugar abençoado por Deus. Sempre bem governado e administrado por políticos extremamente competentes e probos, este Estado vem ultimamente se destacando no mundo inteiro por obra de suas autoridades. Reconhecido em todos os continentes como sendo “o pedaço de Brasil que dá certo”, esta bela e jovem unidade da Federação é manchete em todas as mídias internacionais. Do influente The Times de Londres aos jornais dos Estados Unidos e do Japão não se fala de outra coisa. Rondônia é a manchete do momento e já desbancou até as coberturas sobre a crise na União Europeia ou a escolha do novo líder chinês. Porto Velho agora pode ser comparada a Milão, Londres ou Paris. “Botamos o Primeiro Mundo no chinelo.”
E os motivos desta bonança são muitos. A começar pela Educação. A prestigiada universidade de Harvard nos Estados Unidos está na iminência de fechar vários convênios de intercâmbio com as escolas rondonienses. As nossas experiências nesta área farão os norte-americanos mudarem totalmente o seu atrasado conceito de fazer educação. O MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, vai aprender com as escolas Barão do Solimões, Manaus, João Bento da Costa, Carmela Dutra, Escola Rio Branco, dentre outras, como se faz educação de verdade, já que nesta área superamos qualquer país do mundo. Claro que os americanos estão muito eufóricos com esta possibilidade uma vez que não é todo dia que têm a oportunidade de enriquecer o seu currículo.  Porto Velho – Massachusetts, a ponte aérea do momento.
Mas a bonança e o reconhecimento internacionais de Rondônia e de sua capital não se limitam somente à área educacional. A Unesco, órgão das Nações Unidas na área da Educação, Ciência e Cultura está interessadíssima em transformar a Estrada de Ferro Madeira Mamoré em Patrimônio Cultural da Humanidade. Dizem até que o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon, pode nos fazer uma visitinha de surpresa só para averiguar esta possibilidade. Conservada e muito bem cuidada pelos habitantes locais durante todos estes anos, “a mãe de Rondônia”, a exemplo da Torre Eiffel, do Taj Mahal ou da Estátua da Liberdade, será de agora em diante parada obrigatória para os turistas do mundo inteiro. Suas locomotivas históricas e quase todas ainda funcionando, os trilhos, a limpeza, tudo isto emocionará os seus milhões de visitantes.
Porém, a tacada de mestre rondoniana veio da área do esporte: seremos uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014. E quem nos garantiu isto foi o todo poderoso Emanoel Nery, secretário da SECEL de Rondônia. Cotado para assumir o COI, Comitê Olímpico Internacional após o fim do Governo Confúcio, este respeitadíssimo homem público, enfim, coloca Rondônia no mapa do futebol mundial. Com um dos mais modernos estádios de futebol do mundo, a “Arena Aluizão”, clubes de futebol de primeira grandeza e uma organização de fazer inveja à UEFA ou à CONCACAF, o Governo da Cooperação já está alocando recursos para esta área com o objetivo de participarmos da maior competição mundial de futebol. Várias seleções mundiais já devem ter demonstrado interesse para que seus atletas treinem e suas luxuosas delegações se hospedem por aqui, já que infraestrutura não nos falta em absolutamente nada. Marcas famosas como Gucci, Louis Vuitton, Calvin Klein, YSL, Benetton, devem patrocinar tudo isto. Nem o pai-de-santo Raimundinho de Oxossi previu tanta felicidade para Rondônia. Com tanta bonança assim, riqueza e prosperidade, nunca entendi por que o Príncipe William e sua esposa Kate Middleton não escolheram Rondônia e Porto Velho para passar sua lua de mel.




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pontes e viadutos na Amazônia




Pontes e viadutos na Amazônia



Professor Nazareno*


A Amazônia é cortada por uma infinidade de grandes rios, furos, paranás, lagos, igapós, pântanos e igarapés, por isso tem uma necessidade muito grande de ter pontes, viadutos ou mesmo passarelas para superar os seus obstáculos naturais. O problema é que os políticos da região, aliados à burrice crônica de uma população acostumada a não cobrar os seus direitos, não conseguem ou não querem determinar quais são as reais prioridades para a construção destes empreendimentos tão vitais para o progresso amazônico. De Pimenta Bueno, no interior de Rondônia, passando pela capital deste Estado e até em Manaus, a metrópole da região, o que se observa é um festival de desperdícios do dinheiro público com a construção de verdadeiras inutilidades, enormes elefantes-brancos que em absolutamente nada vão ajudar a desenvolver a atrasada região, apenas vão encher, em alguns casos, os bolsos de políticos corruptos.
Em Manaus foi gasta a assombrosa quantia de um bilhão e 100 milhões de reais, ou  seja, quase 600 milhões de dólares no câmbio atual, para construir uma ponte sobre o rio Negro e que ligará a capital amazonense ao simpático vilarejo de Cacau Pirera que tem menos de 3 mil pessoas e pertence ao município de Iranduba. Contados um a um, os habitantes do outro lado do rio não ultrapassam as 100 mil almas e por isso teriam que trabalhar umas três eternidades e umas duzentas gerações para pagar todo o dinheiro investido naquela inútil obra. Manacapuru, distante mais de 100 quilômetros de Manaus e Novo Airão, perdida nos confins amazônicos, além de Iranduba e da vilazinha de Cacau Pirera, do ponto de vista do capitalismo, não justificavam tanto desperdício de dinheiro público. Além do mais, a ponte não tirou Manaus do secular isolamento nacional uma vez que a solução para isso deveria ser pela BR - 319.
Porém, os manauaras adoram esta “benfeitoria” e fazem até questão de mostrá-la aos quatro ventos como sendo algo que trará, não se sabe como, desenvolvimento e riquezas para a sua cidade. Nem se perguntam quanto custou a sua construção. Já em Rondônia, os absurdos e a farra com o dinheiro público são até maiores do que no Amazonas: dos desnecessários viadutos de Pimenta Bueno até a novela dos intermináveis viadutos da capital Porto Velho, que já viraram chacota nacional em programa de televisão, o que se vê é uma homenagem ao absurdo. Os seis viadutos e passagens de nível da capital de Rondônia só serviram até agora para derrotar o PT local nas últimas eleições municipais. Pior mesmo é a ponte sobre o rio Madeira, a que liga o nada a coisa alguma. Trezentos milhões de reais jogados literalmente na água caudalosa do rio fazem desta obra uma homenagem à estupidez humana. Mas o senso comum a aplaude.
Sem a estrada pronta, essa obra é um dos maiores exemplos de desperdício no país. Mas por estar ao lado de uma vitrine de 500 mil admiradores, os políticos deixaram de construir pontes bem mais importantes do ponto de vista estratégico como a de Guajará-Mirim ou mesmo a outra que tiraria o Acre do isolamento. A ponte de Porto Velho além de subsidiar a farinha de mandioca produzida no projeto Joana d’Arc servirá também para muitos incautos levarem suas famílias para tecer loas “a capacidade dos nossos políticos” e fazer fotos. Mesmo com ela, a ligação entre Porto Velho e Manaus sempre dependerá da balsa do Careiro e num Estado que já dá sinais de falência, gastar uma fortuna sem necessidade é fazer-nos de trouxas. Falaram até que ela seria entregue antes do prazo e dentro do orçamento. Duvido: o Brasil não é Primeiro Mundo e a empresa que fizer isto jamais ganhará qualquer licitação. Obras públicas neste país geralmente se confundem com desperdício, roubalheira, superfaturamento, desvios de verba e enganação do público, que paga e aplaude “a generosidade e o trabalho” de suas autoridades.



*É Professor em Porto Velho.