terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Papai Noel, Companheiro ou Camarada?




Papai Noel, Companheiro ou Camarada?


Professor Nazareno*





Nunca gostei do Papai Noel. Com o seu enorme saco nas costas, dizem que cheio de brinquedos, ele na verdade enche é o meu. Velho com cara e jeito de idiota, pançudo miserável, mentiroso de uma figa, patife desgraçado. Jamais deixaria meus inocentes netinhos se sentarem em seu imoral colo. Há desconfianças de que ele seja um pedófilo de primeira, por isso não devia merecer a confiança de ninguém. E o pior: está em todos os lugares. Já ouvi lorotas sobre a sua ideologia dizendo que o mesmo era petista ou comunista. Pura mentira, só enganação mesmo. Esse miserável de uma figa, apesar de estar sempre de vermelho, não pode ser tão cruel assim com o seu povo. Essa peste só pode ser obra do satanás. Papai Noel foi criado nos quintos dos infernos e de lá todos os finais de ano é enviado à terra com a missão de trazer paz e alegria para os simplórios e idiotas. Porém, bem antes do Natal o “praga” apareceu em Porto Velho só para trazer desassossego, dor e vergonha para nós. Tive delírios homicidas quando o vi.

Mesmo sendo uma criação do demônio, já que foi inventado no inferno só para satisfazer as ambições do Capitalismo, ele se parece com “companheiros e camaradas”, pois vive de mentiras e enganações. Não gosta de favelas nem de lugares pobres como o Nordeste do Brasil porque lá as crianças não comem e por isso mesmo não podem ganhar lembrancinhas. “Criança que não come, não ganha presentes”, diz com desfaçatez. Assim como o “infame velhinho”, conheço muitos políticos do Brasil que usam essa mesma estratégia para se dar bem na vida. Todos juram que trabalham em benefício dos mais necessitados quando na verdade estão ficando cada vez mais ricos metendo a mão no dinheiro público que serviria para estes mesmos pobres. Vejam só que realidades maquiavélicas: “criança que se comporta o ano inteiro, recebe a visita do Papai Noel. O Mensalão nunca existiu. O PT e o PC do B são partidos políticos de pessoas honestas. Toda militância política é inteligente. Os pobres do Brasil, e bons eleitores, serão sempre os únicos beneficiados com as lembrancinhas do meu saco.

O problema é que muitos brasileiros acreditam nessa fantasia natalina como sendo algo verdadeiro. Assim como acreditam também que políticos corruptos e ladrões serão punidos exemplarmente pela nossa Justiça e que, por exemplo, a Assembleia Legislativa de Rondônia é a casa do povo. Às vezes penso que a “miséria” do bom velhinho mora mesmo é dentro da ALE: nunca precisou ser fim de ano para a população rondoniense receber muitos presentes dos nossos queridos representantes. Ali, corrupto e malfeitor dá lição de ética e achaca até pessoas honestas. Não me recordo de nenhuma legislatura em que o povo mais sofrido do nosso Estado não tenha sido agraciado com a bondade vinda de dentro daquela “casa de leis”. Se não morar na ALE, a “desgraça do Noel” mora é na Prefeitura ou na Câmara de Vereadores do nosso município. Nos últimos oitos anos, recebemos presentes como ninguém: rodoviária nova, viadutos, passarelas, arborização, saneamento básico, asfalto, água tratada, ação e coragem dos parlamentares municipais, etc. É tanta bondade que a ALE e a Câmara Municipal embora sejam instituições públicas, se parecem com privadas. Haja bondade e sujeira.

Como dissimuladamente Rondônia insistia em ser sub-sede da Copa do Mundo e a EFMM será Patrimônio da Humanidade, as nossas autoridades poderiam reivindicar também, que o “maldito velhinho” fixasse residência em Porto Velho. Papai Noel usando as privadas da nossa limpa e asseada rodoviária seria o máximo. De lá, despacharia junto com os nossos Deputados Estaduais e Vereadores.  “Mandar merda e sujeira para todos seria um sonho possível”. O problema é que ele, muito vaidoso, talvez não pudesse suportar a enorme concorrência que naturalmente sofreria dos nossos excelentes políticos. Uma vantagem: como sempre há festas no Natal, em vez de Nossa Senhora Auxiliadora da Câmara, o “cretino velhinho” seria o padroeiro de nossa cidade. Fantasia ou não, realidade ou não, a verdade é que estamos precisando de alguém ou de alguma entidade que nos governe, nos administre de fato, trabalhe em benefício da coletividade e que respeite o suado dinheiro dos nossos impostos. Sem isso, viveremos eternamente num mundo de faz-de-conta, mas sem heróis. Ou com heróis sendo presos e soltos em menos de uma semana. Aqui para nós: ganhar a liberdade após uma pirotecnia midiática só pode ser mesmo coisa para herói. Ou então para o Papai Noel.











*É Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A “Munique brasileira” pede socorro



A “Munique brasileira” pede socorro


Professor Nazareno*

                   
                Segundo o Instituto Trata Brasil, Porto Velho, capital de Rondônia, é o lugar que tem o menor percentual de saneamento básico e água tratada dentre as cidades acima de 200 mil habitantes e também entre as capitais do país. Essa informação é nova, mas poderia estar sendo noticiada desde 1914, ano oficial da fundação do município em fins do Primeiro Ciclo da Borracha. Nascida para ser a “latrina do Brasil”, a capital dos rondonienses é um exemplo às avessas de como seria o protótipo de uma cidade humanamente decente para ser habitada. Com uma população urbana inferior a meio milhão de pessoas e prestes a completar um século de existência, Porto Velho nada tem de bom em termos de infraestrutura para oferecer aos seus moradores. Nem o arquiteto Oscar Niemayer, falecido recentemente, teria soluções concretas para salvar os porto-velhenses do monturo, da carniça, da sujeira, da poeira e das alagações.
            E foi exatamente no dia da morte do grande arquiteto que a cidade viveu mais um de seus piores momentos. Mesmo acostumada ao caos, a população sentiu medo e pavor e viveu momentos de horror com o forte temporal de pouco mais de duas horas. Foram cerca de 12 milímetros de chuva forte prenunciando a desgraça que vem pela frente, já que está apenas iniciando o rigoroso inverno amazônico. Além de ser a “fossa do país”, Porto Velho parece ser também uma cidade amaldiçoada: entra Prefeito e sai Prefeito e a situação de calamidade pública insiste em continuar. Desde o major Fernando Guapindaia até Roberto Sobrinho que os moradores daqui sofrem com a lama, a poeira, os animais mortos, os tapurus, as fossas estouradas, a falta de esgoto e as alagações. O desafio do futuro Prefeito, médico Mauro Nazif, é hercúleo, embora ele já tenha prometido publicamente que vai resolver o caos e a desgraça.
            Sabe-se que parte da sujeira e da carniça dessa cidade é culpa de nós mesmos, os moradores que, infelizmente, não temos a cultura de limpeza e higiene como acontece com a maioria dos habitantes de Munique e de outras grandes cidades europeias. Porém, dentro da maioria das repartições públicas e palácios daqui, a sujeira e a imundície também campeiam. É Operação Vórtice e Endemia na Prefeitura Municipal, Operação Termópilas na Assembléia Legislativa, Operação Pretório no Tribunal Regional do Trabalho e OAB, CPI dos Consignados no Governo do Estado. Isso só para citar as operações atuais. Não se sabe onde há mais sujeira. Praticamente não há uma única área do Poder Público onde não haja carniça, ratos, imundície e monturo. Por isso, a capital, que precisa urgentemente de verbas para sanear suas ruas, fica jogada às traças e a sua população sofrendo afogada na catinga, sujeira e falta de esgotos.
            Uma recente reportagem mostrou a situação dos banheiros da nossa única rodoviária. Nunca se viu tanta imundície, fezes e sujeira num único órgão público. A entrada da cidade parece que foi alvo de um intenso bombardeio aéreo. É tanta lama, bichos mortos, tapurus e buracos que se parece com a entrada do inferno. Sem árvores, flores, praças e locais de lazer, Porto Velho lembra uma cidade fantasma já abandonada há tempos pelos seus administradores e moradores. Há a nítida impressão de que seres humanos normais não conseguem habitar neste “buraco quente”. Só mesmo ratazanas, cachorros, sapos, sanguessugas, cobras, lacraias, aranhas, escorpiões e percevejos. Porém, a Justiça e o bom senso sabem que matando, extinguindo e prendendo boa parte desses “ratos”, a limpeza e a higiene podem, em pouco tempo, nos fazer companhia. Aqui, parece que ser ladrão e corrupto virou status. E por favor, não me mandem embora, pois é a cidade que infelizmente escolhi para viver, criar e educar meus filhos e netos. Nem me peçam soluções, sou apenas um simples professor. Mas como comprar flores numa cidade tão imunda e sem flores se há quase 30 anos eu só tive vergonha de ser morador daqui?



*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma cidade inacabada



Uma cidade inacabada


Professor Nazareno*
           

Comparada a muitas outras cidades do Brasil como, por exemplo, Londrina e Maringá no Paraná ou Caxias do Sul no Rio Grande do Sul e que apresentam uma boa estrutura urbana, limpeza e planejamento urbanístico decente, apesar de serem muito mais jovens, a minha cidade é velha e acabada. Parece um lugar fantasma. Tem quase um século de existência, e por isso mesmo é um município quase cem anos. E essa característica, a ausência do órgão excretor, é vista diariamente em suas sujas e imundas ruas.  Porém, o seu mau cheiro característico, o trânsito caótico, a desorganização, a falta de saneamento básico e esgotos, a violência, dentre outras mazelas, estão perdendo espaço para uma nova e arrojada marca registrada: o acúmulo de obras inacabadas que campeiam por todos os bairros e ruas. Esse verdadeiro descaso verificado tanto na área pública quanto na particular enfeia ainda mais a já deplorável paisagem local.
Como em nenhum outro lugar do mundo, um Shopping Center abandonado há anos e sem data para ser terminado tem na minha cidade. Servindo ninguém sabe para quê, está lá ele no meio do mato e do lixo sendo esconderijo para marginais só que está estrategicamente localizado bem na porta da frente do meu lugar de morada. Parece até dizendo para os poucos visitantes que aqui é a terra das obras inacabadas. Como é uma cidade horizontal, edifícios de apartamentos devem ter uns três ou quatro em minha cidade. Só que metade deles está ainda por terminar. Ficam esperando talvez compradores que nunca chegarão. Não tem rodoviária nova na minha cidade, mas existe um projeto de uma que vão começar e terminar ninguém sabe quando. Teatro estadual até quem tem um, mas está inacabado, assim como toda a estrutura que abrigará a administração do Estado. Tiveram data só para ser iniciados e esperam, pacientes, seu término.
Mesmo sem ter importância nenhuma, a minha cidade tem uma linda e maravilhosa ponte, só que inacabada também. Conhecida como “aquela que ligará o nada a coisa alguma”, já gastaram quase 300 milhões de reais e, para não perder o ritmo das coisas, já anunciaram que será entregue com pelo menos nove meses de atraso. Como a população e até alguns jornalistas sobreviverão sem ver esta obra servindo à população? Teremos que esperar mais um ano para comer farinha de mandioca subsidiada? Como dizer aos nossos parentes distantes que “uma das mais importantes obras do século” ainda não está em pleno funcionamento? E para quê dizer que na minha cidade existem viadutos inacabados se todo mundo sabe disto? Mas é preciso dizer que tem anel viário na minha cidade, só que, também inacabado. Dizem que fará uma volta enorme e depois terminará bem no meio da cidade. Incrível, não? Essa minha cidade!
Há nessa minha cidade uma Assembleia Legislativa. É uma espécie de circo às avessas, já que faz todos nós de palhaços. Funciona provisoriamente num lugar ermo, mas a sua nova sede já está sendo construída há anos num lugar onde havia um circo de verdade e, obviamente, não tem data para ser concluída. Quem não se lembra das antigas escolas técnicas federais? Aqui nós temos o IFRO, que está sendo construído há vários anos na zona norte da cidade. Tem alunos, direção, professores, processos seletivos e tudo, mas quando estará pronto, ninguém sabe nem dá notícia. Até o estádio de futebol da minha cidade, que muitos juram que será usado na próxima Copa do Mundo, teve sua derrubada adiada várias vezes: qualquer dia o muro cai matando várias pessoas e a ideia absurda de ser sub-sede de uma Copa. Universidades públicas não existem na minha cidade. Na verdade tem uma só, que apesar de ser pública se parece com uma privada e está sempre em construção. No meu torrão tem vários açougues que funcionam como hospitais públicos, já hospitais públicos são prometidos todos os dias pelas autoridades, mas nunca aparecem. Dizem até que um dia será construído, não se sabe onde, um tal de espaço multi-eventos. E assim, minha inacabada cidade vai levando a sua inacabada e inútil vida.



*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Rondônia, o Primeiro Mundo é aqui



Rondônia, o Primeiro Mundo é aqui


Professor Nazareno*
           

Não sou filho de Rondônia, disso muita gente sabe. Mesmo assim, tenho muito orgulho de viver neste lugar abençoado por Deus. Sempre bem governado e administrado por políticos extremamente competentes e probos, este Estado vem ultimamente se destacando no mundo inteiro por obra de suas autoridades. Reconhecido em todos os continentes como sendo “o pedaço de Brasil que dá certo”, esta bela e jovem unidade da Federação é manchete em todas as mídias internacionais. Do influente The Times de Londres aos jornais dos Estados Unidos e do Japão não se fala de outra coisa. Rondônia é a manchete do momento e já desbancou até as coberturas sobre a crise na União Europeia ou a escolha do novo líder chinês. Porto Velho agora pode ser comparada a Milão, Londres ou Paris. “Botamos o Primeiro Mundo no chinelo.”
E os motivos desta bonança são muitos. A começar pela Educação. A prestigiada universidade de Harvard nos Estados Unidos está na iminência de fechar vários convênios de intercâmbio com as escolas rondonienses. As nossas experiências nesta área farão os norte-americanos mudarem totalmente o seu atrasado conceito de fazer educação. O MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, vai aprender com as escolas Barão do Solimões, Manaus, João Bento da Costa, Carmela Dutra, Escola Rio Branco, dentre outras, como se faz educação de verdade, já que nesta área superamos qualquer país do mundo. Claro que os americanos estão muito eufóricos com esta possibilidade uma vez que não é todo dia que têm a oportunidade de enriquecer o seu currículo.  Porto Velho – Massachusetts, a ponte aérea do momento.
Mas a bonança e o reconhecimento internacionais de Rondônia e de sua capital não se limitam somente à área educacional. A Unesco, órgão das Nações Unidas na área da Educação, Ciência e Cultura está interessadíssima em transformar a Estrada de Ferro Madeira Mamoré em Patrimônio Cultural da Humanidade. Dizem até que o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon, pode nos fazer uma visitinha de surpresa só para averiguar esta possibilidade. Conservada e muito bem cuidada pelos habitantes locais durante todos estes anos, “a mãe de Rondônia”, a exemplo da Torre Eiffel, do Taj Mahal ou da Estátua da Liberdade, será de agora em diante parada obrigatória para os turistas do mundo inteiro. Suas locomotivas históricas e quase todas ainda funcionando, os trilhos, a limpeza, tudo isto emocionará os seus milhões de visitantes.
Porém, a tacada de mestre rondoniana veio da área do esporte: seremos uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014. E quem nos garantiu isto foi o todo poderoso Emanoel Nery, secretário da SECEL de Rondônia. Cotado para assumir o COI, Comitê Olímpico Internacional após o fim do Governo Confúcio, este respeitadíssimo homem público, enfim, coloca Rondônia no mapa do futebol mundial. Com um dos mais modernos estádios de futebol do mundo, a “Arena Aluizão”, clubes de futebol de primeira grandeza e uma organização de fazer inveja à UEFA ou à CONCACAF, o Governo da Cooperação já está alocando recursos para esta área com o objetivo de participarmos da maior competição mundial de futebol. Várias seleções mundiais já devem ter demonstrado interesse para que seus atletas treinem e suas luxuosas delegações se hospedem por aqui, já que infraestrutura não nos falta em absolutamente nada. Marcas famosas como Gucci, Louis Vuitton, Calvin Klein, YSL, Benetton, devem patrocinar tudo isto. Nem o pai-de-santo Raimundinho de Oxossi previu tanta felicidade para Rondônia. Com tanta bonança assim, riqueza e prosperidade, nunca entendi por que o Príncipe William e sua esposa Kate Middleton não escolheram Rondônia e Porto Velho para passar sua lua de mel.




*É Professor em Porto Velho.