Professor Nazareno*
Não há nenhuma dúvida disso. O jovem Estado de Rondônia tem na política uma verdadeira predileção pela extrema-direita reacionária. Na verdade, sempre teve. Só que não existe uma explicação no mínimo plausível até hoje para que isto aconteça. Estado pobre, subdesenvolvido, distante dos grandes centros, sem indústrias, esquecido e explorado ao máximo em seus recursos naturais, Rondônia é talvez atualmente o mais bolsonarista dentre todos os estados brasileiros. Santa Catarina, Goiás e Paraná são estados em que a direita e a extrema-direita têm grandes votações, mas são estados bem mais antigos e ricos da federação, onde o agronegócio sempre prosperou de maneira muito forte. Mesmo assim, nesses estados existem grandes parcelas de sua população que votam na esquerda e em candidatos progressistas. A esquerda em Rondônia é algo insignificante e quase invisível.
Os manuais de Sociologia mais modernos e atuais certamente não saberiam explicar corretamente o porquê desta discrepância social e política. Eu, no entanto, arrisco a dizer que podem existir três variáveis para explicar esta situação. 1. Rondônia é um dos quintais do agronegócio nacional. Grandes parcelas da floresta amazônica foram devastadas para dar lugar às plantações, que, diga-se de passagem, nada trouxe de benefícios para o povão sofrido daqui. Neste rincão violento há fome, miséria, exploração e problemas sociais como em qualquer outro estado do país. Mas o sofrido e explorado eleitor continua hipnotizado pelas promessas dos políticos reacionários. 2. A mais “nova estrela no azul da União” tem em sua população talvez os maiores índices de cidadãos evangélicos do país. Percentualmente, Rondônia só perde para o Acre em número de evangélicos com mais de 41% de fiéis.
Absolutamente nada contra esse segmento religioso, pois quase todos os evangélicos são pessoas boas, comprometidas com a sua fé, gente honesta, amigável e coerente. Mas muitos deles são ligados à riqueza e ao acúmulo de patrimônio, coisas inerentes à extrema-direita reacionária. Daí, vota-se quase sempre em quem o pastor mandar sem se questionar muito o porquê. 3. Em praticamente toda a sua existência política, Rondônia sempre foi governada por coronéis, que deixaram suas marcas na população, principalmente a menos instruída, que sempre foi maioria por aqui. Até hoje, por exemplo, o Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, o Teixeirão, um preposto da Ditadura Militar em terras karipunas, é reconhecido e aclamado como um Deus entre a população mais velha. Isso sem ter tido um único voto do povo daqui. Falar de oposição nos governos indicados era prisão e perseguição na certa.
Só que esse posicionamento sempre “à direita” nada trouxe de benefícios para o povo daqui. Todo eleitor tem o direito de votar e de seguir também quem quiser na política. É a democracia. Mas Rondônia nunca teve um governador de esquerda. Jerônimo Santana, o Bengala, só governou o Estado quando seu partido, o PMDB, estava no poder central do país. Já a sua suja e imunda capital jamais teve um prefeito mais progressista com mandato total. O único esquerdista que teve foi Roberto Sobrinho do PT, que injustiçado e perseguido pela elite local, terminou a sua administração processado e preso. Alguns anos depois foi inocentado pela Justiça. Como pode um eleitor sem nenhuma visão nem leitura de mundo amar Israel, Argentina e Estados Unidos só porque os outros mandam? Como pode o sujeito ser contra os benefícios que a própria política pode lhe proporcionar? Enfim, como ser contra si próprio? Até parece que quem governa Rondônia é o Trump, Netanyahu ou o Milei.
*Foi Professor em Porto Velho.

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