Professor Nazareno*
Sou professor aposentado, tenho quase 70 anos de vida, sempre trabalhei dando aulas, tenho seis filhos de um único casamento com uma única esposa, jamais defendi o slogan “Deus, Pátria e Família”, nunca deixei de pagar meus impostos em dia, não tenho problemas com o Fisco, vivo em paz com a Receita Federal, pago IPTU todo ano à Prefeitura de Porto Velho, meu IPVA está em dia, todos os anos de eleições vou às urnas cumprir com meus deveres cívicos, vez ou outra ajudo a quem precisa, tenho excelentes relacionamentos com os meus vizinhos, nunca usei qualquer tipo de drogas, enfim, me considero um cidadão pacato, longe de qualquer tipo de suspeitas. Porém ouvi dizer que estão querendo invadir a minha casa, situada num humilde bairro de minha cidade. Não sei o que fiz para merecer tamanho castigo, tamanha agressão, já que tudo o que fiz e faço é só para ajudar os mais necessitados.
Não sei ainda quem quer invadir a minha residência e nem o objetivo. Mas alguns vizinhos me falaram que é para tomar os meus poucos pertences. “Quando você não tem como se defender, perde totalmente a sua soberania”. Parece que pessoas invejosas e sem caráter entendem que, por terem armas sofisticadas podem mandar na vida dos outros. Qualquer pessoa pode seguir a religião que quiser. Pode torcer pelo time de futebol que achar melhor e pode também ter sua preferência política sem ser incomodado por quem detém o poder. Mas vários vizinhos meus já tiveram o recesso do seu lar invadido por estes mal feitores. Tomaram-lhe tudo e não deram nenhuma satisfação à Justiça nem a ninguém. Aliás, nestes casos nada funciona para nos defender dos ataques e das injustiças cometidas. Ou concorda-se com todas as exigências apresentadas ou será atacado e morto sem perdão.
O pior de tudo é que eu descobri que dentro de minha própria casa tem pessoas que concordam normalmente com que nós sejamos atacados e vilipendiados em nossa intimidade por estes facínoras. Eu soube que pelo menos três dos meus filhos já se aliaram a esses bandidos e agressores. Minha esposa se mantém neutra na esperança de que com a invasão as coisas melhorem para todos nós. Coitada! Isso nunca aconteceu. Nossa casa é humilde como já disse, mas só de litoral tem mais de sete mil quilômetros. Temos rios caudalosos e lindíssimos, temos vários tipos de clima e um povo heroico e trabalhador. A maior floresta do mundo é no meu quintal. Não aprovamos guerra nem brigas, já que presamos pela paz e pelo diálogo e entendimento entre os povos e nações. Mas ninguém quer saber disso. As armas sofisticadas e modernas que eles têm impõem as suas maléficas vontades. Mas haverá saída?
Não! Dificilmente um entendimento neste caso será levado em consideração. A invasão virá e será aplaudida por muitos dos filhos da terra, meus vizinhos e conhecidos. Principalmente porque meus filhos não entendem muito de História e nem do nosso passado. Ultimamente vi alguns deles frequentando Igrejas reacionárias que geralmente têm uma compreensão distorcida da realidade. A fome e a miséria continuarão como coisas normais. Em todas as casas invadidas durante o último século, por exemplo, a realidade nunca mudou nelas. Somente os invasores calhordas é que lucraram ao roubar toda a riqueza que encontraram dentro dessas casas saqueadas. E para que a minha casa não seja invadida nem saqueada eu só preciso saber escolher direito quem vai me representar nos próximos anos. Eu só preciso encontrar, entre os amigos, quem me defenda. Estou com medo: quem deveria me defender já disse a todos que apenas vai abrir os portões se o inimigo quiser entrar.
*Foi Professor em Porto Velho.
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