terça-feira, 23 de junho de 2009

Vejam como anda a Saúde na terra de Cassol e Roberto Robrinho


Desabafo de uma mãe que perdeu a filha de 20 anos. Negligência médica e péssimo atendimento são rotinas no João Paulo II em Porto Velho.


Nágila Camila Maia de Menezes nasceu em 02/10/1988. Faleceu em 16/06/2009


“No sábado 06/06/2009, ela foi assistir à cavalgada. Às 13 horas foi para a casa do namorado como sempre. Só voltou bem tarde. No domingo acordou às 10 horas, ajudou a fazer o almoço. Depois brincou no computador. Às 14 horas o namorado veio buscá-la para um encontro de amigos. Eles sempre se reuniam aos domingos na casa da Nick, uma amiga do ensino médio. Ela estava cursando o 3° período de Informática na Unir, mas nunca perdeu o contato com os amigos do ensino médio. Lá, ela passou mal, dores de cabeça, dores no corpo, dor de garganta e febre. Voltou cedo para casa. Tomou Cataflan e Paracetamol. Na segunda-feira não foi à faculdade, o namorado sugeriu que ela descansasse. Como ela nunca faltava à faculdade, um amigo veio saber o que aconteceu. Ela comentou que era só uma dor de garganta, que já estava melhor. Dia 08/06 apareceu umas manchas vermelhas nos braços e pernas dela. À noite quando cheguei ela comentou sobre as manchas, achei que algum mosquito havia picado ela. Fui fazer minha caminhada, ela não quis ir, disse que não se sentia bem. Por volta das 9 horas, ela me ajudou a fazer a janta. Fez um suco de laranja tomou e foi para o computador como sempre fazia. Por volta de 11h30min foi dormir. 11.55 ela veio onde eu estava e falou que estava com uma dor no pescoço. Como ela ficava muito tempo no computador, era comum esse tipo de dor. Mexi com a cabeça dela pra um lado e para o outro, para cima e para baixo. Como ela não falou nada achei que estava tudo certo. E falei que: ‘está tudo bem, amanhã te levo ao médico, hoje não adianta, o João Paulo está em greve’. Ela voltou para o quarto, apagou a luz e fechou a porta. 05 minutos depois fui vê como ela estava, encontrei a porta fechada e tudo escuro. Pensei: ‘ela está dormindo, não vou incomodar. ’ Voltei para dormir. Logo depois ela vomitou. Por volta de 12.50 a dor aumentou. Ela ligou para o namorado e falou que estava com fortes dores no pescoço e não sentia as pernas. Ele veio correndo de carro. Ela já não conseguia levantar para abrir a porta e nem mesmo respondia aos chamados do namorado. Ele teve que arrombar a porta e pegar ela no colo. Colocou dentro do carro e seguimos para o João Paulo. Ele deu entrada por volta de 01h30min da manhã de terça-feira. Ao entrar, fiquei fora e o Léo entrou com ela, para explicar o que estava acontecendo. Eles aplicaram um soro com uma medicação. Depois disto ela gritava e se batia no chão como se estivesse sentindo muita dor. Os enfermeiros falavam que ela estava tendo um surto psicótico. Eu falei que não, ela nunca teve nada parecido. Ela ficou se batendo e gritando e eles não faziam nada. Veio um enfermeiro e ficou brigando com ela. E falava para ela parar, porque ela já havia dado o “showzinho”. Mandou que ela sentasse na cadeira e parasse com escândalo. Tentamos pôr ela na cadeira, mas não dava. Ele chamou alguém, que o ajudou a levar ela até a cadeira e a sentou. Eu e o Léo sempre tentando fazer com que ela não batesse a cabeça. Ela se debatia toda e caia no chão. Eu e o Léo ficávamos tentando falar com ela para acalmá-la. Eles falavam: ‘não fale com ela, isso é teatro. Quanto mais vocês falarem, aí que ela vai fazer ceninhas. ’ Ele falava: Nágila, pare com isso. Não tem graça, pare já com isso. Não tem a menor graça, pare já. Isso tudo em tom de ameaça. Como se ela estivesse brincando. Quando ela caia, eu ficava tentando proteger a cabeça dela, eles falavam: ‘não precisa se preocupar, ela não vai bater a cabeça. Sabe por quê? Porque ela sabe que dói, não é, Nágila? Ela bate o ombro, mas a cabeça não, não é Nágila? Isso tudo com ironia. Por volta de 3 horas da manhã, de tanto pedirmos ajuda veio um médico e aplicou um sedativo nela. E passou para fazer exame de sangue. Fui ao laboratório, mas a bioquímica estava dormindo e não quis atender. A moça que atendeu com cara de sono falou que ela precisava descansar. Eu pedi: ‘moça, a minha filha está passando mal e o médico quer esse exame urgente. Ela respondeu: ‘Tá bem, tô indo.’ Passou uns 30 minutos. Fui bater na porta novamente, mais uma vez, não atenderam o meu chamado. Lá pra 4 horas uma mulher chegou passando mal, do coração. Foi ao laboratório e elas não atenderam. Ela foi falar com os enfermeiros que ia embora, pois no laboratório ninguém atendia. Mandaram que chamasse novamente, pois ela tinha que fazer o exame. Ela foi chamar novamente a bioquímica e dessa vez fui com ela. Ficamos as duas batendo até que resolveram atender. O resultado saiu às 6 horas, mas não tinha médico para ver. A enfermeira disse que teríamos que esperar para o próximo plantão, pois os médicos tinham ido descansar. Só às 7 horas. Enquanto isso a minha filha estava no chão gelado porque não tinha nem mesmo um lençol para ela, toda urinada. Deu 7 horas, deu 7.30, deu 8 horas e nada de médicos. Fui falar com a enfermeira e ela falou que não tinha hora certa para o médico entrar, principalmente porque a greve já havia começado com a baderna. Resolvi tirar a minha filha de lá, o Léo foi pedir uma ambulância enquanto eu procurava a ficha médica dela, como não enxergo sem os óculos, fiquei procurando e não encontrei, de longe a enfermeira me viu e perguntou o que era. Pedi para ela procurar para mim a ficha, pois eu iria tirar minha filha dali. Ela falou: ‘não, espera 10 minutos, o médico vai aparecer’. Ao perceber a gravidade da saúde dela, logo apareceu uma maca, lençóis e fralda descartável. Rápido eles tiraram ela do chão e tentaram aquecê-la. Mudaram o soro e ficaram muito preocupados pelo fato dela não acordar. Tentaram de tudo e nem sinal. Fizeram novamente exame de sangue. Falaram que a diabete dela estava muito alta. Eu falei: ‘ela não tem diabete, ela é muito sadia, é doadora de sangue. Ela não reagia, eles aplicaram insulina por volta das 10 horas. Pouco tempo depois ela começou a ter convulsões. Eles a levaram para a emergência e puseram ar nas narinas e colocaram um aparelho para medir a respiração. Novamente, comentei com o médico o estado dela quando chegou lá. Aí foi que ele ligou para o neurologista. Ele falou: ‘não se preocupe, o neuro está no São Cosme e Damião, mas esta vindo para cá’. Pediu que eu verificasse os batimentos dela, era para ficar na média de 95 batidas. Ela batia 95, 96, 97, 98. E voltava para 95. De repente todos saíram. E entrou um enfermeiro para fazer um curativo. De repente as batidas começam a baixar. 95, 92, 80, 75 70, 65, 60, 50. Olhei ela. Não respirava, fiquei maluca. Olho para um lado e outro, ninguém. Chamei o enfermeiro e mostrei. Ele falou: ‘Um médico!’ Eu saí correndo e pedi ajuda. Eles correram e a entubaram. Depois falaram que estava tudo bem. Depois não me deixaram entrar. Lá pelas 15 horas tiraram o líquido da coluna para o exame de meningite. Às 18 horas saiu o resultado. O médico chamou eu e o Léo, falou que era meningite, ‘mas não se preocupe, está tudo bem, foi diagnosticado a tempo e ela vai ficar boa. Estamos esperando uma UTI. Já foi feito o pedido para o Cemetron, mas não tem vaga.’ Ela foi transferida só depois das 10 horas da noite do dia 09/06/09. Depois que o meu irmão foi ao Cemetron saber sobre a vaga. Ao entrar no Cemetron foi dada como morte encefálica. Os médicos ao recebê-la já falaram o que ela tinha e que não tinha volta. Ela ficou na UTI do dia 09/06 à 16/06/09, às 17h55min desse dia, ela faleceu”.


3 comentários:

Jéssica disse...

Uma notícia, como tantas outras. Aos olhos de muitos uma tragédia, outros, só MAIS uma tragédia.
A indignação toma frente.
Enquanto isso, nosso governador (excelência)- caçado pela Justiça Eleitoral de Rondônia-, continua indiferente a situação da saúde.
O hospital João Paulo mais parece um formigueiro. Pessoas lançadas nos corredores, gente esperando atendimento há dias, um caos notório.
Sem esquecer a violência (isso seria violento), que está, assustadoramente, se alastrando. Depois de três ônibus queimados, ainda não se tomou nenhuma decisão ou se viu nenhuma atitude pra conter o problema e acalmar a população.
O que se espera disso? Quais as providências tomadas?
Mas não. Isso não tem problema nenhum, afinal, não é só em Rondônia que as pessoas são medicadas antes de serem examinadas; Não é só em Rondônia que tragédias acontecem todos os dias; não é só em Rondônia que tem descaso publico; não é só em Rondônia que tocam fogo em ônibus; não é só em Rondônia que o governo(ador) prefere dar atenção a belas e gordas cabeças brancas num pasto, ao invés de gente...
Enquanto isso, sentem suas bundas em seus aconchegantes sofás, liguem a TV e assistam a tragédia dos outros, pq a nossa parece ser indiferente.
Jéssica de souza

Francisco Campos disse...

Diz o dito popular: "depois da casa arrombada, é que o dono acorda". O problema da saúde no Estado é antigo, mas quem é esclarecido costuma ter plano de saúde. Os "bacanas" não frequentam hospitais públicos. Essa tragédia é comum aos mais carentes, aos mais sofridos. Todos os dias histórias similares à narrada pela mãe acima acontecem no JPII. O Estado é omisso? Sim. Mas o povo também não diz muita coisa...

psycho disse...

Cada historia tem seu lado,mostrando o fato de o serviço de saude publica ser ruin, alem de dizer que a populaçao nao faz nada e querer colocar aqueles que tem plano de saude como ''bacanas'' sao pontos de vista porem esqueçem que pessoas só realmente veem a hora de se indignar quando ocorre com si,exemplo essa narraçao,alem de nao é todo ''bacana'' que paga plano de saude,é uma coisa basica para quem pode pagar e que muitos nao priorizao e por isso acabam deixando de lado ate que tragedias aconteçam,culpados sempre é mais facil culpar aquele que estar sentado parado,depois de tantos insultos a argentinos nao damos valor a algo que eles fazem, se o governo nao os agradao eles vao a luta, enquanto o povo brasileiro só sabe ficar escrevendo e falando que está revoltado, talvez nao seria revoltado e sim assustado porque nao há logica se dizer revoltado sendo que nao se sai do lugar para fazer nada.