quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Chile ensina futebol ao Brasil



Chile ensina futebol ao Brasil

Professor Nazareno*

         
             Depois de tantas notícias ruins no nosso país, no Estado e na nossa cidade, eis que finalmente a nação se vê diante de um dos melhores acontecimentos esportivos dos últimos tempos. O Brasil perdeu para o Chile por 2 X 0 jogando pelas eliminatórias para a próxima Copa do Mundo de Futebol de 2018 na Rússia. A partida de estreia da outrora imbatível seleção canarinho mostrou ao mundo o que os tolos torcedores brasileiros não querem admitir: até no futebol o nosso país virou chacota internacional. O Brasil não é mais o país do futebol como se apregoava infantilmente mundo afora. O Chile jogou do começo ao fim da partida mostrando um excelente volume de jogo e um domínio incondicional das ações. Podia ter sido de 7 X 0 ou mais, mas parece que os andinos tiveram pena dos frouxos e fracos atletas verde-amarelos e “pisaram no freio”.
            Os mais fanáticos podem até dizer que o Brasil perdeu porque jogou sem Neymar e que os chilenos são muito bons, pois foram os últimos campeões da Copa América. Só que naquele torneio, a nossa seleção, como nesta partida, não mostrou nenhum futebol, teve dificuldades de vencer até a fraca Venezuela e foi eliminada pelos medianos paraguaios muito antes das semifinais. A verdade é que depois da humilhação frente à Alemanha por 7 X 1 pela Copa do Mundo no Brasil, a nossa seleção perdeu completamente o rumo e não sabe mais jogar futebol. A vergonha é tanta no futebol brasileiro que o lateral direito Rafinha do Bayern de Munique, convocado por Dunga para a nossa seleção, pediu dispensa e disse que agora quer defender a Alemanha, país onde joga há mais de dez anos. Outros jogadores nossos também já querem imitá-lo.
            Vergonhosamente o Brasil amarga a lanterna nas eliminatórias sul-americanas ao lado de Peru e Bolívia. Os tolos ainda podem dizer que estamos apenas no início do torneio e, claro, há inúmeras chances e muito tempo ainda para uma recuperação. “É apenas a primeira rodada e o time canarinho vai deslanchar”. Tenho dúvidas, pois os próximos adversários são em tese muito mais fortes do que o Chile. A Colômbia é uma pedreira intransponível com o bom futebol de Falcao Garcia e de James Rodríguez, artilheiro da última Copa. Tem o forte Equador, que bateu a Argentina em Buenos Aires também por 2 x 0, a altitude da Bolívia e o forte time do Uruguai. Isso sem falar no Paraguai e no Peru que podem dar canseira em qualquer seleção fraca como a brasileira. Até a Venezuela nos mete medo. Nossos jogadores quase não falam mais em Português.
            Jogando este futebolzinho de quinta categoria, o Brasil não vai se classificar para a Copa da Rússia de maneira alguma. E temos que contar com esta real possibilidade, pois a cada partida a “ficha cai” e mostra que nem no futebol mandamos mais. E isto seria muito bom, pois evitaríamos vergonhas maiores jogando contra as potências europeias, onde existe um futebol de primeira. Somos uma nação de corruptos, nossos governantes são os mais ladrões, ambiciosos e incompetentes do mundo, perdemos a credibilidade na economia e fomos rebaixados, nosso sistema de educação é um dos piores do planeta, nunca ganhamos um Prêmio Nobel ou um Oscar e nunca nos destacamos em nada além das nossas fronteiras. Então é mais do que justo perdermos a primazia no futebol. Quem sabe assim tomamos vergonha na cara e nos preocuparemos com coisas que realmente valham a pena? O que esperar de uma pobre nação de Jecas?



*É Professor em Porto Velho.

Greves não me incomodam



Greves não me incomodam

Professor Nazareno*

            Ouvi dizer que os ônibus urbanos de Porto Velho estão parados já há uns três ou quatro dias. Nem percebi, pois não gosto de me meter em movimentos grevistas que quase sempre terminam em bagunças e que envolvem, na maioria das vezes, pessoas desocupadas e radicais. Não posso e nem devo me preocupar com estas “coisas menores”, pois tenho três carros que uso diariamente para o meu transporte e o da minha família. Nunca entendi por que vários veículos ficam parados e seus proprietários não querem atender à população que deles precisa. Sou funcionário público e sempre cheguei na hora certa ao meu trabalho. As pessoas insistem em arranjar empregos longe de suas casas e por isso sofrem quando acontecem estes incômodos. Claro que isso é de propósito e também para dar uma desculpa para se atrasar em seus locais de trabalho.
            Porto Velho não precisa muito de transportes coletivos. Com aproximadamente 500 mil habitantes, é uma cidade plana quase sem ladeiras íngremes. As pessoas deviam caminhar diariamente apreciando de graça as belas paisagens, economizando dinheiro e contribuindo dessa forma para uma vida mais saudável. O sol não incomoda e quase não é percebido, pois as muitas árvores nas ruas e avenidas dão a impressão de estarmos sempre na sombra. Era para todo mundo da capital comprar carros ou motos para a sua locomoção. Se isso acontecesse, nossa mobilidade urbana seria muito melhor. Por isso, entende-se que a falta de consciência da maioria dos nossos habitantes é um dos nossos maiores problemas. Com uma semana sem ônibus, a vida caminha normalmente sem nenhum contratempo mais sério e dá gosto ver as pessoas alegres e felizes caminhando.
            Além do mais, o prefeito Mauro Nazif, agindo como um verdadeiro estadista, já providenciou transporte gratuito para todos. A Câmara Municipal da cidade, o vice-prefeito Dalton di Franco, todos os vereadores e demais autoridades do município, preocupados com o possível sofrimento da população, não mediram esforços para socorrer a todos que precisarem do Poder Público. Até o Governo do Estado, o Poder Judiciário e a Assembleia Legislativa estão a postos para ajudar os mais necessitados. A falta de ônibus na capital dos “destemidos pioneiros” mobilizou toda a sociedade civil organizada numa corrente cívica e patriótica. OAB, Maçonaria, Igrejas evangélicas, quartéis das Forças Armadas, escolas públicas e particulares, entidades de classe e até cidadãos comuns, todos juntos num objetivo único: ajudar, sem restrições, o próximo.
            Por isso eu não me preocupo com nenhuma greve. Elas são boas, pois unem as pessoas. Se houver esses movimentos absurdos nas escolas, por exemplo, eu nem me mexo. Meus filhos estudam num ótimo colégio particular da cidade. Educação pública é para os mais necessitados e é normal que uma vez ou outra os professores queiram um pouquinho de aumento em seus já altos salários. Greve na Polícia? Eu moro num excelente e seguro condomínio fechado e tenho até seguranças particulares para garantir a minha proteção e a da minha família. Já que estou protegido por todos os lados, por que me preocupar com a angústia e o sofrimento alheios? Dos pobres e necessitados, o Estado e o Poder Público cuidam. A minha única preocupação é com o preço da cerveja, claro. E por falar em comemorações, o jogo do Brasil hoje contra o Chile vai ser demais. Viva o Brasil! Viva Rondônia! Viva Porto Velho! Viva os nossos políticos!




*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O diabo ri: Porto Velho parou



O diabo ri: Porto Velho parou
Professor Nazareno*

Quando outro dia eu disse que o Satanás era protetor de Porto Velho, a chiadeira foi geral. Muita gente apenas fingiu não acreditar neste fato totalmente inusitado. Porém, como não entender que isto seja verdade numa cidade em que dia após dia acontecem coisas inimagináveis? O Capeta é assim mesmo, precisamos nos conformar: quando ele mexe nos seus arquivos, a coisa sempre piora para a cidade que ele protege. Além da tradicional e já costumeira falta de mínima infraestrutura urbana de que uma cidade moderna necessita, a “currutela amaldiçoada” viveu recentemente vários apagões medonhos sem nenhuma explicação. Desta vez, no entanto, é uma greve geral no já precário sistema de transporte coletivo da cidade. Não é uma paralisação propriamente dita. É como um locaute, quando os patrões param as suas atividades.
O pior é que numa cidade de meio milhão de habitantes e capital de um Estado, ninguém sabe explicar o motivo do caos. Nenhum dos 21 vereadores, muito menos o Prefeito e seus assessores ou qualquer outra autoridade municipal ou estadual até agora  deram satisfações à população sobre a atual barafunda. Bem ou mal, Porto Velho tinha algumas empresas de ônibus urbanos que faziam, a duras penas, o transporte da população mais carente. Numa briga com a atual administração da cidade, parece que perderam a concessão. Dizem que foi feita uma nova licitação para explorar o sistema, mas a empresa ganhadora “caiu fora” e a população usuária ficou à mercê da própria sorte. Nem as empresas velhas e muito menos a nova. Alguns taxistas, mototaxistas, donos de vans e outros tipos de transporte estão fazendo a festa em cima dos miseráveis.
Porto Velho não tem prefeito, é o que parece. O que já era muito ruim conseguiu piorar. E os mais prejudicados nesta queda de braço são, claro, os mais necessitados. Os pobres, que só são lembrados em época de eleições, estão comendo “o pão que o diabo amassou” para conseguir chegar ao trabalho ou às escolas. Aqui deve ser a terra do Capiroto. Um lugar amaldiçoado que nunca terá dias felizes. Nada funciona, nada presta, nada dá certo, nada tem futuro. Quem deveria resolver a confusão, anda de carro luxuoso e não enfrenta a desgraça, a penúria. A ironia é tanta que até um Deputado Federal daqui disse recentemente em Brasília que andava de ônibus em Rondônia. Gostaria de vê-lo dentro de um Interbairros ou de um Hospital de Base. Melhor ainda: que tal um Vereador da capital ou um Deputado Estadual numa parada no sol quente?
Devemos torcer pelo dia em que o Inferno vai, enfim, mandar um representante seu para administrar “a capital das sentinelas avançadas”. Lúcifer, Cramunhão, Diabo, Saci, Perneta, Coisa Ruim, Cão, Anjo Mau, Demônio, Pé Rachado, Fedorento, qualquer um serve, pois de humanos nos administrando estamos fartos, já que quando o sujeito não é corrupto ou ladrão é incompetente. O Anjo das Trevas não teria dificuldade nenhuma para administrar a capital dos rondonienses e nem nela morar. A cidade já fede naturalmente a enxofre podre e o calor sempre foi dos infernos mesmo. Mas se tivéssemos entre nós uma Rosa Parks, a situação dos transportes coletivos não seria dessa forma. A cidade que nunca teve saneamento básico, água tratada e esteve no escuro, agora está sem transportes coletivos e com a população carente no sofrimento. No meio da fumaça e da poeira e a pé, agora só falta mesmo a esperada chuva de merda.




*É Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Prostituta velha e abandonada




Prostituta velha e abandonada

Professor Nazareno*

            “Sou uma velha rapariga com 101 anos. Nasci no dia 02 de outubro de 1914 e meu destino sempre foi o sofrimento e a agonia. Explorada por todos, vim por acaso ao mundo. Dizem abertamente que o meu nascimento foi no lugar errado e distante pelo menos sete quilômetros de onde deveria ter sido. Ninguém sabe o porquê do meu nome. Não tenho História definida e a minha existência foi só para agradar e servir aos interesses alheios. Praticamente não tenho nenhum filho ilustre, embora muitos digam hipocritamente que são meus filhos de coração, mas quando me abandonam nunca mais me procuram, adotam outras mães mais acolhedoras. Muito nova para uns, e por isso sem estrutura nenhuma e velha demais e totalmente acabada para outros, sigo a minha triste rotina de dor e abandono. A cada ano que passa a minha decadência só aumenta.”
            “Parece até uma praga, um tipo de castigo eterno. Todos os lugares do mundo se desenvolvem e ficam melhores e mais bonitos à medida que o tempo passa. São muitas as conhecidas minhas, que muito mais novas do que eu são mais bem cuidadas. Nunca entendi por que fazem isto comigo. Há trinta ou quarenta anos eu era muito mais moderna e mais aconchegante do que hoje. Não tenho árvores, não tenho flores, não tenho praças, não tenho áreas verdes, não tenho recantos de lazer. Lixo, ratos, urubus e sujeira fazem parte da minha imunda paisagem. Água contaminada de esgotos podres lava minhas ruas e exalam a podridão. Minha pouca cobertura vegetal desaparece com o tempo. O calor infernal é rotina. No verão, fumaça e poeira invadem meu já dilacerado organismo e contaminam tudo. No inverno, são as alagações que me atormentam.”
            “Sou violentada, espezinhada e estuprada cotidianamente e ainda sou obrigada a pagar o preservativo. E ninguém tem dó de mim. Lei Maria da Penha nem nenhuma outra lei existem para me defender. O Poder Público parece compactuar com a minha desgraça. Minhas veias estão entupidas e meu corpo sangra sem piedade. Sou depósito de lixo e de outras imundícies. Minhas ruas e avenidas são sujas, esburacadas e enlameadas. Perdi meus poucos igarapés, que foram transformados em esgotos imundos e fedorentos. Coalharam as minhas ruas com obras infames e imprestáveis: é ponte escura, é Espaço Alternativo abandonado, são viadutos inacabados. Nada tenho de belo que me identifique. O rio Madeira, meu amigo e companheiro, foi igualmente estuprado e sangra como eu. A bela floresta amazônica, que me rodeia, chora e sofre igual a mim.”
            “Não entendo por que tantas pessoas brigam entre si para tomar conta do meu destino. Não entendo por que os que se dizem meus filhos permitem tamanha injustiça. Por que minhas crias nunca quiseram tomar conta de mim e sempre me entregaram de mão beijada para os forasteiros? É por que têm desejo de ver o meu sofrimento e a minha angústia? Qual o porquê de tanta ambição? Já enriqueci muita gente e ninguém nunca me administrou corretamente. É cada prefeito pior que o outro. Chegam, exploram-me à vontade e vão embora. Será que sou um puteiro amaldiçoado? Nunca tive qualidade de vida. Vejam a situação da minha rodoviária. Ninguém me visita, pois as passagens são as mais caras do Brasil. Até a empresa licitada para melhorar a minha mobilidade urbana desistiu de mim. Por que estou desse jeito? Por que não mudam o meu nome e não me tiram a condição de capital? Até quando serei a latrina do Brasil?”




*É Professor em Porto Velho.