Eu
tenho medo de ficar rico!
Professor
Nazareno*
As
poucas pessoas que me conhecem sabem que eu não sou um sujeito rico. Nunca
fui e nem sou. Professor aposentado do ex-território de Rondônia, vivo
hoje, junto com a minha esposa, da minha humilde aposentadoria. Por questões
familiares, estamos residindo atualmente em São Paulo, capital, onde ver
pessoas ricas e milionárias é uma rotina. Não vejo a hora de voltar para a suja
e imunda Porto Velho, onde pessoas humildes, pobres e lascadas é o que se veem
todos os dias andando pelas ruas sem esgotos da cidade. Em Rondônia existem
praticamente só três classes sociais bem definidas: pobres, mais
pobres e miseráveis. Nunca vi um milionário ou uma pessoa
abastada andando de bobeira aqui. Sou pobre, mas talvez um pobre premium,
pois nunca dependi de programas sociais, tenho casa própria, carro e sempre que
posso viajo para o exterior.
Como
eu sou um sujeito simples, sempre me preocupei com aquelas pessoas menos
favorecidas. Sei muito bem o que é a fome e a necessidade. Entendo, por isso,
que o Estado devia sempre dar uma contrapartida social para esses indivíduos mais
carentes. Mas não receber nada em troca como apoio político. Mas se eu fosse
rico e abastado, não teria esse pensamento “meio comunista”.
Dizem que eu sou de esquerda por pensar desse jeito. Não concordo! Sempre me
considerei humano. Só isso. Como um empresário rico e famoso nem em Porto Velho
eu moraria. A eterna “capital de Roraima” não combina com a
riqueza e nem com o luxo, percebe-se. Talvez eu morasse em Genebra, Paris ou
Milão. Como um milionário eu não queria estar me encontrando diariamente com
pobres e miseráveis. Não andava de carro velho meia-boca. Eu me deslocava
só de helicóptero.
Na
política, eu não queria saber de partidos de esquerda. Só se estivessem no
poder. Aí eu compraria todo mundo. Será que esses partidos são
venais? Do presidente da república até a maioria dos seus ministros, eu teria o
número do telefone de todos eles. O STF seria quase todo comprado com favores
ou mesmo com dólares e muitas outras regalias. Eu rico, ministros do STF ou da
Presidência da República só viajavam de jatinhos emprestados por mim e pela
minha holding. Como são 11 ministros na Suprema Corte, bastava eu comprar seis
e assim estar sempre com a maioria em casos de votação. Com muito dinheiro, eu
faria de tudo para somente os partidos de direita e de extrema-direita
governarem o país, os estados e as cidades mais importantes. Haveria partido de
esquerda, mas todos deviam primeiro obediência a mim e aos meus amigos
empresários.
O
presidente do Banco Central e o Ministro da Fazenda seriam, óbvio, todos eles indicados
por mim. Eu mandaria alugar putas e cafetinas somente
no exterior para divertir a todos os políticos, os religiosos e aos poderosos
em geral. Inclusive algumas autoridades do próprio Judiciário. A mídia seria
toda comprada. Eu sendo rico e poderoso, logo subornava todos os grandes sites
de informação e também as emissoras de rádio e de televisão. É certo que eu
seria totalmente favorável à democracia, mas a minha democracia, claro.
A Educação no país não seria modificada em nada: ela já cumpre os seus
objetivos de forma muito competente: não ensina nada a ninguém.
Com muito dinheiro e fama, eu incentivaria a criação de cassinos por todo o
país e as religiões não mais cobrariam dízimo. O Congresso Nacional teria uns
90% dos políticos comprados. E eu nunca seria candidato. Comandava tudo “de
fora”. Mas como sou pobre, só observo!
*Foi Professor em Porto
Velho.
