sábado, 3 de outubro de 2026

Eu tenho medo de ficar rico!

Eu tenho medo de ficar rico!

 

Professor Nazareno*

 

            As poucas pessoas que me conhecem sabem que eu não sou um sujeito rico. Nunca fui e nem sou. Professor aposentado do ex-território de Rondônia, vivo hoje, junto com a minha esposa, da minha humilde aposentadoria. Por questões familiares, estamos residindo atualmente em São Paulo, capital, onde ver pessoas ricas e milionárias é uma rotina. Não vejo a hora de voltar para a suja e imunda Porto Velho, onde pessoas humildes, pobres e lascadas é o que se veem todos os dias andando pelas ruas sem esgotos da cidade. Em Rondônia existem praticamente só três classes sociais bem definidas: pobres, mais pobres e miseráveis. Nunca vi um milionário ou uma pessoa abastada andando de bobeira aqui. Sou pobre, mas talvez um pobre premium, pois nunca dependi de programas sociais, tenho casa própria, carro e sempre que posso viajo para o exterior.

            Como eu sou um sujeito simples, sempre me preocupei com aquelas pessoas menos favorecidas. Sei muito bem o que é a fome e a necessidade. Entendo, por isso, que o Estado devia sempre dar uma contrapartida social para esses indivíduos mais carentes. Mas não receber nada em troca como apoio político. Mas se eu fosse rico e abastado, não teria esse pensamento “meio comunista”. Dizem que eu sou de esquerda por pensar desse jeito. Não concordo! Sempre me considerei humano. Só isso. Como um empresário rico e famoso nem em Porto Velho eu moraria. A eterna “capital de Roraima” não combina com a riqueza e nem com o luxo, percebe-se. Talvez eu morasse em Genebra, Paris ou Milão. Como um milionário eu não queria estar me encontrando diariamente com pobres e miseráveis. Não andava de carro velho meia-boca. Eu me deslocava só de helicóptero.

            Na política, eu não queria saber de partidos de esquerda. Só se estivessem no poder. Aí eu compraria todo mundo. Será que esses partidos são venais? Do presidente da república até a maioria dos seus ministros, eu teria o número do telefone de todos eles. O STF seria quase todo comprado com favores ou mesmo com dólares e muitas outras regalias. Eu rico, ministros do STF ou da Presidência da República só viajavam de jatinhos emprestados por mim e pela minha holding. Como são 11 ministros na Suprema Corte, bastava eu comprar seis e assim estar sempre com a maioria em casos de votação. Com muito dinheiro, eu faria de tudo para somente os partidos de direita e de extrema-direita governarem o país, os estados e as cidades mais importantes. Haveria partido de esquerda, mas todos deviam primeiro obediência a mim e aos meus amigos empresários.

            O presidente do Banco Central e o Ministro da Fazenda seriam, óbvio, todos eles indicados por mim. Eu mandaria alugar putas e cafetinas somente no exterior para divertir a todos os políticos, os religiosos e aos poderosos em geral. Inclusive algumas autoridades do próprio Judiciário. A mídia seria toda comprada. Eu sendo rico e poderoso, logo subornava todos os grandes sites de informação e também as emissoras de rádio e de televisão. É certo que eu seria totalmente favorável à democracia, mas a minha democracia, claro. A Educação no país não seria modificada em nada: ela já cumpre os seus objetivos de forma muito competente: não ensina nada a ninguém. Com muito dinheiro e fama, eu incentivaria a criação de cassinos por todo o país e as religiões não mais cobrariam dízimo. O Congresso Nacional teria uns 90% dos políticos comprados. E eu nunca seria candidato. Comandava tudo “de fora”. Mas como sou pobre, só observo!

 

 


*Foi Professor em Porto Velho.