quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Bairro São João em Calama/RO


Bairro São João em Calama/RO


Professor Nazareno*

           
           Falar sobre o bairro São João de Calama/RO, a “Veneza esquecida do Madeira”, é falar sobre a própria vila. Distrito mais antigo de Porto Velho, a capital de Rondônia, a vilazinha remonta aos idos do antigo Primeiro Ciclo da Borracha ainda no século dezenove. Situada estrategicamente entre três rios, o Madeira, o Machado e o Maici e a floresta amazônica, tem seu nome provavelmente ligado às “palmeiras calamenses” que são abundantes na região. Outros dizem que o nome da vila se refere às iniciais de uma companhia de látex, a Companhia de Látex do Madeira, de Ji-Paraná. De qualquer forma, Calama é um desses paraísos ainda não descobertos da Amazônia Ocidental. Tem seu povo constituído na maioria por pessoas simples e humildes, gente boa como pescadores, agricultores, funcionários públicos e ainda alguns descendentes dos índios Parintintins.
            O bairro São João é o núcleo principal da vilazinha. É onde se situa a igreja de São João, padroeiro do lugar. E é a própria história de Calama. De frente para o imponente rio Madeira, a meia distância entre o rio Machado e o paradisíaco rio Maici, o bairro é o retrato mais perfeito da comunidade. Por displicência das autoridades, perdeu recentemente o casarão histórico que adornava o barranco agressivo. Hoje a vila corre o risco de desaparecer sob as águas caudalosas do rio que lhe banha. O barranco avança sem piedade, mas seus moradores são heróis esquecidos que não arredam pé dali e sem recursos, lutam como bravos guerreiros para manter tudo aquilo preservado. Mas a vila não pode desaparecer, jamais. O bairro São João assim como a vila inteira têm muitas histórias. Seus moradores, suas pontes, seus personagens deixaram marcas indeléveis e inesquecíveis.
O fim de Calama, entretanto, seria o fim de uma época. O começo da História de Rondônia está testemunhado naquelas barrancas, outrora repletas de “pelas” de borracha e outros produtos amazônicos e hoje essas mesmas barrancas estão quase esquecidas pelo poder público. Os velhos casarões do Segundo Ciclo da Borracha e hoje caindo literalmente aos pedaços dão pena a quem os observa. A construção das hidrelétricas no Madeira também não trouxe boas notícias para aquele povo ribeirinho: entre Porto Velho e o distrito de São Carlos em breve ficarão bem pior as condições para a navegabilidade. Dificuldades aumentarão e pode demorar ainda mais a viagem de barco até a capital. Por conta do “estupro” sistemático do rio Madeira, a oferta de peixes e outros produtos diminui a cada ano e não se veem medidas efetivas de compensação para a população carente.
            Impossível não se lembrar da Calama do Senhor Benjamim Silva, o “médico” da região. De Alfredo Teles, um grande batalhador dos ribeirinhos e administrador do distrito.  Do professor Goldsmith Correa Gomes, que poderia ser o nome da escola. Do comerciante Joaquim Pires, da Dona Mercedes, do Chico Prestes, do Ivo Santana, do Santa Bárbara, do Pedro Silva, dos Botelhos, dos Pantojas, do Torquato, do Caíco, do Caboclinho Neves, do Balbino, do Sr. ZUI, do Padre Vitório e de tantos outros heróis lembrados pelos moradores. Como esquecer o bom futebol de Calama que já exportou craques até para a Europa? O clássico local Remo X Ponte Preta que já não existe mais? O São Francisco e tantos outros bons times? O peixe com farinha, a carne de caça, o encontro das águas, o fenômeno das terras caídas, as enchentes e as muitas pessoas que se perderam em suas traiçoeiras matas?
A secular Calama é assim mesmo: combina o velho com o novo sem perder o seu charme, o seu encanto. Luta para ter internet de qualidade. Resiste a toda forma de agressão e não se deslumbra com o moderno. Suas duas pousadas: a do Domingos e a do Abelha refletem a tranquilidade local. Mãe de toda a Rondônia e de partes do sul do Amazonas, a pacata vilazinha observa atentamente, como uma verdadeira matriarca que é, o desenvolvimento dos filhos e pede para viver confortavelmente no seu anonimato para que possa ter mais alguns anos de vida. Existe progresso melhor do que ter uma vida pacata? Mas a violência, as drogas, a pressa, e as mazelas de um mundo dito desenvolvido e civilizado já insistem em dar as caras por lá, infelizmente. Porém a vila e o seu bairro São João resistirão bravamente a tudo. Prova disso foi a heroica resistência à enchente histórica de 2014. Ela não assusta com nada. Prossegue sua vida mostrando bravura ao mundo.




*É Professor em Porto Velho.

2 comentários:

Anônimo disse...

Belo texto,
Essa modernidade ta acabando com o povo ribeirinho, principalmente essas usinas que estão acelerando esses processo, pobre povo sofrido esquecido pelas autoridades que nos governam.

marto marcolino disse...

Parabéns Professor (ZAL) um belo texto, escreva um desses para a nossa querida Aracagi-PB