quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Uniformes disformes


Uniformes disformes


Professor Nazareno*


O Brasil tem um dos piores sistemas de educação do mundo. Ficamos sempre nos últimos lugares quando somos comparados a outros países. Finlândia, Coreia do Sul, Alemanha e Japão dão de goleada em nós quando o assunto é educação de qualidade. Há mais de quarenta anos, no entanto, que eu trabalho na área da educação e neste tempo frequentei muitas escolas. Estaduais, municipais e também particulares. Em todas elas o sistema é precaríssimo em todos os sentidos. Nunca houve turno integral de ensino em nenhuma delas e as deficiências sempre foram enormes. Professores mal pagos, despreparados, desmotivados, sem a menor autoestima e quase todos sempre reclamando da profissão escolhida é uma triste rotina verificada em nossos precários estabelecimentos de ensino. Porém em todas elas os alunos usam o uniforme escolar.
Resquício ainda da tenebrosa época da ditadura militar e da atual mentalidade golpista reinante em nossa sociedade, o fardamento se revela por si só como uma farsa absurda. Marcam-se os alunos na falsa ilusão de que está se contribuindo para a organização didático-pedagógica dentro das escolas. Engano. A organização de uma escola se dá pela qualidade dos profissionais envolvidos no processo educativo e nunca, jamais pela cor da roupa que os estudantes usam para frequentá-la. É importante salientar também que o nível dos alunos, sua vontade de aprender coisas novas e trocar informações explorando ao máximo a relação entre educador e educando podem contribuir para melhorar o fraco nível verificado nesses ambientes. Fardamento só serve para iludir os tolos e fazer propaganda gratuita no caso das escolas particulares.
Além do mais, as desnecessárias fardas impulsionam uma verdadeira indústria, que se aproveita do fato. Só em Rondônia, por exemplo, são mais de 220 mil alunos apenas no Ensino Médio. Com a clientela do Ensino Fundamental essa soma mais do que duplica. E os números são alarmantes: segundo o MEC, o Brasil possuía em 2015 quase 38 milhões de alunos matriculados. Este ano de 2017 são quase 40 milhões de pessoas que são obrigadas na maioria das vezes a usar uma ridícula peça de tecido para poder aprender algo. Já vi em muitas ocasiões alunos sem a farda serem impedidos de assistir aulas. Barrados, podem perder o interesse pela escola e assim comprometer o seu futuro. É balela também afirmar que essa roupa dá mais segurança ao jovem identificando-o mais facilmente. Quem afirma isso não conhece a utilidade dos crachás.
É tolice também achar que a roupa iguala os meninos. Mas igualar para quê? Não moramos em uma sociedade socialista. E basta olhar para cada um deles para se perceber que não são iguais em nada. Até na maneira de aprender algo eles possuem as suas diferenças. Usar farda é um retrocesso, uma estupidez, uma ignorância. Escola não é quartel muito menos seminário religioso. Um lugar onde se debatem ideias e conceitos já devia ter abolido a obrigatoriedade do fardamento. Pior: a autoestima de muitos fica lá embaixo quando têm que usar roupas ridículas, toscas, cafonas, fora da sua realidade. A organização de uma escola se dá pelos resultados obtidos e nunca por causa da cor da calcinha ou da cueca de quem quer estudar. E mudanças não haverá tão cedo. Se nossa escola não evoluir como nos países civilizados daqui a pouco os alunos serão obrigados a prestar continência aos “superiores” e a cantar o feio Hino Nacional todos os dias.





*É Professor em Porto Velho.

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