sábado, 14 de maio de 2016

Temer, amigo de Rondônia e do Brasil



Temer, amigo de Rondônia e do Brasil

Professor Nazareno*

            O Brasil já tem um novo governo, graças a Deus! Novo, diferente, melhor, muito mais dinâmico e arrojado. De agora em diante, a nação tupiniquim será transformada num paraíso com lindas borboletas azuis e coelhinhos saltitantes. Todo mundo anda rindo à toa. A cara de felicidade das pessoas é algo indisfarçável. Já fazia certo tempo que este ineditismo não acontecia em toda a nossa História. Um governo legítimo, popular, íntegro, democrático e acima de tudo “preocupado” com as reais aspirações dos que o elegeram e o levaram ao poder supremo do país. A mídia, toda imparcial, ri sem parar. A felicidade reina absoluta na maioria das redações de jornais, sites, revistas e emissoras de televisão. A briosa equipe que forma o governo da “Ordem e Progresso” não poderia ter sido tão bem escolhida para representar os agora felizes brasileiros.
            De norte a sul, de leste a oeste a cantilena que se ouve é a de pessoas de todas as cores partidárias, filosóficas e ideológicas tecerem loas elogiosas ao novo governo. A composição do Ministério é um primor. Só intelectuais e fichas limpas, homens probos e comprometidos com as aspirações dos mais necessitados. As mulheres, antes relegadas a jornadas exaustivas de trabalhos burocráticos e políticos, ganham enfim, o seu máximo reconhecimento. Como os “homens do presidente” são todos bons, resolveram poupar as pobres coitadas, que agora já podem descansar e se dedicarem às leves tarefas domésticas e à criação da prole. Recatadas e do lar, deixam agora para eles a dura tarefa de gerir a sociedade, de preferência aos brancos e ricos. Não é misoginia, é reconhecimento mesmo dos homens ao “verdadeiro papel da mulher” em nosso país.
            O governo Temer é tão bom que nem de Rondônia se esqueceu: extinguiu o Ministério da Cultura em homenagem ao nosso Estado. Como não há nem nunca houve cultura por aqui, ficamos todos honrados com esta justa lembrança. Por isso, cem por cento dos nossos representantes votaram pela saída da Dilma. Como no resto do país também não tem muita cultura, entende-se que esse “heroico ato” não foi vingança a nenhum artista como maldosamente disseram. E os negros do país? Igualmente foram poupados e agora serão representados, e muito bem, pelos brancos mandatários. Como nunca houve discriminação racial nem violência contra os afrodescendentes no Brasil, a medida foi também muito justa. Todas as minorias do país estão transbordando de tanta alegria: ninguém vai mais se preocupar com a política e as “coisas chatas” do Poder.
            Com o novo governo, só quem ganhará alguma coisa será a democracia, o povo brasileiro, o nordestino, o pobre, o negro, as mulheres e os LGBT. A corrupção, a ditadura, a hipocrisia, o preconceito, a xenofobia, o racismo, o machismo, a homofobia, e a misoginia estão com os dias contados. Personalidades como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Marco Feliciano, deputados da Bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) terão que se adaptar aos novos e bons tempos. O Brasil, agora sim, deu uma guinada de pelos menos 200 anos para frente em termos de conquistas sociais. Seremos a potência dos direitos humanos e vamos fazer inveja às nações civilizadas do Primeiro Mundo. Até acho que a  Constituição deveria ser imediatamente substituída pela Bíblia e pelos ensinamentos dos religiosos. Eu só não consigo entender como é que os brasileiros não perceberam todas essas benesses a tempo e conviveram durante longos 13 anos com trevas em nosso país.




*É Professor em Porto Velho (e já convertido aos novos tempos).

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brasil: “direita, volver!”



Brasil: “direita, volver!”

Professor Nazareno*

O Brasil tem exatos 516 anos de História. Neste período, foi governado pela direita reacionária e pelos conservadores durante 502 anos. Levando-se em conta o longo período colonial, o Brasil Império, passando pela República Velha, a Era Vargas, a redemocratização do pós-guerra, a Ditadura Militar e a Nova República, sempre quem ditou as regras do jogo foram os ricos e poderosos. Somente a partir de 2003, os setores mais progressistas, com a permissão dos “eternos donos do poder” conseguiram chegar ao Planalto. Entre a primeira eleição de um ex-metalúrgico e a destituição de Dilma Rousseff pelo atual “golpe parlamentar” urdido nas entranhas do Congresso Nacional foram ironicamente apenas 13 anos que a esquerda flertou com o poder, ainda assim de maneira compartilhada. Juntou-se aos reacionários para governar só com coligações.
A primeira presidente do país, reeleita com mais de 54 milhões de votos em 2014, sai definitivamente de cena junto com o seu corrupto partido. Foram quatro derrotas consecutivas dos direitistas e talvez o prenúncio de que, nas urnas e no voto, tão cedo os “coxinhas” chegariam ao poder absoluto no país. Com o sinal de alerta ligado, a elite nacional percebeu que a única maneira de derrotar o pensamento mais liberal que dominava o país seria, como em 1964, através da tomada pura e simples do trono. Como não havia clima para se colocar tanques e tropas nas ruas e levando-se em conta a conjuntura política internacional, que jamais permitiria uma virada de mesa radical, o “jeitinho” veio da forma mais natural possível: usando-se parlamentares, canetas, acordos, oportunismos, conchavos e traições. E a ideia foi de tudo dentro da lei.
Mas não se pode tapar o sol com a peneira: os petistas e seus asseclas roubaram como ninguém. Do Mensalão ao Petrolão, passando pelos viadutos de Porto Velho, “nunca na História deste país” se roubou tanto e com tanta tecnologia para dilapidar os cofres públicos como nos governos petistas. Qualquer cidadão brasileiro honesto e de bom senso, não teria apostado um único vintém furado no governo que saiu. Muito menos teria coragem de defender o PT ou qualquer um de seus integrantes. Porém, o novo governo, a famosa “ponte para o futuro” pode ser mais um engodo, uma farsa, outra lenga-lenga se levarmos em conta a lisura, a competência, a fidelidade e a honestidade de muitos de seus futuros integrantes. Com políticos como os do Brasil, governo nenhum será a “panaceia milagreira que fará jorrar mel e leite das ruas”.
Com uma mídia abjeta, nojenta, asquerosa, direitista, reacionária, interesseira e “lambe botas” como a brasileira, com uma elite escroque, com cidadãos despolitizados e gananciosos, com eleitores apáticos e estúpidos em sua maioria, não há muita coisa a se esperar desses futuros governantes. Se o interesse de todos eles fosse mesmo o Brasil e os brasileiros, teria havido reuniões exaustivas e acordos históricos para tentar resolver os nossos problemas, independente de cores partidárias e ideológicas. Novas eleições não adiantariam quase nada, pois elegeríamos os mesmos que aí estão nos representando e voltaríamos todos à estaca zero. A saída para o Brasil não é a direita, a esquerda ou o meio. É passar pela educação de qualidade, que nunca tivemos, pelo fim das injustiças sociais, pela distribuição de renda mais equânime, pelo trabalho para todos e pelo fim dos privilégios de uma minoria. Sem isso, só nos resta ter dó deste país.




*É Professor em Porto Velho.

domingo, 1 de maio de 2016

Nova onda conservadora



Nova onda conservadora


Professor Nazareno*



            A Guerra Fria já não existe mais. A briga ideológica entre Capitalistas e Comunistas praticamente virou fumaça no início dos anos 1990 com o fim da URSS e o “triunfo” do regime capitaneado pela livre iniciativa dominado pelos Estados Unidos e pelas potências ocidentais. No Brasil, que já vivia ares de plena democracia desde o fim da Ditadura Militar em 1985, os novos governos, depois do impeachment de Fernando Collor, buscaram com relativo sucesso implantar a política neoliberal: menos Estado e mais iniciativa privada. Fato este interrompido temporariamente com a eleição e reeleição do petista e “esquerdista” Luís Inácio Lula da Silva a partir de 2002 e também a eleição e reeleição de Dilma Rousseff do PT para sucedê-lo. Em 502 anos de história nunca este país tinha sido governado tanto tempo por setores mais progressistas.
            Porém, com a roubalheira do PT e a sua notória incompetência para governar o país, a Direita conservadora, após perder quatro eleições seguidas perdeu também a  paciência e resolveu aplicar “um golpe” usando desta vez o Congresso Nacional e os políticos direitistas. Antes, em 1964, usara os militares, que puseram os tanques nas ruas e iniciaram uma truculenta fase de 21 anos, que ficaram marcados na História com prisões, exílios, torturas, censura à mídia, perseguições e assassinatos de opositores. Sem perspectivas de chegar de maneira mais rápida ao poder pela via democrática do voto e de eleições livres, os reacionários repetem a História como farsa. Talvez inconformados com a partilha da pilhagem petista aos cofres públicos e com o ostracismo a que estavam sendo submetidos ultimamente, resolveram apressar as coisas.
            O Brasil vive hoje, infelizmente, uma nova onda conservadora. O Congresso Nacional, que está na iminência de derrubar em definitivo uma presidente eleita com mais de 54 milhões de votos, é quem dá as cartas no novo cenário político nacional. A Câmara dos Deputados, onde a maioria dos “nossos representantes” está enrolada até a alma em denúncias de corrupção e toda sorte de desmandos, ainda é presidida por Eduardo Cunha, que dispensa quaisquer comentários e que na prática será o vice-presidente da República com a saída da nossa presidente. Ali, criou-se um terreno fértil para as investidas dos setores mais reacionários do país como a bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia). E motivos não faltam para “temer” estes parlamentares. A adoção da pena de morte e a redução da maioridade penal, por exemplo, estão entre os seus vários projetos.
            Pior: a adoração pura e simples a deputados como Jair Bolsonaro, um dos muitos que votaram pelo impeachment da presidente Dilma, chega a meter medo nos setores mais liberais da nossa sociedade. Defensor de torturadores como Brilhante Ustra, ele tem demonstrado em suas falas posições que defendem a misoginia, o racismo, a homofobia, a xenofobia, o ódio e a intolerância pura e simples às minorias. E por tudo isso é aplaudido publicamente. Tem, segundo pesquisas recentes, cerca de dez por cento das intenções de voto dos eleitores brasileiros. Se o Senado não tirar a presidente nos próximos dias, setores da Direita o farão de qualquer jeito. E quase toda a mídia, com seu “jornalismo lambe-botas”, que sempre a caracterizou, dá o empurrão final. O Brasil, sétima economia do planeta, está numa encruzilhada terrível: ou deixa uma presidente leniente com ladrões e corruptos ou entrega o poder a reacionários também corruptos.



*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

...E o “frio” chegou mesmo



...E o “frio” chegou mesmo

Professor Nazareno*

            Frio em Porto Velho é uma coisa muita rara, todos sabemos. Tão raro quanto honestidade e decência na política local ou mesmo limpeza nas nossas imundas ruas. Mas desta vez os prognósticos acertaram em cheio a previsão do tempo. Havia uma semana que não se falava em outra coisa nas redes sociais. Um buraco quente sem eira nem beira, a “capital das sentinelas avançadas” foi, de uma hora para outra, sacudida por uma forte massa de ar polar que fez os termômetros despencaram para uns 25 graus centígrados, muito frio por estas bandas. Acostumados aos rotineiros 40 graus à sombra e uma infernal umidade relativa do ar, os portovelhenses riam à toa como se tivessem acertado a Mega Sena. “Será que vai nevar por aqui também?”. Era a cantilena que se ouvia dos desinformados e tolos cidadãos que nada conhecem de previsão do tempo.
            Friagem na Amazônia em abril é coisa muito difícil mesmo e sendo essa uma Massa Polar Atlântica de forte intensidade faz tudo se parecer com “coisas de outro planeta”. Mas a alegria é compreensível: é a única chance desta capital catinguenta, suja, quente e sem saneamento básico se parecer com uma verdadeira cidade do Primeiro Mundo ou do sul do Brasil, aquelas paradisíacas localidades cheias de flores onde faz frio de verdade no inverno e o clima é agradabilíssimo o resto do ano. No Japão e em alguns países da Europa, por exemplo, nesta época as floridas cerejeiras dão o ar da graça e com sua beleza e aroma característicos cativam os turistas. Aqui, só o Louro Bosta, árvore que espalha sua fedentina no ar empestando ainda mais o que já é fedido por natureza. Numa cidade inóspita onde só há lama e poeira o cenário é surreal.
            Nada mais irritante e chato do que ouvir pessoas fedidas comentando sobre as mudanças da natureza. A naftalina, o mofo e a catinga de barata impregnados em suas rotas e molambentas vestes faz qualquer cidadão engulhar. Matuto no frio é um dantesco e cruel espetáculo. Nem vinho e muito menos bruschettas são consumidos. Só mesmo rinite alérgica, dor de garganta, tosse e muita curuba. As madames da capital por enquanto não poderão comprar seus caros edredons para se exibirem falando da potência de seus aparelhos de ar condicionado. Muitos podem até pensar que isto é obra do PMDB e do novo governo que se avizinha em nosso país. A “ponte para o futuro” é uma coisa tão boa que até o tempo em Rondônia mudou para melhor. Durante a friagem muitos políticos inexplicavelmente recebem elogios. Hoje, quase todos seriam reeleitos.
            As obras do Espaço Alternativo serão retomadas, pasmem! A ponte escura do Madeira poderá ser iluminada e se dermos sorte, até os viadutos do PT serão concluídos. O “frio” em Porto Velho é como o impeachment: é rápido, popular e vem para mudar tudo. E não se sabe o porquê. Até a conhecida e badalada Banda Versace pode compor novas canções, afinal não é sempre que convivemos com temperaturas “tão baixas” como agora. Este inusitado tempo podia impulsionar o nosso inexistente turismo. Livre do calor sufocante e da alta umidade relativa do ar, que voltarão em breve, o problema é o vento soprando nos esgotos que correm a céu aberto. E se o clima de Rondônia fosse assim “sempre frio” como muitos querem? Difícil, pois tudo teria que mudar também. E como conseguiríamos conviver com políticos honestos, ar puro, flores, limpeza, arborização, saneamento, água tratada, educação e saúde de qualidade?




*É Professor em Porto Velho.