Professor Nazareno*
Havia uma cidadezinha perdida nos cafundós do judas. Era um rincão distante e incivilizado que tinha um delegado que se considerava a palmatória do mundo. Lei e Justiça quase não funcionavam naquele cu do mundo atrasado e subdesenvolvido. Tudo tinha que passar pelas mãos do prefeito e do delegado de polícia. Homens que se diziam íntegros, honestos, defensores da lei e da ordem, adeptos da ética e dos bons costumes, os dois funcionários públicos decidiam quem seria preso e quem seria absolvido naquelas redondezas. Os dois praticamente determinavam em quem os incultos e despolitizados eleitores dali deveriam votar em todas as eleições. O pastor e o padre da localidade não tinham muita influência sobre as suas ovelhas. Apenas chancelavam tudo o que os dois mandões determinavam para a multidão seguir. E todo mundo era feliz naquela tosca cidade.
No ermo lugar havia um pequeno banco que guardava todas as economias dos poucos habitantes. Dizem que o dono desse banco oferecia empréstimos e basicamente bancava todas as despesas de toda a população. Era também um sujeito honesto e probo até que se provasse o contrário. Esse banco oferecia, na poupança e em outros investimentos, altos lucros aos seus clientes. Dizem que nenhum outro banco das cidades vizinhas conseguia oferecer tamanho lucro. Só que o banco não tinha lastro suficiente para bancar tantas vantagens. Por isso, usava criminosamente os orçamentos daquela cidadezinha assim como, em conluio com o prefeito e com o delegado, usava também dinheiro que serviria para a aposentadoria de muita gente dali. Não deu outra: o banco faliu e o prejuízo foi divido entre todos os que tinham suas economias depositadas nele. O banqueiro de uma hora para outra passou a ser vilão, do mal.
O delegado era muito aclamado pela inculta e ignorante população, pois tempos atrás havia colocado na prisão todos os que tentaram, de forma desorganizada e orquestrada, derrubar o mandato do prefeito. Eles queriam que o seu candidato fosse declarado, na marra, o vencedor das últimas eleições. Conta-se que muitos arruaceiros semianalfabetos e delirantes invadiram a pequena cidade e depredaram a delegacia de polícia, a prefeitura e o fórum. O delegado não poupou ninguém. Ele mesmo julgou e condenou todos os “golpistas” que pôde pegar. Mas a oposição ao prefeito começou a “perseguir” o delegado tentando até destituí-lo do cargo. O problema maior é que naquele “Coité do Noca” atrasado todos os candidatos ao cargo de prefeito são corruptos e têm rabo preso com o banqueiro enrolado. A corrupção naquela cidade é de um nível Supremo. Os pobres vivem na miséria e no caos.
Ficou provado, no entanto, que o delegado também era corrupto e havia, há tempos, se envolvido em maracutaias com o dono do banco da cidade. Dizem até que o próprio delegado havia participado de vários roubos em outras cidades vizinhas. No fórum da cidade não havia um só juiz ou promotor que também não tivesse algum tipo de “negócios” naquele banco. A cidade estava dividida. Enquanto metade da população defendia os corruptos, a outra metade os condenava. A polarização fazia as pessoas brigarem pelos seus ídolos políticos. Não se sabe ainda quem vai ganhar as próximas eleições naquele insignificante lugar. Acredita-se que o vencedor, seja ele quem for, vai continuar roubando tudo que puder e o povo que o elegeu vai continuar feliz da vida e ainda defendendo o infrator. Nesta cidadezinha é assim mesmo: nunca, jamais, nenhum prefeito fez benefícios para o povo depois de eleito. Mesmo assim, todos eles são amados e endeusados naquele triste lugar.
*Foi Professor em Porto Velho.