quinta-feira, 3 de setembro de 2026

E o delegado também roubava

    E o delegado também roubava


Professor Nazareno*


Havia uma cidadezinha perdida nos cafundós do judas. Era um rincão distante e incivilizado que tinha um delegado que se considerava a palmatória do mundo. Lei e Justiça quase não funcionavam naquele cu do mundo atrasado e subdesenvolvido. Tudo tinha que passar pelas mãos do prefeito e do delegado de polícia. Homens que se diziam íntegros, honestos, defensores da lei e da ordem, adeptos da ética e dos bons costumes, os dois funcionários públicos decidiam quem seria preso e quem seria absolvido naquelas redondezas. Os dois praticamente determinavam em quem os incultos e despolitizados eleitores dali deveriam votar em todas as eleições. O pastor e o padre da localidade não tinham muita influência sobre as suas ovelhas. Apenas chancelavam tudo o que os dois mandões determinavam para a multidão seguir. E todo mundo era feliz naquela tosca cidade.

No ermo lugar havia um pequeno banco que guardava todas as economias dos poucos habitantes. Dizem que o dono desse banco oferecia empréstimos e basicamente bancava todas as despesas de toda a população. Era também um sujeito honesto e probo até que se provasse o contrário. Esse banco oferecia, na poupança e em outros investimentos, altos lucros aos seus clientes. Dizem que nenhum outro banco das cidades vizinhas conseguia oferecer tamanho lucro. Só que o banco não tinha lastro suficiente para bancar tantas vantagens. Por isso, usava criminosamente os orçamentos daquela cidadezinha assim como, em conluio com o prefeito e com o delegado, usava também dinheiro que serviria para a aposentadoria de muita gente dali. Não deu outra: o banco faliu e o prejuízo foi divido entre todos os que tinham suas economias depositadas nele. O banqueiro de uma hora para outra passou a ser vilão, do mal.

O delegado era muito aclamado pela inculta e ignorante população, pois tempos atrás havia colocado na prisão todos os que tentaram, de forma desorganizada e orquestrada, derrubar o mandato do prefeito. Eles queriam que o seu candidato fosse declarado, na marra, o vencedor das últimas eleições. Conta-se que muitos arruaceiros semianalfabetos e delirantes invadiram a pequena cidade e depredaram a delegacia de polícia, a prefeitura e o fórum. O delegado não poupou ninguém. Ele mesmo julgou e condenou todos os “golpistas” que pôde pegar. Mas a oposição ao prefeito começou a “perseguir” o delegado tentando até destituí-lo do cargo. O problema maior é que naquele Coité do Noca atrasado todos os candidatos ao cargo de prefeito são corruptos e têm rabo preso com o banqueiro enrolado. A corrupção naquela cidade é de um nível Supremo. Os pobres vivem na miséria e no caos. 

Ficou provado, no entanto, que o delegado também era corrupto e havia, há tempos, se envolvido em maracutaias com o dono do banco da cidade. Dizem até que o próprio delegado havia participado de vários roubos em outras cidades vizinhas. No fórum da cidade não havia um só juiz ou promotor que também não tivesse algum tipo denegóciosnaquele banco. A cidade estava dividida. Enquanto metade da população defendia os corruptos, a outra metade os condenava. A polarização fazia as pessoas brigarem pelos seus ídolos políticos. Não se sabe ainda quem vai ganhar as próximas eleições naquele insignificante lugar. Acredita-se que o vencedor, seja ele quem for, vai continuar roubando tudo que puder e o povo que o elegeu vai continuar feliz da vida e ainda defendendo o infrator. Nesta cidadezinha é assim mesmo: nunca, jamais, nenhum prefeito fez benefícios para o povo depois de eleito. Mesmo assim, todos eles são amados e endeusados naquele triste lugar.





*Foi Professor em Porto Velho.