Não
acredito: eu fui eleito!
Professor
Nazareno*
Eu
fui eleito nas últimas eleições do Brasil. Uma das maiores desgraças
que podia ter acontecido na minha vida. O mais surpreendente foi o número avassalador
de votos que recebi desta gentalha semianalfabeta e quase sem leitura de mundo.
O detalhe é que eu nem queria me candidatar, mas me convenceram de que a grana
do Fundo Eleitoral é muita alta e por isso, resolvi entrar, muito
a contragosto, na política. Imaginei que se fizesse uma campanha insossa, prometendo
o absurdo e defendendo ideias já ultrapassadas e monstruosas ninguém votaria em
mim. Teria, no máximo, uns cinco ou dez votos, colocava a grana bolso e só nas
próximas eleições apareceria de novo para pegar mais dinheiro fácil. Fiz alguns
discursos e dei só umas entrevistas nos sites e nos canais de televisão e
emissoras de rádio de minha família. Nada de aparecer em público.
Defendi
a matança de todos os índios, pois são selvagens que “não servem para nada”,
só para dar despesas à nação, já que eles nada produzem. Disse que a Amazônia
tinha que ser totalmente derrubada para dar lugar ao pasto e a outras
plantações. “Aquele mato imprestável não alimenta ninguém”.
Afirmei que lutaria pelo fim da licença-maternidade, que é um privilégio para
as mulheres, e que o feminicídio não devia existir em nossas
leis. Falei que a polícia tinha que matar todos os bandidos que encontrasse
pela frente. Um limpa na sociedade que trabalha. O Fundo Eleitoral
tinha que ser aumentado em 500 ou 600 por cento todo ano. Os políticos têm que
ser beneficiados, pois trabalham muito para sustentar a sociedade, que quer
viver de esmolas oficiais. A escala de trabalho 6 X 1 não poderia ter acabado. O
ideal seria uma escala 7 X 0 para esses preguiçosos.
Em BOLSONARÓPOLIS,
capital de Rondônia, afirmei que o progresso só virá depois que encherem o rio
Madeira de garimpeiros extraindo o ouro e outras riquezas. Mercúrio não
faz mal a ninguém. Na suja e fedorenta capital desse Estado nada de
fazer rede de esgotos e nem de saneamento básico. Beber água de merda
deve ser bom, pois há anos as pessoas bebem e nunca reclamaram de nada. Na
parte social, as autoridades devem fazer bolos com centenas de metros e trazer
cantores bregas para divertir as pessoas. Falei também que deveríamos expulsar
todos os pobres das cidades. A cidade é um lugar para ricos, o pobre enfeia
tudo por onde anda. No plano internacional, entendo que os eleitos deviam trazer
o Trump e outros norte-americanos para nos administrar. Daríamos a eles nossas terras
raras e deixaríamos que eles implantassem bases por aqui.
Em meus discursos
disse que casamentos entre pessoas do mesmo sexo é uma excrescência. Falei da importância
de se censurar algumas obras “que não servem para crianças”
e defendi a transformação de todas as escolas públicas em estabelecimentos
militares com disciplina de quartel. Atestei que os ricos desse país não
deveriam pagar mais impostos e tentei convencer a todos que a Petrobras, os
Correios, as estradas e todas as instituições púbicas deveriam ser
privatizadas. Falei da pouca importância do STF, que deveria ser fechado e
todos os seus ministros cassados e caçados. Devíamos também criar eleições
indiretas para Presidente da República e para governadores e o Legislativo
tinha que ser tutelado pelo Poder Executivo. Defendi tudo isso pensando
que os eleitores eram conscientes e assim não votariam em mim. Só que
quebrei a cara! Fui eleito com a maior votação da História. Para não ter votos, da próxima vez digo o que Cristo pregou.
*Foi Professor em Porto
Velho.






