Porto Velho devia ter metrô
Professor Nazareno*
A suja, imunda e mal administrada capital de Roraima tem pouco mais de 500 mil habitantes. É hoje a pior dentre as 27 capitais do país em IPS, Índice de Progresso Social, e segundo o Instituto Trata Brasil, a cidade não tem nenhuma qualidade de vida. Rede de esgotos e de saneamento básico, água tratada e de boa qualidade para todos os seus moradores, trânsito organizado e mobilidade urbana são coisas que nunca existiram por aqui. Na Europa, qualquer cidade de 300 ou 400 mil habitantes, ou com até menos moradores, tem tudo isso. Linhas regulares de metrô não seria só um mimo, uma conquista para os atuais habitantes, mas um pensamento para daqui a cinquenta, cem anos, quando, espera-se, a cidade possa ter se desenvolvido mais e a sua população possa ter triplicado. Hoje a cidade tem algumas poucas linhas de ônibus, velhas e obsoletas, que mal atendem aos seus cidadãos.
Se ter linhas de metrô funcionando possa ser entendido por muita gente como um luxo inalcançável, ter esgotos, saneamento básico e água tratada seria uma questão de saúde pública. Muitas pessoas teriam uma qualidade de vida infinitamente melhor, menos pessoas adoeceriam e praticamente todos os índices sociais da cidade melhorariam sensivelmente. Seria o máximo que as pessoas daqui nunca mais bebessem água de merda. Porto Velho tem, óbvio, a palavra porto no nome. Mas incrivelmente não tem um porto no rio Madeira. Já teve um, que fora doado pela Santo Antônio Energia, mas que quebrou, foi desativado e mandado para Manaus e até hoje, muito tempo depois, nunca mais retornou. Um porto rampeado melhoraria a situação dos habitantes ribeirinhos, que precisam vir à capital para resolver seus problemas sem ter que se arriscar num barranco sujo, íngreme e escorregadio.
Não deve custar muita coisa para uma capital ter um bom porto de passageiros, assim como não custaria muito dinheiro ter um bom hospital de pronto-socorro. Mas Porto Velho não tem uma coisa nem outra. O velho “açougue” João Paulo Segundo lá na zona sul da cidade existe desde a década de 1980 e até hoje já desafiou e continua desafiando inúmeros prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores e infinitos outros candidatos às eleições em toda campanha política. Sem nenhum acanhamento, as “futuras autoridades” prometem “Built to Suit” e divulgam “fotos” maquiadas de um novo hospital que mais se parecem com o Sírio Libanês ou o Albert Einstein de São Paulo. E a ignara plateia acredita em tudo e ainda aplaude efusivamente os seus candidatos e muitas vezes os elegem toda vez.
Contas de energia pelas alturas quando se tem várias usinas hidrelétricas em seu território é um acinte, uma exploração, uma maldição para um povo que pacificamente permitiu a destruição dos seus principais recursos naturais e nada teve em troca. Pedágio Free Flow numa BR que era da própria população é um roubo indescritível, um absurdo permitido pela mesma classe política, que hoje usa o bisonho fato para pedir votos. Que mal esse povo de Rondônia fez para merecer tamanho castigo? Por que algumas pessoas desse mesmo povo não podem viajar de avião, mesmo tendo dinheiro e disposição para isso? Porto Velho não tem metrô, não tem hospital de pronto-socorro, não tem porto rampeado, não tem BR sem pedágio, não tem rede de esgotos, não tem água tratada, mas tem 23 vereadores, um prefeito, um governador e ainda é representada por 3 senadores, 24 deputados estaduais e 8 deputados federais. O que esse povo de Rondônia fez tanto de ruim no passado?
*Foi Professor em Porto Velho.