Porto Velho do céu vermelho!
Professor Nazareno*
O dia 11 de agosto de 2026 poderá entrar para a insólita história de Porto Velho, a suja, imunda, atrasada e distante capital de Roraima. Em pleno verão amazônico, um temporal assustou grande parte dos moradores. Já havia um bom tempo que as chuvas não davam as caras durante o verão. Só fumaça e fuligem é que se viam por estas bandas. E eis que, de repente, um céu de um vermelho intenso e misterioso se formou de uma hora para outra e que foi seguido de um forte temporal. O feio e horroroso hino de Rondônia fala de um azul muito intenso em uma de suas estrofes. Mentira pura! Os céus de Rondônia nas últimas décadas sempre foram de um cinza chumbo, cheio de fuligem e que durante o verão nada se via. O acanhado aeroporto fechava e os precários hospitais se enchiam de velhos e crianças acometidos de asma, bronquite, pneumonia e outras doenças provocadas pela densa fumaça.
Mas chove bem neste verão sem fumaça! Dizem que este é o segundo ano que Porto Velho não tem mais a fumaça criminosa. Mas o que intrigou mesmo neste dia anormal foi o vermelho intenso no céu antes do temporal. Muita gente disse que foi um incêndio do outro lado do rio Madeira, que foi logo apagado pela chuvarada que se seguiu. Se foi mesmo fogo na mata, os órgãos de defesa do meio ambiente deveriam investigar. Outros já disseram que era a vinda de Jesus Cristo que estava se consumando em terras karipunas. Acho que não: o que Jesus estaria fazendo perto de Porto Velho, uma cidade cujo protetor é o Satanás? No entanto, outras pessoas, em tom jocoso, disseram que foi um aviso ao povo numa época de eleições. “O vermelho vai ganhar as eleições por aqui”, diziam em tom de brincadeira. O comunismo é vermelho, a nossa bandeira devia ser vermelha e o PT é todo vermelho.
Ora, numa cidade que é uma capital, mas não tem sequer um hospital de pronto-socorro decente. Um lugar onde os institutos ligados ao meio ambiente e à qualidade de vida só mostram desgraças e índices vergonhosos. Não tem nenhuma mobilidade urbana. Não tem redes de esgotos e nem saneamento básico ou água tratada. Não tem um porto rampeado. A violência é uma coisa quase normal e que grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza, enfim, um lugar ermo, uma curva de rio em que só falta mesmo é dar uma chuva de bosta, eu imaginei que se tratava exatamente disso: a tão esperada chuva de merda. Porto Velho precisa mudar, senão as pessoas daqui é que se mudarão. Aliás, como já está acontecendo. Ninguém aguenta mais pagar tão caro por passagens aéreas escassas, devíamos ter energia elétrica mais em conta, pois somos produtores de muita energia limpa para fora.
Diante do que se vive diariamente em Porto Velho e em Rondônia, chover fezes humanas é o mínimo que pode nos acontecer. Aqui só falta o garimpo assassino do rio Madeira voltar a poluir as nossas águas e o fogo voltar a queimar o que ainda resta de floresta. Mesmo assim, a natureza não vai aprontar nada de tão grave como fez na Venezuela e na Colômbia com os terremotos. O sul do Brasil já está convivendo com fortes tornados, algo impensável há pouco tempo. Embora o tempo aqui seja “estranho”, muita gente daqui procura remar contra a maré mesmo. O Arraial Flor do Maracujá, por exemplo, será realizado este ano em pleno mês de setembro, como se as festas juninas não tivessem tempo para acontecer. Seria bom que todos respeitássemos a natureza. Céu vermelho em agosto pode não ser muita coisa, mas pode ser algum aviso. Será que algo está para acontecer nas Terras de Rondon e não estamos sabendo de nada? Vamos rezar, gente!
*Foi Professor em Porto Velho.