E
o “rei” cantou na cidade lixo
Professor
Nazareno*
Roberto Carlos sempre foi
chamado de “rei” da MPB desde a época da Jovem Guarda, nos meados
da década de 1960. Por onde passa, esse capixaba de Cachoeiro do Itapemirim
sempre atraiu multidões com as suas músicas melosas e dramáticas. Roberto
resolveu cantar por aqui pela segunda vez, já que há uns 50 anos ele já tinha
passado por Porto Velho, hoje Bolsonarópolis. Cantar aqui já pode ser
sinal de decadência, pois o rincão continua brega e atrasado. Com 85 anos de
idade, Roberto hoje não é nem a sombra daquele rapaz cabeludo que embalou
tantas “jovens tardes de domingo” pelo Brasil afora. Com a voz
rouca e já um pouco desafinada e sem fazer sucesso como outrora, ele é só mais um
senhor idoso cantando para outros idosos. Não fui ao show. Não tive ânimo de me
aventurar em filas quilométricas sem nenhum conforto. É que sou um velho
também.
Além do mais, os preços
dos ingressos eram absurdamente caros. Agiotas e outros espertalhões devem ter
faturado muito dinheiro. Com somente umas duas ou três músicas, e mesmo assim das
antigas, que se conseguem ouvi-las, não valeria a pena gastar tanto dinheiro. E
mesmo que cantasse essas canções no show, jamais seriam iguais como foram
gravadas e que faziam sucesso. Duvido que com seus 85 anos, Roberto Carlos
consiga hoje cantar com a mesma emoção e a mesma ternura músicas como Cavalgada,
Rotina, Detalhes, A Montanha e mais algumas outras poucas. É muito mais
confortável e bem mais barato ficar em casa e ligar o som para ouvir as belas
canções gravadas com emoção, com romantismo e com a voz firme que embalava
multidões. Os jovens de hoje estão mudados: muitos preferem Funk, sertanejo
universitário e Trap. Roberto é para os velhos.
E tomara que este rei não
tenha tido a infeliz ideia de querer conhecer a cidade para dar umas voltinhas.
Bolsonarópolis não é mais a mesma cidade da década de 70 do século
passado, quando o cantor esteve aqui pela última vez. Meio século já se
passou e incrivelmente tudo por aqui está muito pior. Em 1976, por
exemplo, ainda se pescavam jatuaranas ali no pátio da EFMM. A capital de
Rondônia era naquela época uma cidade muito mais limpa e organizada do que é
hoje. Se o “rei” deu umas voltinhas, deve ter passado pelo “açougue”
João Paulo Segundo na zona sul da cidade. E que bom que ele não precisou usar
os “serviços” prestados ali. O avião que o trouxe de Rio Branco
foi talvez o único que pousou no acanhado aeroporto naquele dia. Bolsonarópolis
quase não tem voos regulares para outras capitais do país e além disso as
passagens são caríssimas.
Em 1976 a cidade tinha um
porto até razoável na beira do rio Madeira. Hoje nem isso existe mais. O “rei”
ficaria envergonhado em ver aquele barranco íngreme, liso, escorregadio e cheio
de urubus, que os “turistas” usam. E havia mais limpeza
nas ruas. Embora a oferta de água potável já fosse precária, o percentual da
rede de esgotos e de saneamento básico era bem maior do que é hoje em dia.
Naquele ano não existia o ITB, Instituto Trata Brasil, assim essa capital não
era considerada a pior do Brasil em IDH. O Território de Rondônia vivia numa
ditadura militar, por isso já era da extrema-direita. Época boa em que
as festas juninas da cidade eram realizadas em junho, julho em vez de setembro.
A Semana Santa em Rondônia era em março, abril e não em outubro e novembro. Torcendo
para que não tenham oferecido tacacá, bolo moca ou bombom de castanha e de
cupuaçu para o astro do iê-iê-iê, que nunca mais virá a Rondônia. E
o calor?
*Foi Professor em Porto
Velho.













