Espanha: vitória da esquerda
Professor Nazareno*
A seleção da Espanha venceu de forma invicta a 23ª Copa do Mundo de futebol. Na vitoriosa campanha, perdeu só um ponto no empate contra Cabo Verde ainda na estreia e levou apenas um gol, da Bélgica, nas quartas de final. Mesmo assim, foi o time da França que demonstrou, nas seis partidas iniciais, ser um time superior aos espanhóis. Até a garra argentina pode ter sido superior aos ibéricos. Mas o entrosamento e o bom domínio de bola verificados a cada partida levaram a Espanha ao seu segundo título mundial. Ou seja, o que espanhóis e franceses demonstraram nas finais desta Copa do Mundo é o que sobrava no futebol do Brasil de outrora: domínio de bola, controle da partida e garra. Muita garra mesmo. Como não apresentaram absolutamente nada durante o torneio, os canarinhos ficaram pelo meio do caminho com a triste sensação de que não somos mais país do futebol.
O Brasil ficou apenas num ridículo 11º lugar ao final do torneio. Por isso seus torcedores se contentaram em torcer apenas para as seleções dos outros países. Muitos diziam torcer para a Argentina, enquanto outros preferiram a Espanha. Torcer contra os argentinos porque eles são racistas, dizia-se à boca larga, ignorando que foi na Espanha que os torcedores jogaram bananas nos estádios durante alguns jogos. E é também na Espanha que o nosso jogador Vini Júnior passa poucas e boas devido ao racismo abjeto. Ou seja, ao apontar o dedo sujo para os argentinos fazemos as pazes com nós mesmos: vivemos num país onde o racismo é talvez até maior do que na Argentina e na Espanha juntas. Nossos negros já foram impedidos até de jogar futebol. Pelé, por ter sido negro, nunca teve no Brasil o mesmo prestígio que Maradona e Lionel Messi, por exemplo, têm na Argentina. Não é incrível isso?
Quando misturamos o futebol com a política a coisa fica mais humilhante ainda. Disseram até que Messi e companhia eram amigos de Javier Milei, o desastrado presidente de extrema-direita do país vizinho. Messi teria uma intimidade forte também com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, país onde o Messi está jogando ultimamente. Chamados de racistas, militantes da direita, encrenqueiros e arrogantes, os argentinos não receberam apoio total dos perdedores torcedores brasileiros. Aliás, o presidente argentino não teve permissão do STF do Brasil para visitar seu amigo Jair Bolsonaro na prisão. Já a Espanha do catalão Lamine Yamal e dos bascos Oyarzabal e Unai Simón está mais alinhada com o pensamento da esquerda na política. Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, é inimigo declarado da política imperialista de Donald Trump e com ele tem tido discussões.
A vitória da Espanha, portanto, na casa de Donald Trump serviu como uma vingança para a esquerda mundial. Lamine Yamal já participou de muitas comemorações carregando a bandeira da Palestina e tem dado declarações contundentes contra Donald Trump e contra Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, ambos cúmplices no atual Holocausto palestino na Faixa de Gaza. Por isso, falam aqui no Brasil que a esquerda venceu a última Copa do Mundo no quintal dos imperialistas, que estavam torcendo pela “racista” Argentina de Milei e de Messi. Mas a discussão ainda está longe de se acabar. Na política, por exemplo, ainda se espera no Brasil por um tetracampeonato. Lula, o metalúrgico de nove dedos é o favorito para levar pela quarta vez a Presidência da República em outubro próximo. Muitos brasileiros não sabem, mas não somos mais nada no futebol e nem na política. Se não der Lula, dará Flávio Bolsonaro, o do Tariflávio. É melhor esquecer tudo e torcer pelos outros.
*Foi Professor em Porto Velho.
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