Vivendo
na cidade amaldiçoada
Professor
Nazareno*
Morar
em uma cidade amaldiçoada, não é para os fracos. Única cidade do Brasil onde
uma das famosas lojas não tem a Estátua da Liberdade à frente, a
“currutela fedida” dá exemplos pouco claros e enviesados ao
restante do país. Com 112 anos recém completados, o arremedo de capital não
consegue sequer se sobressair sobre as outras 51 cidades que compõem a
província onde está situada. Município composto em sua maioria por uma
população de pobres e de miseráveis, o lugar está localizado geograficamente no
final e não no meio da decadente província que lhe tem como capital. Como se
não bastassem todos esses equívocos, a “capital dos destemidos pioneiros”
adotou a extrema-direita reacionária para seguir na política. Só mesmo um
lugar tão amaldiçoado assim teria uma ideologia tão surreal. E é o
interior que manda na capital em termos políticos.
Os
festejos de São João são comemorados com muita alegria, mas só no mês de
setembro ou noutro mês qualquer, menos em junho. Os brincantes ficam tão “eufóricos”
que nem percebem a data. Um “São João fora de época” só
mesmo nessa urbe renegada e fora da realidade. Na sinistra cidade não existe um
hospital de pronto-socorro. Na verdade, nunca existiu um só! Há apenas um velho
“açougue” que só serve para matar pacientes pobres e para
eleger políticos ruins e mentirosos. E em toda eleição, o povão ignaro elege
muitos desses políticos. Recentemente um deles inaugurou uma pedra
em vez de um bom pronto-socorro e por causa disso recebeu a maior quantidade de
votos jamais vista e se elegeu senador com toda pompa e glória. A cidade
inteira é conservadora e da extrema-direita reacionária e se orgulha muito
disso. É só eleitor consciente, mano!
Na
cidade desprezada tem até vice-prefeito, mas quase ninguém sabe quem é.
Dizem até que que tentou mudar de cargo nestas eleições. Aliás, o próprio
governador da província fez uma administração tão medíocre que sequer tentou
participar do recente processo eleitoral. Um senador famoso da província também
seguiu o mesmo caminho do fraco governador. Na cidade, é normal senador virar
deputado estadual ou mesmo vereador. O sonho de muitos políticos locais é regredir
de posição sem problema algum. O detestável recanto não tem um aeroporto bom,
não tem porto rampeado nem água tratada ou saneamento básico. Ali bebe-se
água de merda. E se quiser viajar, tem que ir à capital mais próxima
para visitar outros estados do centro sul. E os políticos nada fazem. Ninguém
dali nunca abriu uma torneira para dela sair água potável. Mas todos são
felizes.
Engana-se quem pensa que ali não existe
culinária boa. Um tal de bolo Moca, bombom de castanha, bombom de cupuaçu,
mandi frito, tacacá, saltenha boliviana, farinha puba e tamuatá cozido são as
iguarias mais consumidas pelos nativos. Já os eleitores dali não
demonstram ser românticos. Dessa vez rechaçaram de imediato um dos candidatos
que prometeu hipocritamente outro dia beijar, abraçar e acariciar a imunda
cidade. Beijar a cidade, mesmo na iminência de dar uma violenta chuva de
merda! Fato que é esperado por muito dos moradores. Na área da cultura,
as coisas também são muito sinistras. Existiu, por exemplo, uma banda que fez
sucesso nacional na rede Globo, mas depois desapareceu e não fez mais nenhum
sucesso conhecido. Umas pinturas que fizeram nos viadutos da cidade hoje já
desapareceram no lixo e no lodaçal. Pelo visto, a cidade amaldiçoada
pode até mudar de nome: Bolsonarópolis ou Cidade do Mito. Não é
legal?
*Foi Professor em Porto Velho.


