segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A Rondônia do horário político


A Rondônia do horário político


Professor Nazareno*


Agosto de 2026. Poucas pessoas que moram em estados mais civilizados conhecem este rincão do norte brasileiro. Mas deviam conhecer. É que esse Estado é uma espécie de paraíso escondido do restante do país. Morando em São Paulo, fui procurar passagens aéreas para PVH e fiquei espantando. Com o preço e com as ofertas. As três empresas aéreas nacionais que fazem voos para a distante província estavam oferecendo passagens a duzentos, trezentos reais. O passageiro escolhia o dia e a hora para embarcar. “Quem quer viajar para Porto Velho, Vilhena, Ji-Paraná ou Cacoal?”, gritavam os agentes de viagens. Observei que entre São Paulo e Porto Velho existe uma espécie de ponte aérea diária ligando as duas metrópoles. “Nossa, como as coisas mudaram”, disse eu confuso. Falaram para mim que se alguém quiser ir de carro, não mais pagará pedágio Free Flow na assassina BR-364.

Chegando ao Aeroporto Internacional Governador Jorge Teixeira de Oliveira, o turista poderá encontrar infinitas e raras opções para se deslocar pela limpa e asseada cidade. Ruas largas e com trânsito super organizado. Árvores frondosas denunciando que estamos em plena floresta amazônica e o cheiro inconfundível de perfume francês que exala pelos quatro cantos da cidade é o que se encontra. Pessoas super educadas e acolhedoras, políticos honestos, trabalhadores e de bem com a vida é a rotina da capital mais hospitaleira do Brasil. Em Porto Velho, pode-se visitar o porto rampeado no rio Madeira e se tiver tempo de sobra fazer um passeio de barco pelas limpas e calmas águas daquele rio. O porto no Madeira é um primor, uma obra de arte, uma pequena amostra da capacidade e da competência da amada e da boa classe política da capital assim como a de todo o interior.

Em Rondônia, por exemplo, não existe esse negócio de polarização política. Essa conversa de direita e de esquerda nunca fez parte dos anseios dos nossos políticos e nem dos eleitores rondonianos. Isso porque todos eles têm em mente apenas trabalhar em benefício de todo o povo. As cidades do interior são progressistas e de pessoas de boa índole. Cada cidade de Rondônia é uma espécie de Jardins do Éden com coelhinhos saltitantes e borboletas azuis. Sejamos sinceros: nunca se ouviu falar de um vereador, prefeito, deputado, senador ou governador nesta unidade da federação que fosse corrupto, ladrão e que não soubesse como trabalhar tão bem com o dinheiro público. Na política, Rondônia é exemplo para o Brasil e para o mundo. Para se ter uma ideia, não existe um único deputado aqui que ganhe penduricalhos em seus salários. Político e professor ganham quase a mesma coisa. 

A Unir, a única universidade pública do Estado, tem quatro hospitais universitários. Dois em Porto Velho, outro em Ji-Paraná e outro em Vilhena. Isso sem falar que ela forma os melhores médicos e profissionais de outras áreas do Brasil inteiro. Além desses hospitais, Porto Velho ainda tem um “Built to Suit” de fazer inveja aos melhores estabelecimentos de saúde do país. Violência, nem na badalada zona leste da cidade.Açougue” somente aqueles de vender carne, ovos e frangos. Porto Velho, assim como as outras maiores cidades do Estado, sempre deram as boas-vindas a quem quiser vir morar e trabalhar por aqui. Nunca se ouviu falar de eugenia, Fascismo ou Nazismo em terras karipunas. O atual governador vai deixar o cargo com altíssimos índices de aprovação. Chover merda em Porto Velho, por exemplo, é coisa do passado. A chuva que se espera agora por aqui é a de pétalas de rosas. Não sei se ainda estou sonhando, mas acabei de assistir ao horário político na televisão.



*Foi Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Querem invadir a minha casa


Querem invadir a minha casa


Professor Nazareno*


Sou professor aposentado, tenho quase 70 anos de vida, sempre trabalhei dando aulas, tenho seis filhos de um único casamento com uma única esposa, jamais defendi o slogan Deus, Pátria e Família”, nunca deixei de pagar meus impostos em dia, não tenho problemas com o Fisco, vivo em paz com a Receita Federal, pago IPTU todo ano à Prefeitura de Porto Velho, meu IPVA está em dia, todos os anos de eleições vou às urnas cumprir com meus deveres cívicos, vez ou outra ajudo a quem precisa, tenho excelentes relacionamentos com os meus vizinhos, nunca usei qualquer tipo de drogas, enfim, me considero um cidadão pacato, longe de qualquer tipo de suspeitas. Porém ouvi dizer que estão querendo invadir a minha casa, situada num humilde bairro de minha cidade. Não sei o que fiz para merecer tamanho castigo, tamanha agressão, já que tudo o que fiz e faço é para ajudar os mais necessitados.

Não sei ainda quem quer invadir a minha residência e nem o objetivo. Mas alguns vizinhos me falaram que é para tomar os meus poucos pertences. Quando você não tem como se defender, perde totalmente a sua soberania. Parece que pessoas invejosas e sem caráter entendem que, por terem armas sofisticadas podem mandar na vida dos outros. Qualquer pessoa pode seguir a religião que quiser. Pode torcer pelo time de futebol que achar melhor e pode também ter sua preferência política sem ser incomodado por quem detém o poder. Mas vários vizinhos meus já tiveram o recesso do seu lar invadido por estes mal-feitores. Tomaram-lhes tudo e não deram nenhuma satisfação à Justiça nem a ninguém. Aliás, nestes casos nada funciona para nos defender dos ataques e das injustiças cometidas. Ou concorda-se com todas as exigências apresentadas ou será atacado e morto sem perdão.

O pior de tudo é que eu descobri que dentro de minha própria casa tem pessoas que concordam normalmente com que nós sejamos atacados e vilipendiados em nossa intimidade por estes facínoras. Eu soube que pelo menos três dos meus filhos já se aliaram a esses bandidos e agressores. Minha esposa se mantém neutra na esperança de que com a invasão as coisas melhorem para todos nós. Coitada! Isso nunca aconteceu. Nossa casa é humilde como já disse, mas só de litoral tem mais de sete mil quilômetros. Temos rios caudalosos e lindíssimos, temos vários tipos de clima e um povo heroico e trabalhador. A maior floresta do mundo é no meu quintal. Não aprovamos guerra nem brigas, já que presamos pela paz e pelo diálogo e entendimento entre os povos e nações. Mas ninguém quer saber disso. As armas sofisticadas e modernas que eles têm impõem as suas maléficas vontades. Mas haverá saída? 

Não! Dificilmente um entendimento neste caso será levado em consideração. A invasão virá e será aplaudida por muitos dos filhos da terra, meus vizinhos e conhecidos. Principalmente porque meus filhos não entendem muito de História e nem do nosso passado. Ultimamente vi alguns deles frequentando Igrejas reacionárias que geralmente têm uma compreensão distorcida da realidade. A fome e a miséria continuarão como coisas normais. Em todas as casas invadidas durante o último século, por exemplo, a realidade nunca mudou nelas. Somente os invasores calhordas é que lucraram ao roubar toda a riqueza que encontraram dentro dessas casas saqueadas. E para que a minha casa não seja invadida nem saqueada eu só preciso saber escolher direito quem vai me representar nos próximos anos. Eu só preciso encontrar, entre os amigos, quem me defenda. Estou com medo: quem deveria me defender já disse a todos que apenas vai abrir os portões se o inimigo quiser entrar.





*Foi Professor em Porto Velho.