quarta-feira, 23 de março de 2022

quinta-feira, 17 de março de 2022

Petrobras para presidente

Petrobras para presidente

 

Professor Nazareno*

 

Este ano de 2022 tem eleições para presidente da República. A disputa é grande e está muito polarizada principalmente entre o atual ocupante do cargo, o presidente Jair Bolsonaro da extrema-direita e o ex-presidente Lula da esquerda, que lideram todas as pesquisas até aqui. Porém, uma terceira via vem se organizando a duras penas para também concorrer ao pleito. O ex-juiz Sergio Moro, a senadora Simone Tebet do Mato Grosso do Sul, o governador paulista João Dória e Eduardo Leite governador gaúcho, dentre tantos outros, são candidatos e também alimentam esperanças de ocupar o palácio do Planalto. No entanto, a principal promessa dessa terceira via é a Petrobrás, a poderosa estatal do petróleo que sempre teve muito poder, manda em tudo sem ser incomodada. Durante o governo do Lula roubaram-na, mas esse escândalo castigou os petistas ladrões.

     E o Bolsonaro corre sérios riscos de não se reeleger nas próximas eleições por causa dos constantes aumentos de preços dos combustíveis. O país inteiro entra em polvorosa quando, por conta própria, a estatal anuncia novos reajustes. E quem determina esses aumentos escorchantes contra todo o povo brasileiro é a própria estatal e não o governo. O “Mito” dos brasileiros já disse publicamente que não manda na Petrobras nem na sua política de preços, embora o Estado seja o maior acionista dela. Assim, é o presidente quem nomeia ou demite o chefe maior daquela repartição. Ou seja, diante da estatal do petróleo, o presidente do país é uma espécie de “Zé Ninguém”, pois está de mão atadas e nada pode fazer. O Conselho de Administração é quem de fato manda. É esse conselho que determina a política de preços no país inteiro. Paga quem pode e ponto final.

      Com tanto poder assim, a Petrobras deveria ter um candidato próprio à Presidência da República. De tão importante que é, ninguém ganharia tantos votos. A estatal, no entanto, vive um drama freudiano: não é totalmente pública nem privada. E parece que ela é uma empresa do primeiro mundo e de países ricos, pois nota-se que ela não se preocupa com o drama dos cidadãos brasileiros mais pobres. Aumenta seus preços sem se incomodar com a inflação nem com a miséria e a fome que advêm para o país. As consequências dos reajustes é problema dos consumidores. Por isso, seus acionistas estão nadando em dinheiro. Só no ano de 2021 os lucros foram de quase 107 bilhões de reais. E como raríssimas autoridades desse país pagam do próprio bolso para abastecer os seus carrões, o martírio deve continuar ainda por muito tempo. Estamos é lascados desse jeito.

         Até os caminhoneiros, que se dizem politizados, são reféns da estatal. Pagam o preço que ela cobra pelos combustíveis e não têm coragem de parar o país. Muitos deles vão parar por que não têm como pagar para abastecer seus caminhões. Ou seja, vão mudar de ramo. As reclamações são feitas só nos dois primeiros dias. Depois vem a aceitação pacata sem nenhum pio. E a lorota de que a elevação dos preços dos combustíveis é por causa do mercado internacional não cola, pois quando o preço do barril de petróleo sobe lá fora, rápido aumentam os preços aqui dentro do país, mas quando esse valor cai, como agora, os preços não diminuem. O próprio presidente Bolsonaro, desolado e triste, disse isso esta semana. A Petrobras manda no presidente, manda no mercado, manda no STF, e até no Ministério Público, que quer indagar o presidente por causa das críticas que ele teria feito à política de preços da estatal. E para presidente, vote na Petrobras, a poderosa!

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Os combustíveis estão baratos

Os combustíveis estão baratos

 

Professor Nazareno*

 

Com o último aumento do preço dos combustíveis, a chiadeira no Brasil inteiro foi geral. Até aí, nenhuma novidade, pois sempre que a Petrobras anuncia um novo aumento, todo mundo reclama só nos primeiros dias e depois aceita tranquilamente a realidade e paga sem mais reclamar pelo reajuste. A paulada agora foi de quase 20 por cento para a gasolina, 25% para o diesel e 16% para o botijão de gás de 13 quilos. Muitas autoridades, que geralmente não pagam para abastecer seus carros, fingem ficar muito preocupadas com a majoração. Fazem reuniões, inventam auxílios disso e daquilo, convocam assessores, fazem discursos inflamados e depois tudo volta à normalidade pelo menos até o próximo aumento. O que muita gente não sabe é que o preço atual dos combustíveis está bem abaixo do que em outros anos. Senão vejamos:

            O preço médio de um litro de gasolina hoje, por exemplo, está por 7,80 reais depois desse aumento. Em 2004, época em que o Lula e o PT governavam o país, o preço de um litro de gasolina era em média 1,98 reais. Pois bem, o salário mínimo do Brasil atualmente está 1.212,00 reais. Em 2004 o menor salário era 260,00 reais. Um salário mínimo de hoje dá para comprar quase 156 litros do combustível. Em 2004 só compraria 130 litros, ou seja, bem menos. Para equiparar os preços de hoje aos de 18 anos atrás, o justo seria cobrar agora pelo menos 9,22 reais pelo litro da gasolina. Com a botija de gás de 13 quilos aconteceu a mesma coisa. Em 2004 ela custava 30,47 reais, por isso hoje deveria estar custando pelo menos 150 reais. O brasileiro reclama de tudo. Se a gasolina fosse de graça, todos iriam reclamar que não estão levando até suas casas.

            O maior problema, no entanto, é o salário que não aumenta com essa mesma frequência. Além do mais, as desculpas dadas convencem cada vez mais os fanáticos, que são seguidores desse ou daquele político. Antes, os combustíveis estavam caros por causa da pandemia, agora é por causa da atual guerra na Ucrânia. E o drama só aumenta em um ano de eleições como este que estamos vivendo. Temos um presidente muito fraco, dominado e incompetente. Bolsonaro já disse que não manda na Petrobras e que nada pode fazer pelos brasileiros. Aumenta a gasolina, aumentam automaticamente todos os outros produtos e assim a inflação perde o controle. Parece até que a Petrobras não é do povo brasileiro e sim dos acionistas e dos investidores internacionais. Mas se o salário mínimo do Brasil fosse alto e tivesse um poder aquisitivo maior, ninguém falava.

            Todo governante deveria estar preocupado com o povo que o elegeu e não permitir os abusos de estatal nenhuma. Porém, nem Lula nem Bolsonaro, nem nenhum outro presidente, se preocupou com os mais pobres. Nunca houve um governo no Brasil em que os ricos e poderosos não se beneficiaram e foram privilegiados. Eles geralmente se preocupam somente em se manter no poder. Lula e o PT saquearam a Petrobras. Todo mundo sabe disto. Já o Bolsonaro deu poderes demais a ela. E a situação fica sem comando. Se a Petrobras derrubou Lula e o PT, ela pode “não permitir” a reeleição do “Bozo”. O fato é que não se podem aplaudir os preços exorbitantes dos combustíveis. Muito menos “livrar a cabeça” desses políticos. Isso se chama mau-caratismo, pois raros cidadãos são acionistas da estatal. Cozinhar a lenha, andar a pé e passar fome será a nova realidade de muita gente pobre. O presidente devia abastecer o carro num posto.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 13 de março de 2022

Guerra: a derrota da Rússia

Guerra: a derrota da Rússia

 

Professor Nazareno*

 

            A invasão de tropas russas ao território da Ucrânia não deixa quaisquer dúvidas: a Rússia vencerá esta guerra de qualquer jeito. É apenas uma questão de dias. A Ucrânia não é páreo e não conseguirá mais se defender por muito tempo. Os russos têm o segundo maior exército do mundo e o maior arsenal de armas nucleares do planeta, embora, acredita-se, que não precise usar essas armas de destruição em massa apesar das constantes e perigosas ameaças do governo russo nesse sentido. Mas a Rússia perderá esta guerra: isso pelo menos no campo econômico. Num mundo globalizado, as sanções econômicas funcionam pior do que os mísseis balísticos ou uma infantaria bem treinada. Os russos destruíram a sua imagem no mundo todo e jogaram fora mais de três décadas de reaproximação com os mercados da Europa e de toda a economia capitalista.

            Vladimir Putin e seus ministros, antes de iniciar esta estúpida guerra, podem não ter percebido duas coisas: primeiro foi a feroz resistência ucraniana e segundo, o poder devastador de sanções econômicas do mundo inteiro que foram impulsionadas tanto por governos como por muitas empresas privadas. Isso sem falar na russofobia crescente em todos os continentes. Com a globalização, os mercados dependem uns dos outros para funcionar. Um carro, ou qualquer outro bem, depende de chips e de componentes fabricados em várias nações diferentes. Com o boicote aos russos, a economia para de funcionar e a derrota, pelo menos em termos econômicos, é iminente. Uma ex-aluna minha que mora na Rússia disse que a inflação no país, em uma semana apenas, já explodiu. Não há como sacar dinheiro em caixas eletrônicos e não há cartões de crédito.

            Isso sem falar nos boicotes esportivos impostos ao país para puni-lo por ter invadido sem nenhuma necessidade um país soberano reconhecido internacionalmente. Atletas da Rússia e também de Belarus estão proibidos de participar de Olimpíadas, paraolimpíadas, Olimpíadas de inverno, Copa do Mundo de futebol, campeonatos europeus de futebol e de vários outras modalidades esportivas que acontecem no mundo inteiro. Os russos estão fora de todos os sistemas financeiros internacionais como o Swift e não podem fazer compensações bancárias envolvendo moedas internacionais. Além disso, todos os magnatas e bilionários russos tiveram seus bens bloqueados ou congelados em vários países do exterior. Aviões comerciais da Rússia estão proibidos de sobrevoar o espaço aéreo de muitas nações assim como os navios não podem atracar.

            Fala-se na mídia ocidental que Vladimir Putin estaria com um câncer em estado terminal. Por isso, tem muita pressa para tentar reconstituir, na marra, o antigo império soviético, que fora desfeito no início da década de 90 do século passado. Ou seja, como o previsto, tenta repetir tragicamente a História. Este conflito no coração da Europa trará de volta à cena mundial a guerra fria que dominou o cenário internacional entre 1947 e 1991. Mas o povo russo lucraria muito mais se continuasse com a integração ao bloco europeu em vez de enfrentá-lo nos campos de batalha. O mundo hoje está diferente e a maioria das pessoas abomina as guerras e as mortandades inúteis. Integração entre os povos, contatos com novas culturas e sociedades, consumo de bens, intercâmbios em vez de canhões, tiros, bombardeios e matanças. Lamentavelmente muitas pessoas inocentes ainda vão morrer por causa de poucos que decidem suas vidas.

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Mito, herói dos combustíveis!

Mito, herói dos combustíveis!

 

Professor Nazareno*

 

            O preço dos combustíveis no Brasil não para de aumentar. Nesta segunda semana de 2022, de uma tacada só, a gasolina subiu quase 19 por cento enquanto o diesel subiu 25% e o gás de cozinha 16%. E a alegria explodiu entre muitos brasileiros, principalmente aqueles seguidores do presidente Jair Bolsonaro. É que a cada aumento desses, os números do Mito nas pesquisas eleitorais para presidente também aumentam. No ano passado, por exemplo, quando o gás de cozinha custava uns 90 reais ou até menos, Bolsonaro tinha pouco mais de 21 por cento nas pesquisas. O petista Lula seria eleito no primeiro turno, segundo estas mesmas pesquisas. Hoje com mais este aumento dos combustíveis, Bolsonaro disparou e ultrapassou os 31 por cento nas intenções de votos. Assim, a cada aumento tem-se a certeza da eleição do Mito já no primeiro turno.

            Embora ele tenha dito várias vezes que “não manda em nada” quando o assunto é a Petrobras e a sua política de preços, presume-se que mais este aumento nada tenha a ver com o líder dos brasileiros. E o Mito só ganha aplausos, notoriedade e admiração a cada declaração dada. Seu competente ministro da Economia, Paulo Guedes, deveria ser laureado com o Nobel de Economia. Durante a campanha em 2018, o futuro ministro Guedes prometeu a botija de gás a 35 reais e gasolina a menos de 2,50 o litro se eles ganhassem as eleições. Ganharam! E três anos depois daquelas “sábias palavras” a gasolina está a quase nove reais e o gás foi para 130 reais a botija de 13 quilos e com perspectivas de aumentarem ainda mais. Os eleitores bolsonaristas vibram de euforia e de satisfação com estes preços altos. Afinal, a popularidade de seu líder também sobe.

            A desculpa para o aumento agora é a guerra na Ucrânia. Antes era a pandemia. Deve ter sido por isso que Bolsonaro foi dar solidariedade ao Putin um pouco antes de o presidente russo atacar os ucranianos e iniciar mais um conflito. O raciocínio do Mito é simples: “com uma guerra na Europa, os preços dos combustíveis aumentam no mundo inteiro e como eu não mando na Petrobras nem nessa política de preços, a minha popularidade também aumenta por aqui”.  Os pobres, os caminhoneiros, os motoristas de aplicativos e também algumas outras profissões que poderiam ser prejudicadas, receberão um auxílio do governo para calarem a boca e continuarem apoiando e votando no seu ídolo. E a Petrobras tem que dar lucro para os seus acionistas! E isto já aconteceu no ano passado quando a “divina” estatal lucrou quase 107 bilhões de reais.

            O povo do Brasil tem que votar e reeleger o Bolsonaro, mesmo com os preços dos combustíveis nas alturas. Com Lula e o PT a coisa pode não dar certo. Triste: quando esteve no poder, a esquerda roubou a estatal como ninguém. Já pensou se Pedro Barusco, Nestor Cerveró, Jorge Zelada, Paulo Roberto Costa, Alberto Yousseff, Renato Duque e tantos outros voltarem ao comando da estatal? E todos eles sendo comandados pela Dilma Rousseff como ministra das Minas e Energia? Melhor nem pensar na tragédia que seria. Assim, vale a pena pagar qualquer preço pela gasolina, pelo diesel e pelo botijão de gás. “Podemos até pagar caro pelos combustíveis, mas temos o nosso nome limpo” é o raciocínio de muitos brasileiros patriotas que voltaram a andar a pé e cozinhar com lenha. Até as eleições que reelegerão Jair Bolsonaro para mais quatro anos como presidente, a gasolina estará uns 15 reais e o gás uns 200. Mas todos felizes!

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Aliados: Maduro, “Bozo” e Putin

Aliados: Maduro, “Bozo” e Putin

 

Professor Nazareno*

 

            O velho ditado diz que o mundo não dá voltas, ele capota. E é o que estamos vendo agora com relação à guerra da Rússia contra a Ucrânia. Poucos dias antes de Vladimir Putin ordenar a invasão do país vizinho, Jair Bolsonaro foi a Moscou prestar solidariedade ao presidente russo. “Parece que ele, o Bolsonaro, está do lado oposto”, discursou a porta-voz do governo dos Estados Unidos. E estava mesmo só que ninguém esperava, muito menos aqueles bolsonaristas mais exaltados, que o seu “querido presidente” estaria também ao lado de Nicolás Maduro o tão criticado mandatário da Venezuela. Neste grupo, junto ao Bolsonaro também se podem incluir os presidentes de Cuba, da Nicarágua, da Coreia do Norte, Eritreia, Belarus e também o ditador da Síria. Quase todos eles são comunistas convictos ou esquerdistas. O “Mito” é a piada pronta!

            Todo ditador, seja ele de direita ou de esquerda, geralmente é um sujeito limitado, boçal, antissocial, sanguinário, desumano, infame, misógino, frio, escroque, genocida, ambicioso, mentiroso, antidemocrático e preconceituoso. A invasão da Ucrânia mostra muito bem muitas destas características no Putin. E se a mídia estiver correta, percebe-se também quase tudo isso nos seus apoiadores e seguidores. E como o Brasil sempre foi um país sem muita importância na geopolítica mundial, o nosso presidente poderia não ter que pagar mais esse mico internacional: apoiar, mesmo que indiretamente, as pretensões imperialistas de um ditador sanguinário que invade outro país soberano. “Países não tem amigos nem inimigos, têm interesses” disse certa vez o Winston Churchill. Então, o que ganha o Brasil ao apoiar o Putin, a reboque do mundo?

            O “Bozo” praticamente se elegeu falando mal do Socialismo, do Comunismo e de todos os regimes políticos de esquerda. Do professor Paulo Freire a Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela, o então candidato do PSL não media palavras para esculachar a todos. “O nosso país nunca mais será governado por um presidente de esquerda”, bradava sorrindo. No Brasil, antes de se eleger, ele e os seus seguidores detonavam também o Centrão, o grupo político que segundo eles representa a velha política, representa a corrupção e os desmandos da coisa pública. Hoje não só está aliado a esse bloco político como praticamente entregou o seu fraco e desacreditado governo aos deputados e senadores do referido esquema corrupto. Definitivamente, Bolsonaro ou é muito burro ou nada entende de geopolítica mundial. Ou as duas coisas.

             Não há mocinhos nesta guerra lá na Europa, mas não há como negar que o único responsável é o Vladimir Putin que invadiu e provocou toda esta carnificina. “São os lunáticos comandado os idiotas”. E para isso, ele ainda recebeu a solidariedade do presidente brasileiro. E se não acabarem logo os ataques, em pouco tempo os ucranianos podem não ter mais as suas lindas cidades nem o seu país. Por isso, a “russofobia” avançará cada vez mais num mundo que não aguenta mais ver tanto sofrimento e tantas mortes desnecessárias. E se o eleitor brasileiro não tirar democraticamente o senhor Jair Bolsonaro do poder em outubro próximo, o Brasil poderá infelizmente também enfrentar esta avassaladora aversão internacional e muitos boicotes. Aliás, o Maduro já está “se bandeando” para o lado dos Estados Unidos ao oferecer petróleo para os americanos devido às sanções impostas aos russos. E afinal, de que lado o “Bozo” está?

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 5 de março de 2022

“Não há guerra na Ucrânia”

Não há guerra na Ucrânia

 

Professor Nazareno*

 

            Pode até parecer surreal, mas para a Rússia e o governo de Vladimir Putin, todo o Ocidente está muito histérico em relação aos atuais acontecimentos na Ucrânia, pois o que está havendo desde o dia 24 de fevereiro último é simplesmente “uma operação militar especial na parte leste do país vizinho” e não uma guerra ou mesmo “como muitos insinuam” uma invasão militar por parte da Rússia. Só que em tempos de internet e de transmissões reais feitas por qualquer pessoa, é impossível negar o óbvio. Os bombardeios, a carnificina e os constantes ataques às cidades de outras partes da Ucrânia, inclusive à capital Kiev, desmentem o líder dos russos. Por isso, o governo Putin junto à Duma, o parlamento local, criaram às pressas leis proibindo o uso das palavras guerra e invasão em toda a mídia. E 15 anos de prisão para quem desobedecer.

            No Brasil de hoje não existe censura real, mas a vontade de cercear os meios de comunicação e consequentemente toda a opinião pública é uma constante no atual governo de Jair Bolsonaro. Dizem por exemplo, que entre 1964 e 1985 não houve ditadura militar no nosso país. Tese, aliás, corroborada outro dia pelo cantor caipira Zezé de Camargo. “O que houve no Brasil foi apenas um militarismo vigiado”, disse o artista depois de se autoconsiderar um sujeito politizado. Não se pode negar os fatos. A História não perdoa. Por isso se diz que ela, a História, só se repete como farsa e depois como tragédia. Zezé de Camargo e também outros artistas e até algumas pessoas esclarecidas ignoraram o golpe dado em João Goulart, a proibição de eleições diretas, o exílio, as cassações políticas, a censura e o DOI-CODI com a tortura aos oposicionistas.

            O governo de Vladimir Putin na Rússia, em termos de conquistas sociais e de respeito aos direitos humanos, talvez seja bem pior do que o do “Bozo” no Brasil. Aqui, apesar da cantilena dos negacionistas, vivemos por enquanto uma democracia nem que seja de aparência e não estamos, ainda, em guerra contra ninguém. Diferente da Rússia, no Brasil a mídia publica o que quer apesar dos protestos tanto do presidente do país quanto de alguns de seus fanáticos seguidores. A censura até que existe, mas é bem disfarçada e baseia-se na corrupção: o prefeito, o deputado ou o governador paga uma “comissão” por fora para os sites e outros órgãos falarem bem dele. Fazem isso, por que falta de ética não é crime. Então, tenta-se apagar ou negar a própria História apesar das evidências. Assim, por aqui “nunca houve ditadura militar, nem censura, nem tortura”.

            Deve ser por isso que dias antes da guerra estourar, Bolsonaro se confraternizou com Vladimir Putin, fez fotos com ele e lhe prestou solidariedade apesar de que toda a opinião pública mundial estivesse no caminho oposto. As televisões ocidentais, onde não há censura explícita, mostram cenas horrorosas e chocantes com civis ucranianos inocentes sendo massacrados pela carnificina da invasão russa com velhos, mulheres e crianças aos prantos fugindo dos ataques. E como “contra fatos não há argumentos”, vamos mentir e dizer pelo Brasil afora que no atual governo de Jair Bolsonaro nunca houve corrupção, nem conchavos políticos com o Centrão e muito menos rachadinhas. Diremos também que Vladimir Putin é um líder humanitário, bom e sensível e que Jair Bolsonaro é um “santo”. Os trouxas e imbecis bolsomínions acreditarão na lorota e cada um de nós não fará inimigos. Por enquanto. Será que vão publicar este texto na mídia?

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Putin declara guerra a Rondônia

Putin declara guerra a Rondônia

 

Professor Nazareno*

 

       Por causa do desrespeito às questões indígenas, dos sucessivos incêndios na floresta durante o verão amazônico e principalmente por conta dos inúmeros casos de roubo e de corrupção verificados na Assembleia Legislativa do Estado, Vladimir Putin, a palmatória do mundo, resolve declarar guerra a Rondônia. Já alguns respeitadíssimos analistas políticos rondonienses dizem que o aborrecimento do líder russo com Rondônia se deu por conta dos péssimos atendimentos médicos verificados lá no “açougue” da capital rondoniense. O fato é que, de uma hora para outra, podemos nos ver envolvidos num dos piores conflitos da humanidade. Mas apesar da enorme superioridade militar dos russos, as autoridades de Rondônia já tranquilizaram toda a população: conseguirão proteger o Estado de qualquer ataque estrangeiro. Ainda bem!

     As forças de defesa estacionadas em Rondônia podem nos preservar de maneira heroica de qualquer agressão. Em Porto Velho, por exemplo, temos a 17ª Brigada de Infantaria de Selva que enfrentaria os russos de igual para igual em qualquer campo de batalha e sob quaisquer condições. Nos nossos quartéis, “as vassouras, rodos e pincéis” seriam de extrema importância para enfrentar um momento hostil e amparar todos os rondonienses natos e também os “de coração”. E na capital temos ainda outros quartéis com homens muito valentes e destemidos: o 5° BEC, as polícias civil e militar,  a PRF, os bombeiros e a PF. Os russos que se metam conosco, mano! Além disso, temos a poderosa Base Aérea de Porto Velho com seus aviões de caças moderníssimos. Assim, os nossos céus estão bem guarnecidos com todos estes teco-tecos imbatíveis. SELVA!

         O MiG-29, o principal caça de superioridade aérea da Rússia e os avançados caças Sukhoi Su-34 e Su-35, todos ultramodernos e letais, não são nem fichinha perto dos valorosos aviões de combate que sobrevoam diariamente os céus de Porto Velho. A base aérea daqui é uma indestrutível fortaleza de guerra. E nossas armas são o máximo. Todo Sete de Setembro vemos nos desfiles como é o nosso poder de fogo. E se no ar a superioridade rondoniana é visível, na água os nossos homens se superam. A Marinha que está à disposição de Rondônia é uma coisa fantástica e colossal. Homens-anfíbios devidamente treinados para enfrentar qualquer batalha é o que se vê lá pela beira do rio Madeira. Os marinheiros dos submarinos russos tremem de medo só de pensar em aparecer por aqui. Porém, as nossas autoridades são a peça chave para vencer a todos.

Marcos Rocha, o governador do Estado, é um bravo coronel e Hildon Chaves, o prefeito da capital, é um político dos mais experientes. Quem não lembra quando eles tentaram comprar 1,2 milhão de vacinas para enfrentar a Covid-19 em terras karipunas? São os heróis desse povo. E agora que eles estão unidos pelo bem da gente daqui, nada mais causará mal a nós. Mas também há outros bravos homens públicos em Rondônia como os deputados Lebrão e o Cabo Jhony Paixão. Os dois têm uma história de luta e de muita dedicação pela sofrida população deste Estado. Óbvio que numa guerra de verdade eles e muitos outros políticos morreriam pelo povo daqui. O governador devia romper relações com os russos e proibir o funcionamento de toda montanha-russa em Rondônia. Dr. Hildon prometeu uma nova rodoviária para a capital e Marcos Rocha já disse que construirá um novo “açougue” por aqui. “E o que mais querem esses russos”?

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Bolsonaro, Putin e Hitler

Bolsonaro, Putin e Hitler

 

Professor Nazareno*

 

            Esses três cidadãos, dois dos quais ainda vivos, são como três grandes abortos da natureza. Só tristeza, mortes, caos, infortúnios, desgraças e tudo de ruim trouxe e ainda trazem para quem conviveu e ainda convive ao redor deles. Suas aspirações ditatoriais, suas ambições, a inércia e o descrédito de seus opositores e principalmente a ignorância popular podem tê-los conduzido ao poder de seus respectivos países. “Todo mal deve ser cortado pela raiz”, assim diz o ditado popular. Se não impusermos limites a um filho nosso, por exemplo, ele vai se criar pensando que pode fazer tudo e depois que cresce é tarde demais para impedir suas nefastas e maléficas ações. E assim aconteceu e ainda está acontecendo com cada um destes três seres humanos. Só que cada um ao seu tempo e dentro da realidade de seus respectivos países. Os dois primeiros são amigos.

            Sob o ponto de vista de suas ações à frente do poder, os três têm muitas coincidências. Todos eles foram inicialmente subestimados e não levados muito a sério por quem poderia ter interrompido o rosário de desgraças e amarguras que semeou e semeiam ao longo de suas vidas. Da extrema-direita, Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil, poderia ter sido barrado muito antes de ter chegado à presidência do país. O “Bozo” elogiou publicamente um torturador durante o golpe que deram na ex-presidente Dilma Rousseff e nada aconteceu com ele. Recebeu 57 milhões de votos e se elegeu. Suas falas misóginas, homofóbicas, racistas e preconceituosas sempre foram levadas na brincadeira. Seus ataques às instituições da República em especial ao STF e aos seus ministros só criaram e ainda criam crises institucionais. Bolsonaro precisa ser contido.

            O ovo da serpente precisa ser quebrado antes de chocar. Se Adolf Hitler tivesse sido parado no começo, o mundo não teria presenciado o Holocausto e a morte de mais de 60 milhões de pessoas. Os países aliados não acreditavam que Hitler chegaria aonde chegou. Depois da Primeira Guerra Mundial ele rearmou a Alemanha, pregou mentiras, perseguiu minorias e finalmente chegou ao poder. Anexou a Áustria (Anschluss) em 1938 e praticamente não teve oposição de nenhum outro país. A seguir, anexou os Sudetos da Checoslováquia e enganando a todos, disse que pararia por ali. As potências europeias e os Estados Unidos iam permitindo todos os avanços do nazista, pois acreditavam nas palavras do Führer até que por fim ele invadiu a Polônia dando início à Segunda Guerra. E Hitler só cresceu por causa da inércia de quem poderia tê-lo parado.

            A mesma coisa está acontecendo com Vladimir Putin da Rússia. O tempo todo ele dizia que não iria invadir a Ucrânia e que o Ocidente estava com histeria. Em 2014 ele anexou a península da Crimeia ali “nas barbas” das potências europeias e dos Estados Unidos. A seguir reconheceu as províncias ucranianas de Lugansk e Donetsk com o pretexto de garantir a paz na região e logo a seguir invadiu toda a Ucrânia. Pior: faz ameaças contínuas a quem se envolver no conflito. E não vai parar por aí: já ameaçou a Finlândia e a Suécia caso esses países se filiem à OTAN, a organização militar dos países ocidentais. Putin ameaça também as nações da ex-União Soviética e pode invadi-las ou anexá-las. Na contramão da política externa do Brasil, Jair Bolsonaro já prestou solidariedade ao ditador russo. O mundo não aprendeu nada. Não se deve dar créditos a ditadores lunáticos. O mal deve ser cortado pela raiz. Depois pode ser tarde.

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Muito pior do que a Covid-19

Muito pior do que a Covid-19

 

Professor Nazareno*

 

            Há pouco mais de dois anos que o mundo vive o drama da Covid-19, a terrível pandemia que já infectou pelo menos 430 milhões de pessoas e ceifou quase seis milhões de vidas em todos os continentes. Isso sem falar nos incontáveis prejuízos que tem causado aos países arruinando parte de suas economias. E eis que ainda com dificuldades para vacinar as pessoas e controlar de uma vez a ameaça viral, surge outro problema de dimensões bem maiores e piores do que o Coronavírus: Vladimir Putin, presidente da Rússia, invade a Ucrânia e com isso joga o mundo diante de uma ameaça de guerra nuclear. Fato este que significará o fim do planeta inteiro e consequentemente de toda a espécie humana. E para variar, nas duas ameaças, a do vírus e a da guerra atômica, Bolsonaro, o desastrado presidente do Brasil, teve até agora uma atuação pífia.

Durante esta pandemia, o governo insano de Jair Bolsonaro contribuiu de forma significativa para o aumento do número de óbitos no país. Já são quase 650 mil brasileiros mortos pela ameaça viral e com pouquíssimas intervenções do governo e de autoridades federais para diminuir os problemas. Negacionismo, prescrição de medicamentos sem nenhuma eficácia, sabotagem para a compra de vacinas, incentivo às aglomerações e negação ao distanciamento social, dentre outros absurdos, foram verificados em todos os lugares nos últimos dois anos. Por isso, o Brasil é o segundo país do mundo com mais pessoas mortas pela Covid-19 perdendo somente para os Estados Unidos. Durante todo este tempo, o “Bozo” sequer visitou um hospital para levar conforto aos doentes. Mas sem necessidade, foi visitar a Rússia de Vladimir Putin.

 Tanto na pandemia quanto na questão ucraniana, o Brasil bolsonarista patina. Há poucos dias e às vésperas de a Rússia iniciar essa guerra estúpida e bárbara na Europa e talvez até no resto do mundo, Jair Bolsonaro resolve ir ao país de Vladimir Putin e lhe prestar solidariedade, colocando assim a nossa diplomacia de “saia justa” perante os países civilizados e amigos como os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e toda a União Europeia. Embora a Rússia faça parte dos BRICS com o Brasil, são os russos que estão cruzando a linha vermelha ao invadir militarmente um país soberano e reconhecido pela comunidade internacional. Bolsonaro com essa atitude se junta a ninguém menos do que Nicolás Maduro da Venezuela, Daniel Ortega da Nicarágua e a Miguel Díaz-Canel presidente de Cuba, que já se solidarizaram com o presidente russo.

Por não ter nenhuma importância no cenário internacional, o Brasil “quase” não tem nada a ver com este conflito lá nos confins da Europa, mas visitando os russos numa hora inapropriada e atemporal, o presidente do Brasil deu uma “forcinha” aos invasores da Ucrânia. Vamos torcer para que a OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, ou qualquer um de seus membros, não entre nessa briga. Se isto acontecer, a situação pode fugir do controle e aí sim, estaríamos diante da possibilidade real da terceira guerra mundial com vastos ataques nucleares onde todos nós morreríamos, até mesmo o Bolsonaro. Por isso, devemos torcer para que o Coronavírus continue a sua saga. Usamos máscaras, temos álcool em gel e já fabricamos a nossa própria vacina. O número de mortos numa pandemia será infinitamente menor do que num ataque nuclear. Mas Bolsonaro e os seguidores não entendem nada disso. É cruel!

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

JBC, o sonho ainda não acabou


JBC, o sonho ainda não acabou

 

Professor Nazareno*

 

            Imagens de vídeos terríveis circularam na semana passada nas redes sociais de Porto Velho mostrando brigas de alunos dentro da escola JBC, o João Bento da Costa, situada na zona sul da capital rondoniense. As lamentáveis cenas de pugilato podem até não ter chocado ninguém de tão “normais” que já são em se tratando de periferias das grandes cidades, pois o que se veem infelizmente Brasil afora são gangues formadas por jovens e adolescentes das favelas pobres, criados de qualquer jeito, desassistidos e geralmente semianalfabetos que se engalfinham uns com os outros em busca dos cinco minutos de fama ou simplesmente para marcar território para seus fornecedores. Essa cruel realidade pode até não ser o caso registrado no João Bento, mas mostra uma crescente preocupação para o Poder Público dar dignidade e oportunidades aos jovens.

            E a escola João Bento da Costa não é nada disso que apareceu nos vídeos. Sua realidade é outra bem diferente. O João Bento sempre foi e será sinônimo de educação comprometida e de visão de futuro. O JBC tem “pedigree”, tem História, tem nome. E foi a partir do ano 2002, quando o Projeto Terceirão na escola púbica foi fundado por um grupo de “professores sonhadores” que o nome da escola passou a ser referência em todo o Estado e depois no Brasil inteiro. No ENEM de 2015, por exemplo, se pegarmos os 30 melhores alunos por escola, o JBC ficou em segundo lugar na pontuação dentre todas as escolas, públicas e particulares, deste Estado. Todos os anos, alunos do João Bento sempre foram aprovados para praticamente todas as universidades do Brasil. Do Acre à Paraíba. Do Amapá ao Rio Grande do Sul existem alunos do JBC matriculados.

            Médicos, engenheiros, professores, advogados dentre tantos outros profissionais de hoje já sentaram nas cadeiras desta conceituada escola pública de Porto Velho. Da Alemanha, passando por Portugal, Finlândia e Estados Unidos e em muitos outros países temos ex-alunos nossos morando ou estudando. Mesmo com algumas mudanças verificadas na escola durante a pandemia, o atual corpo docente e a direção são muito competentes e comprometidos com a filosofia e a excelente proposta pedagógica do estabelecimento de ensino. O João Bento não pode se resumir a “briguinhas” de alunos inconsequentes em busca dos holofotes e de publicações toscas nas redes sociais. O JBC é a Rondônia que dá certo e continuará sendo ainda por muito tempo. E muitos dos seus atuais alunos são bons e não o procuraram por mero acaso, pois no JBC existe futuro.

            Todos os responsáveis por estas brigas deveriam ser advertidos e punidos na forma da lei e por conta própria deveriam abrir mão de usar a camisa da escola. Deviam se conscientizar e procurar outros lugares para “estudar”. A vergonha e o vexame que deram à História desta escola não serão jamais esquecidos. O “manto sagrado” do JBC merece algo bem melhor. Merece respeito, compromisso e admiração. Merece alunos engajados e que pensam no futuro como muitos dos que hoje lá estão. Apesar de públicas, Porto Velho tem muitas outras escolas de excelência como o Major Guapindaia, o Colégio Tiradentes, o Barão do Solimões, o Castelo Branco e tantos outros estabelecimentos de renome e que, óbvio, vão evitar esses tristes escândalos. É como disse a nossa ex-aluna Cristina Ferreira, que está na Alemanha: essa escola é parte da minha História. “JBC sempre fazendo o melhor para você”. Aqui o sonho não acaba!

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

UNIR: bonificação para Letras

UNIR: bonificação para Letras

 

Professor Nazareno*

 

            UNIR é a Universidade Federal de Rondônia, embora a sigla do Estado seja RO e não somente R. É a única instituição pública de ensino superior a funcionar por estas bandas. Recentemente, o Ministério Público Federal “recomendou” que a universidade dê uma bonificação, ou seja, “uns pontinhos a mais” para todos os alunos nascidos em Rondônia e que queiram cursar Letras. Esse jeitinho, afirma-se, é por que muitos alunos de fora do Estado estão tomando as vagas” dos alunos karipunas. Parece que o egrégio MPF se esquece de que uma universidade federal, mesmo estando no território dos entes federados, é bancada com recursos públicos federais. Assim, por questões lógicas, não deveria criar barreiras para que alunos “de fora” tenham ainda mais dificuldades de ingresso. Mesmo se fosse só bancada com recursos locais, tudo isso já seria um delírio.

            Se o nível dos alunos rondonienses é muito mais baixo em relação ao de outros Estados, por que o MPF não tenta criar mecanismos para melhorar esse nível? Assim, eles poderiam competir no ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio, em “pé de igualdade” com todo mundo de fora, já que o princípio isonômico é constitucional. E os estudantes de Rondônia são tão capazes quanto os de São Paulo, Minas Gerais ou de qualquer outro Estado. Só basta serem mais bem preparados. É simples assim! Criar mecanismos como “pontinhos extras” só por que o indivíduo nasceu ou mora aqui não ajuda em nada a melhorar o fraco nível de ensino que se tem no Estado. Além do mais, essa “ideia” de dificultar a vida de outros alunos brasileiros é antiética. Já pensou se esses outros Estados também criarem barreiras para as pessoas oriundas de Rondônia?

            O curso de Letras da UNIR é um dos melhores do país e por isso muitos alunos de todos os recantos do Brasil sonham um dia estudar em terras karipunas. Mas agindo assim, o MPF pode criar a falsa ilusão de que os outros cursos não têm a mesma importância. Sabe-se que hoje o sonho de todo cidadão brasileiro é ser professor de Português, Redação ou Literatura. É ser formado em Letras. É ser chamado de “doutor” mesmo sem ter doutorado ou nem sequer pós-graduação. Além do mais, quem garante que quando já estiverem formados esses alunos vão continuar atuando ou mesmo até morando por aqui? Um absurdo a sociedade e o Poder Público subentenderem essa “superioridade” de um curso sobre outro. Todos os cursos são importantes e devem ter um só tratamento. Já bastam as cotas sociais e raciais para ingressar nas universidades.

            Guardadas as devidas proporções, essa ideia é a mesma usada pela organização do campeonato mundial de clubes da FIFA. Os times sul-americano e europeu, por exemplo, já entram na semifinal do torneio como se as equipes dos outros continentes tivessem uma importância menor. É, portanto, um campeonato com cartas marcadas. O campeão e o vice serão sempre da Europa ou da América do Sul. Algo surreal seriam dois alunos paulistas, mineiros ou cariocas conversando: você vai a Rondônia cursar Letras? Que nada, amigo! Não nasci lá, por isso não tenho chances. Esperemos que esses mesmos Estados também não criem barreiras para que os alunos daqui, já formados, tenham obstáculos para fazer residência médica, mestrado, doutorado ou pós-doutorado. A ideia absurda de “primeiro os meus, depois Mateus” não devia ser adotada  numa Federação. E tomara que depois não criem outras regras que excluam ainda mais.

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.