sexta-feira, 31 de julho de 2026

Rondônia é pobre e de direita

                                                         
                                 
         Rondônia é pobre e de direita


Professor Nazareno*


   Não há nenhuma dúvida disso. O jovem Estado de Rondônia tem na política uma verdadeira predileção pela extrema-direita reacionária. Na verdade, sempre teve. Só que não existe uma explicação no mínimo plausível até hoje para que isto aconteça. Estado pobre, subdesenvolvido, distante dos grandes centros, sem indústrias, esquecido e explorado ao máximo em seus recursos naturais, Rondônia é talvez atualmente o mais bolsonarista dentre todos os estados brasileiros. Santa Catarina, Goiás e Paraná são estados em que a direita e a extrema-direita têm grandes votações, mas são estados bem mais antigos e ricos da federação, onde o agronegócio sempre prosperou de maneira muito forte. Mesmo assim, nesses estados existem grandes parcelas de sua população que votam na esquerda e em candidatos progressistas. A esquerda em Rondônia é algo insignificante e quase invisível. 

Os manuais de Sociologia mais modernos e atuais certamente não saberiam explicar corretamente o porquê desta discrepância social e política. Eu, no entanto, arrisco a dizer que podem existir três variáveis para explicar esta situação. 1. Rondônia é um dos quintais do agronegócio nacional. Grandes parcelas da floresta amazônica foram devastadas para dar lugar às plantações, que, diga-se de passagem, nada trouxe de benefícios para o povão sofrido daqui. Neste rincão violento há fome, miséria, exploração e problemas sociais como em qualquer outro estado do país. Mas o sofrido e explorado eleitor continua hipnotizado pelas promessas dos políticos reacionários. 2. A mais nova estrela no azul da Uniãotem em sua população talvez os maiores índices de cidadãos evangélicos do país. Percentualmente, Rondônia só perde para o Acre em número de evangélicos com mais de 41% de fiéis.

Absolutamente nada contra esse segmento religioso, pois quase todos os evangélicos são pessoas boas, comprometidas com a sua fé, gente honesta, amigável e coerente. Mas muitos deles são ligados à riqueza e ao acúmulo de patrimônio, coisas inerentes à extrema-direita reacionária. Daí, vota-se quase sempre em quem o pastor mandar sem se questionar muito o porquê. 3. Em praticamente toda a sua existência política, Rondônia sempre foi governada por coronéis, que deixaram suas marcas na população, principalmente a menos instruída, que sempre foi maioria por aqui. Até hoje, por exemplo, o Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, o Teixeirão, um preposto da Ditadura Militar em terras karipunas, é reconhecido e aclamado como um Deus entre a população mais velha. Isso sem ter tido um único voto do povo daqui. Falar de oposição nos governos indicados era prisão e perseguição na certa. 

Só que esse posicionamento sempreà direita” nada trouxe de benefícios para o povo daqui. Todo eleitor tem o direito de votar e de seguir também quem quiser na política. É a democracia. Mas Rondônia nunca teve um governador de esquerda. Jerônimo Santana, o Bengala, só governou o Estado quando seu partido, o PMDB, estava no poder central do país. a sua suja e imunda capital jamais teve um prefeito mais progressista com mandato total. O único esquerdista que teve foi Roberto Sobrinho do PT, que injustiçado e perseguido pela elite local, terminou a sua administração processado e preso. Alguns anos depois foi inocentado pela Justiça. Como pode um eleitor sem nenhuma visão nem leitura de mundo amar Israel, Argentina e Estados Unidos só porque os outros mandam? Como pode o sujeito ser contra os benefícios que a própria política pode lhe proporcionar? Enfim, como ser contra si próprio? Até parece que quem governa Rondônia é o Trump, Netanyahu ou o Milei.




*Foi Professor em Porto Velho. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O eleitor de Rondônia é genial


 

O eleitor de Rondônia é genial


Professor Nazareno*


Rondônia é uma das 27 províncias do Brasil. Atrasado, inóspito, sem eira nem beira, violento, incivilizado e subdesenvolvido, o distante rincão tem hoje cerca de 1,6 milhão de habitantes e aproximadamente 1,26 milhão de eleitores. Quase todos eles da direita e da extrema-direita reacionárias. Nas terras de Rondon quase não existe opção de se votar na esquerda ou mesmo em candidatos mais progressistas. Raríssimas vezes se elege um deputado ou até mesmo um vereador, aqui e ali, que seja esquerdista. O Estado tem hoje 533 vereadores, 52 prefeitos, 24 deputados estaduais, 8 deputados federais, 3 senadores, um governador e um vice-governador. E quase todos eles bolsonaristas ferrenhos e militantes da corrente ideológica de Javier Milei da Argentina, de Benjamin Netanyahu de Israel e até de Donald Trump dos Estados Unidos. Traduzindo: quase todos são reacionários ao extremo.

Em Rondônia, durante as campanhas eleitorais, quase não se fala da esquerda e nem dos candidatos mais progressistas, embora se acredite que pelo menos uns 30 por cento do eleitorado vote fielmente nesta corrente política. Pedir votos e não levar em consideração esse segmento ideológico com seus muitos simpatizantes pode resultar em fracasso nas urnas, como aconteceu, por exemplo, nas últimas eleições para prefeito da capital. Mas o eleitorado, de maneira geral, tende a seguir e também a votar religiosamente em seus reacionários candidatos. Principalmente no interior da província, que tem quase 70 por cento do total de eleitores. Mesmo sendo um estado composto em sua maioria por gente pobre e miserável, em Rondônia basicamente em todas as eleições, só se elegem latifundiários, comerciantes, grandes empresários e toda sorte de gente rica e poderosa. E a província não sai do buraco.

E o buraco em Rondônia parece que não tem fim. Se o cidadão daqui quiser ver o fundo do poço tem que olhar para cima. Problemas existem de todos os tamanhos. E grande parte da classe política local e consequentemente dos candidatos às próximas eleições não veem nada, ou fingem que não veem. Rondônia nunca teve em sua suja e imunda capital um hospital de pronto-socorro decente, tem uma só universidade pública com um curso de Medicina, mas não tem hospital universitário, a energia elétrica é a mais cara do Brasil, a BR-364 tem o pedágio também mais caro do país, no rio Madeira não existe sequer um porto rampeado para os passageiros. As escassas passagens aéreas são caríssimas. Se eu fosse pedir votos me envergonharia se tivesse que viajar de carro ou de ônibus para Rio Branco ou Cuiabá e de lá seguir viagem para outros destinos. Por que ninguém tenta resolver tudo isto? 

De um modo geral, o eleitor de Rondônia está parado, acomodado, inerte. Ninguém cobra nada. Ninguém exige nada. Ninguém fala nada. Ou esse eleitor sofre da “Síndrome de Estocolmoou está amarrado no famoso e antigo voto de cabresto. O Estado teve durante os últimos oito anos um governador bolsonarista, que pouco ou nada fez pelo povo sofrido daqui. Mas estranhamente está-se querendo eleger outro bolsonarista. E a questão não é eleger um bolsonarista, um petista ou uma pessoa de qualquer outra corrente política. É preciso votar em candidatos que se preocupem com a miséria e com o sofrimento de seus eleitores. Precisamos de energia elétrica mais barata, pois somos produtores. Não queremos mais pedágios. Necessitamos de um hospital de pronto-socorro para a capital. Devíamos viajar de avião com boa oferta de passagens aéreas. Precisamos de um porto no rio Madeira. Esgoto e água tratada para Porto Velho seriam demais? Genialidade aqui é sofrer sem parar.




*Foi Professor em Porto Velho.