quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Querem invadir a minha casa


Querem invadir a minha casa


Professor Nazareno*


Sou professor aposentado, tenho quase 70 anos de vida, sempre trabalhei dando aulas, tenho seis filhos de um único casamento com uma única esposa, jamais defendi o slogan Deus, Pátria e Família”, nunca deixei de pagar meus impostos em dia, não tenho problemas com o Fisco, vivo em paz com a Receita Federal, pago IPTU todo ano à Prefeitura de Porto Velho, meu IPVA está em dia, todos os anos de eleições vou às urnas cumprir com meus deveres cívicos, vez ou outra ajudo a quem precisa, tenho excelentes relacionamentos com os meus vizinhos, nunca usei qualquer tipo de drogas, enfim, me considero um cidadão pacato, longe de qualquer tipo de suspeitas. Porém ouvi dizer que estão querendo invadir a minha casa, situada num humilde bairro de minha cidade. Não sei o que fiz para merecer tamanho castigo, tamanha agressão, já que tudo o que fiz e faço é para ajudar os mais necessitados.

Não sei ainda quem quer invadir a minha residência e nem o objetivo. Mas alguns vizinhos me falaram que é para tomar os meus poucos pertences. Quando você não tem como se defender, perde totalmente a sua soberania. Parece que pessoas invejosas e sem caráter entendem que, por terem armas sofisticadas podem mandar na vida dos outros. Qualquer pessoa pode seguir a religião que quiser. Pode torcer pelo time de futebol que achar melhor e pode também ter sua preferência política sem ser incomodado por quem detém o poder. Mas vários vizinhos meus já tiveram o recesso do seu lar invadido por estes mal-feitores. Tomaram-lhes tudo e não deram nenhuma satisfação à Justiça nem a ninguém. Aliás, nestes casos nada funciona para nos defender dos ataques e das injustiças cometidas. Ou concorda-se com todas as exigências apresentadas ou será atacado e morto sem perdão.

O pior de tudo é que eu descobri que dentro de minha própria casa tem pessoas que concordam normalmente com que nós sejamos atacados e vilipendiados em nossa intimidade por estes facínoras. Eu soube que pelo menos três dos meus filhos já se aliaram a esses bandidos e agressores. Minha esposa se mantém neutra na esperança de que com a invasão as coisas melhorem para todos nós. Coitada! Isso nunca aconteceu. Nossa casa é humilde como já disse, mas só de litoral tem mais de sete mil quilômetros. Temos rios caudalosos e lindíssimos, temos vários tipos de clima e um povo heroico e trabalhador. A maior floresta do mundo é no meu quintal. Não aprovamos guerra nem brigas, já que presamos pela paz e pelo diálogo e entendimento entre os povos e nações. Mas ninguém quer saber disso. As armas sofisticadas e modernas que eles têm impõem as suas maléficas vontades. Mas haverá saída? 

Não! Dificilmente um entendimento neste caso será levado em consideração. A invasão virá e será aplaudida por muitos dos filhos da terra, meus vizinhos e conhecidos. Principalmente porque meus filhos não entendem muito de História e nem do nosso passado. Ultimamente vi alguns deles frequentando Igrejas reacionárias que geralmente têm uma compreensão distorcida da realidade. A fome e a miséria continuarão como coisas normais. Em todas as casas invadidas durante o último século, por exemplo, a realidade nunca mudou nelas. Somente os invasores calhordas é que lucraram ao roubar toda a riqueza que encontraram dentro dessas casas saqueadas. E para que a minha casa não seja invadida nem saqueada eu só preciso saber escolher direito quem vai me representar nos próximos anos. Eu só preciso encontrar, entre os amigos, quem me defenda. Estou com medo: quem deveria me defender já disse a todos que apenas vai abrir os portões se o inimigo quiser entrar.





*Foi Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Porto Velho do céu vermelho!

Porto Velho do céu vermelho!


Professor Nazareno*


O dia 11 de agosto de 2026 poderá entrar para a insólita história de Porto Velho, a suja, imunda, atrasada e distante capital de Roraima. Em pleno verão amazônico, um temporal assustou grande parte dos moradores. Já havia um bom tempo que as chuvas não davam as caras durante o verão. Só fumaça e fuligem é que se viam por estas bandas. E eis que, de repente, um céu de um vermelho intenso e misterioso se formou de uma hora para outra e que foi seguido de um forte temporal. O feio e horroroso hino de Rondônia fala de um azul muito intenso em uma de suas estrofes. Mentira pura! Os céus de Rondônia nas últimas décadas sempre foram de um cinza chumbo, cheio de fuligem e que durante o verão nada se via. O acanhado aeroporto fechava e os precários hospitais se enchiam de velhos e crianças acometidos de asma, bronquite, pneumonia e outras doenças provocadas pela densa fumaça.

Mas chove bem neste verão sem fumaça! Dizem que este é o segundo ano que Porto Velho não tem mais a fumaça criminosa. Mas o que intrigou mesmo neste dia anormal foi o vermelho intenso no céu antes do temporal. Muita gente disse que foi um incêndio do outro lado do rio Madeira, que foi logo apagado pela chuvarada que se seguiu. Se foi mesmo fogo na mata, os órgãos de defesa do meio ambiente deveriam investigar. Outros já disseram que era a vinda de Jesus Cristo que estava se consumando em terras karipunas. Acho que não: o que Jesus estaria fazendo perto de Porto Velho, uma cidade cujo protetor é o Satanás?  No entanto, outras pessoas, em tom jocoso, disseram que foi um aviso ao povo numa época de eleições. O vermelho vai ganhar as eleições por aqui, diziam em tom de brincadeira. O comunismo é vermelho, a nossa bandeira devia ser vermelha e o PT é todo vermelho.

Ora, numa cidade que é uma capital, mas não tem sequer um hospital de pronto-socorro decente. Um lugar onde os institutos ligados ao meio ambiente e à qualidade de vida só mostram desgraças e índices vergonhosos. Não tem nenhuma mobilidade urbana. Não tem redes de esgotos e nem saneamento básico ou água tratada. Não tem um porto rampeado. A violência é uma coisa quase normal e que grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza, enfim, um lugar ermo, uma curva de rio em que só falta mesmo é dar uma chuva de bosta, eu imaginei que se tratava exatamente disso: a tão esperada chuva de merda. Porto Velho precisa mudar, senão as pessoas daqui é que se mudarão. Aliás, como já está acontecendo. Ninguém aguenta mais pagar tão caro por passagens aéreas escassas, devíamos ter energia elétrica mais em conta, pois somos produtores de muita energia limpa para fora. 

   Diante do que se vive diariamente em Porto Velho e em Rondônia, chover fezes humanas é o mínimo que pode nos acontecer. Aqui só falta o garimpo assassino do rio Madeira voltar a poluir as nossas águas e o fogo voltar a queimar o que ainda resta de floresta. Mesmo assim, a natureza não vai aprontar nada de tão grave como fez na Venezuela e na Colômbia com os terremotos. O sul do Brasil já está convivendo com fortes tornados, algo impensável há pouco tempo. Embora o tempo aqui seja “estranho, muita gente daqui procura remar contra a maré mesmo. O Arraial Flor do Maracujá, por exemplo, será realizado este ano em pleno mês de setembro, como se as festas juninas não tivessem tempo para acontecer. Seria bom que todos respeitássemos a natureza. Céu vermelho em agosto pode não ser muita coisa, mas pode ser algum aviso. Será que algo está para acontecer nas Terras de Rondon e não estamos sabendo de nada? Vamos rezar, gente!





                            *Foi Professor em Porto Velho.