A cultura do colete salva-vidas
Professor Nazareno*
Eu
não sei nadar. Consigo, sem problemas, entrar numa piscina para me divertir.
Mas se for num grande volume de água, como um lago, o rio Madeira ou mesmo no
mar, não me arrisco muito. Morreria afogado rapidamente. Durante cinco anos de
minha vida, entre 1981 e 1985, morei em Calama no baixo Madeira e todo mês
viajava de barco até Porto Velho. Ainda hoje vou duas ou três vezes por ano até
o distrito ribeirinho. Como não há estradas, a única maneira é pegando um
barco. Mês passado, por exemplo, fui até a Ilha de Assunção para participar dos
festejos em homenagem a São Sebastião. Muitas pessoas de várias outras
localidades também foram. E, claro, todos navegando sobre as águas caudalosas do
velho e lendário Madeira, hoje um rio quase morto por causa das barragens em
seu leito, porém ainda com uma profundidade enorme e potencial de perigo.
Nestas
embarcações observa-se quase sempre que os muitos passageiros não usam seus
flutuadores. Nenhum deles e nem a tripulação. A profundidade média do velho
Madeira nesta época de inverno ultrapassa os 10 ou 15 metros
facilmente. Sempre que eu viajo uso o colete que comprei. Não sei nadar bem e
além do mais “não sou cristão para andar sobre as águas”.
Nas lanchas rápidas, às vezes são mais de 90 passageiros e somente eu usando
aquela boia salva-vidas. Nos barcos, o número de passageiros é até maior
chegando às vezes a 200 pessoas. E todos sem o colete. E todos me
ridicularizando e fazendo piadas comigo. Usar o colete salva-vidas é se
precaver do perigo que pode, a qualquer momento, acontecer. Ninguém entra em um
carro hoje e deixa de usar o cinto de segurança, por exemplo. “Evita-se
levar as multas das autoridades de trânsito”, dizem.
Raríssimas
pessoas pilotam uma motocicleta sem o seu capacete. Além da multa, preteje-se a
vida também. Mas em um barco de recreio nos rios amazônicos quase ninguém quer
usar o colete. No recente naufrágio da lancha rápida no encontro das águas
perto de Manaus possivelmente poucos passageiros estavam usando. Percebe-se
pelas imagens das pessoas boiando nas caudalosas águas do Solimões e do Negro.
O saldo até agora é trágico: pelo menos 3 mortos e 6
desaparecidos. A profundidade média ali é quase 90 metros. A lancha que afundou
está lá embaixo a mais de 50 metros na escuridão misteriosa. Há um relato de
uma mãe que deu o colete que estava usando para salvar seu filho. O rapaz
conseguiu escapar, mas a cuidadosa mãe afundou para sempre ali. Se ambos
estivessem usando obrigatoriamente o utensílio é bem possível que tivessem
saído ilesos.
Para
se navegar no rio Sena em Paris, é obrigatório o uso de coletes salva-vidas em
todos os passageiros. E o rio parisiense é raso e estreito se comparado ao Madeira,
Negro, Tapajós, Amazonas, Solimões ou outros rios amazônicos. O Sena não
oferece perigo algum. No rio Danúbio em Viena é a mesma coisa: rigor na
segurança. No barco Bateau Mouche, por exemplo, é obrigatória a presença de um marinheiro
e de um bombeiro em todas as viagens para evitar qualquer risco. Mas Paris e
Viena são Primeiro Mundo, bem diferentes das barrancas esquecidas dos perigosos
rios amazônicos. Em Porto Velho, para se pegar um barco o perigo já começa em
terra: descer um vergonhoso barranco íngreme, enlameado, escorregadio e traiçoeiro.
Quando uma embarcação dessas afunda, assolada pelos terríveis banzeiros, não dá
tempo para nada. Se estiver sem a boia, já era! Não conheço a legislação, mas sei que a Marinha do Brasil obriga o uso do colete.
*Foi Professor em Porto
Velho.

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