domingo, 1 de fevereiro de 2026

BR-364: pedágio veio para ficar

BR-364: pedágio veio para ficar

 

Professor Nazareno*

 

        A cobrança do pedágio na BR-364 não é uma novela mexicana como muitos, de forma confortável, ainda pensam. Muito menos achar que, de uma hora para outra, a suspensão dessas taxas sejam já favas contadas. Esse pedágio veio para ficar eternamente para quem usa essa estrada que corta Rondônia de sul a norte ao longo de pouco mais de 700 quilômetros entre Vilhena e a capital Porto Velho. Privatizada ainda no governo de Bolsonaro por intermédio de seu ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo, essa perigosa rodovia também teria o mesmo destino se fosse no governo petista de Lula ou de outro qualquer. Entregar de mão beijada o rico e pujante patrimônio dos rondonienses para os forasteiros tem sido uma praga que nos acompanha desde épocas passadas. E foi assim com o belo rio Madeira, a Ceron e a histórica EFMM.

Tudo daqui, em muito pouco tempo, será vendido para quem é de fora, já que é notório que empresários ricos e endinheirados não existem em terras karipunas. Quando o capital e o governo do PT, ainda no segundo mandato de Lula, decidiram estuprar o rio Madeira e construir duas grandes hidrelétricas nele sem levar em conta os impactos ambientais e a destruição da natureza local, muitos rondonienses foram às ruas exigir “hidrelétricas, já!”. Toda a energia gerada pelas turbinas do Madeira foi levada para fora do Estado. Para isso, os habitantes locais “ganhariam” de presente um shopping center para se divertirem. E assim foi feito. Porém o maior regalo que os rondonienses ganharam foi a enchente histórica de 2014 e o aumento exorbitante nas contas de sua energia elétrica. O rio Madeira está praticamente morto hoje em dia com a sua correnteza domada.

A privatização da BR-364 é uma das maiores ironias políticas que se conhece. A esmagadora maioria dos eleitores que residem em seu entorno são da direita e da extrema-direita reacionárias. Os usuários contumazes da estrada receberam do seu “Mito” essa privatização talvez como um reconhecimento ao contrário. Agora não se pode mais dizer que Bolsonaro nunca fez nada por Rondônia e também por sua gente. “Lula nos deu as hidrelétricas e Bolsonaro privatizou a 364. Esses presidentes amam Rondônia, percebe-se! Já a classe política local foi convivente o tempo inteiro com as duas coisas. Reclamar agora do preço do pedágio em um ano eleitoral é muita hipocrisia. Porém, o festival de enganações continua: quando, em primeira instância, o pedágio foi suspenso, apareceram vários pais da ação judicial. “Vitória para o povo de Rondônia”, gritavam os candidatos.

Quero ver quando a Justiça reverter essa primeira decisão sobre o pedágio. E não vai demorar muito. Nem fazer manifestações o povo que foi prejudicado poderá mais, a Justiça já decidiu que quem interditar a BR-364 pagará a “irrisória” quantia de 100 mil reais por hora. Essa cobrança do pedágio será para sempre. E todos os rondonienses terão que engolir calados. Já está decidido. Os preços das mercadorias vão disparar em todas as 52 cidades do Estado, é só uma questão de tempo. Enquanto isso, a briosa Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia perdoou a bagatela de mais de 2 bilhões de reais em ICMS da Energisa, aquela mesma companhia que, fala-se, teria comprado a Ceron, patrimônio de todos os rondonienses, por apenas 50 mil reais. Mas é assim mesmo: a “extrema-inteligência” do eleitor karipuna vai fazer o povo daqui votar de novo nos seus algozes de sempre: os políticos. Será que o rondoniense sofre da Síndrome de Estocolmo?

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

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