sábado, 21 de fevereiro de 2026

Nem Deus, nem Pátria, nem Família

Nem Deus, nem Pátria, nem Família

 

Professor Nazareno*

 

            O outro slogan, que contraria o título acima, pode até não ser fascista, mas foi usado por mais de vinte anos por Mussolini e foi criado durante a unificação italiana. É muito utilizado hoje em dia pela extrema-direita no mundo inteiro. Mas é uma farsa, é algo inútil, inapropriado, hipócrita e sem nenhum fundamento lógico. Só os idiotas, semianalfabetos e desprovidos de leitura de mundo caem nessa lorota que serviu e serve às ditaduras de direita espalhadas pelo mundo. Deus talvez nem exista. É apenas uma espécie da criação humana. “Um delírio”, como disse Richard Dawkins em seu famoso livro. O Deus de Espinosa seria o mais crível dentre todos eles e o que deveria ser mais aceitável num mundo moderno.  Há muitos deuses em que se acreditam. Sempre houve. E todos eles criados pelo homem. E cada um deles é importante só na cultura que o criou.

Pátria é só uma aberração política e absurda que não tem sentido algum. Como pode haver uma pátria se há tanta desigualdade, guerras, fome, perseguições e injustiças? Pátria pode ser o lugar onde se nasce e onde se vive. “É a terra natal, com a qual se estabelece um vínculo emocional, cultural e histórico. Vai muito além do território físico, envolvendo identidade, tradições, língua, símbolos nacionais e o sentido de pertencimento a um povo”. Mas, no caso do Brasil, é algo ligado a injustiças sociais, à exploração humana, ao preconceito, à violência, à pobreza e à miséria. “Os muros que separam quintais” permitem que somente uns poucos e raros privilegiados cidadãos tenham uma vida decente enquanto a grande maioria vive à margem de tudo. E são exatamente só esses “cidadãos de bem” que veem alguma utilidade na pátria que habitam.

Já família é definida como “um grupo de pessoas unidas por laços de sangue, adoção, casamento ou, fundamentalmente, pelo afeto e convivência, agindo como base da sociedade e núcleo de acolhimento. É a célula da sociedade”. Tudo conversa fiada, tudo mentira e hipocrisia. Família hoje é uma instituição já falida e fadada ao atraso e ao anacronismo. O divórcio, a união estável, a falta de compromisso, dentre muitos outros fatores, já destruíram o conceito de família há tempos. Todo mundo conhece pessoas que já estão no terceiro ou no quarto casamento e em cada uma dessas “uniões”, que eram para sempre, há filhos e descendentes. É comum um homem ser casado com uma mulher e ter várias amantes. Assim como uma mulher casada se relacionar com vários outros parceiros. Deve ser a tal da família tradicional de que tanto se fala na mídia e na sociedade.

Não se pode aceitar um slogan mentiroso, asqueroso, nojento e hipócrita como “Deus, Pátria e Família” só para dominar e enganar as outras pessoas. É preciso quebrar essas regras invisíveis que se criaram do nada. A política não é só a polarização entre direita e esquerda. É algo muito mais produtivo dentro de uma sociedade. “A ciência política é a mais importante de toda a polis”, já pregava o sábio Aristóteles. Por isso, é preciso romper com a canalhice e a hipocrisia reinantes. É preciso sair dessa prisão mental. Ninguém deve ser coerente e certinho o tempo todo. Ninguém deve lutar para caber numa caixa ridícula que os outros criaram. Ninguém deve viver engessado numa vida que é muito curta. O ser humano não nasce pronto. E ter aquela velha opinião formada sobre tudo é algo que já foi superado há tempos. “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, já cantava Raul Seixas.

 

 

                                                                                                            

*Foi Professor em Porto Velho.

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