Nem
Deus, nem Pátria, nem Família
Professor
Nazareno*
O outro slogan,
que contraria o título acima, pode até não ser fascista, mas foi usado por mais
de vinte anos por Mussolini e foi criado durante a unificação italiana. É muito
utilizado hoje em dia pela extrema-direita no mundo inteiro. Mas é uma farsa, é
algo inútil, inapropriado, hipócrita e sem nenhum fundamento lógico. Só os idiotas,
semianalfabetos e desprovidos de leitura de mundo caem nessa lorota que serviu e
serve às ditaduras de direita espalhadas pelo mundo. Deus talvez nem exista. É
apenas uma espécie da criação humana. “Um delírio”, como
disse Richard Dawkins em seu famoso livro. O Deus de Espinosa seria o
mais crível dentre todos eles e o que deveria ser mais aceitável num mundo
moderno. Há muitos deuses em que se
acreditam. Sempre houve. E todos eles criados pelo homem. E cada um deles é
importante só na cultura que o criou.
Pátria é só uma
aberração política e absurda que não tem sentido algum. Como pode haver uma
pátria se há tanta desigualdade, guerras, fome, perseguições e injustiças? Pátria
pode ser o lugar onde se nasce e onde se vive. “É a terra natal, com a
qual se estabelece um vínculo emocional, cultural e histórico. Vai muito além do território físico,
envolvendo identidade, tradições, língua, símbolos nacionais e o sentido de
pertencimento a um povo”. Mas, no caso do Brasil, é algo ligado a injustiças sociais, à exploração
humana, ao preconceito, à violência, à pobreza e à miséria. “Os muros
que separam quintais” permitem que somente uns poucos e raros
privilegiados cidadãos tenham uma vida decente enquanto a grande maioria vive à
margem de tudo. E são exatamente só esses “cidadãos de bem” que veem
alguma utilidade na pátria que habitam.
Já família é
definida como “um grupo de pessoas unidas por laços de sangue,
adoção, casamento ou, fundamentalmente, pelo afeto e convivência, agindo como base
da sociedade e núcleo de acolhimento. É a célula da sociedade”. Tudo conversa fiada,
tudo mentira e hipocrisia. Família hoje é uma instituição já falida e fadada ao
atraso e ao anacronismo. O divórcio, a união estável, a falta de compromisso,
dentre muitos outros fatores, já destruíram o conceito de família há tempos.
Todo mundo conhece pessoas que já estão no terceiro ou no quarto casamento e em
cada uma dessas “uniões”, que eram para sempre, há filhos
e descendentes. É comum um homem ser casado com uma mulher e ter várias
amantes. Assim como uma mulher casada se relacionar com vários outros
parceiros. Deve ser a tal da família tradicional de que tanto se fala na mídia
e na sociedade.
Não se pode
aceitar um slogan mentiroso, asqueroso, nojento e hipócrita como “Deus,
Pátria e Família” só para dominar e enganar as outras pessoas. É
preciso quebrar essas regras invisíveis que se criaram do nada. A política não
é só a polarização entre direita e esquerda. É algo muito mais produtivo dentro
de uma sociedade. “A ciência política é a mais importante de toda a polis”,
já pregava o sábio Aristóteles. Por isso, é preciso romper com a canalhice e a
hipocrisia reinantes. É preciso sair dessa prisão mental. Ninguém deve ser
coerente e certinho o tempo todo. Ninguém deve lutar para caber numa caixa
ridícula que os outros criaram. Ninguém deve viver engessado numa vida que é
muito curta. O ser humano não nasce pronto. E ter aquela velha opinião formada
sobre tudo é algo que já foi superado há tempos. “Prefiro ser essa
metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”,
já cantava Raul Seixas.
*Foi Professor em Porto
Velho.

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