O
Brasil esquece muito rápido!
Professor
Nazareno*
O escritor Lima
Barreto disse que “o Brasil não tem povo, tem público”,
isso talvez porque povo luta pelos seus direitos, já o público assiste a tudo
de camarote. Outra frase, sem um autor conhecido e também muito incômoda: “Visto
de fora, o Brasil é grotesco”, povoa o nosso anedotário popular há
tempos. Atribui-se erradamente a Charles de Gaulle, ex-presidente da França,
outra fala igualmente polêmica: “O Brasil não é um país sério”.
Nelson Rodrigues, escritor e dramaturgo, censurado em Rondônia,
disse que “o brasileiro tem complexo de vira-latas”. Ele
falou essa expressão para descrever a inferioridade que os brasileiros, de um
modo geral, se
colocam, voluntariamente,
em face do resto do mundo. Segundo ele, nós sofremos de uma
falta crônica de autoestima e de fé em nós mesmos, agindo como um “Narciso
às avessas”, que cospe na própria imagem.
Na verdade, não é o Brasil, somos nós
brasileiros que nos esquecemos de tudo. E muito rápido. Esquecemos
o colonialismo. Esquecemos a escravidão. Esquecemos os golpes de
Estado. Esquecemos as ditaduras. Esquecemos os roubos. Esquecemos
as perseguições. Esquecemos a corrupção. Esquecemos a tortura. Esquecemos
o exílio. Esquecemos nossa própria História. Por falta de uma educação
de qualidade e por falta de uma boa leitura de mundo e de conhecimentos estamos
fadados a repetir, com toda força, as mazelas que sofremos através dos tempos.
Como quem sofre da “Síndrome de Estocolmo”, esquecemos
todo o sofrimento e nos aliamos ao agressor, aquele que nos impôs tamanha
desgraça. Assim também é na política, no voto e na democracia, quando
vergonhosamente mostramos ao mundo dito civilizado a nossa triste, cruel e
patética face.
No domingo
próximo, por exemplo, metade dos usuários do SUS, Sistema Único de Saúde, sem
saber o porquê, deve votar em quem promete privatizar esse sistema.
Metade dos beneficiários do Bolsa-Família afirma que vão votar no único
candidato que vai extinguir, em dois anos, esse programa social. A
maioria dos empresários do agro votará em quem vai favorecer o agro dos Estados
Unidos. Muitos assalariados pedem voto e votarão também em quem diz que
vai acabar com direitos trabalhistas e sequer foi votar na escala 5 X 2, que
beneficiava todos os trabalhadores do país. Quase toda a classe média votará em
quem vai subir o custo de vida, a maioria das vítimas da violência votará em um acusado de ser da milícia e do crime. Ou seja, metade do Brasil votará na sua
própria autodestruição. Pior, insetos e inseticida comemoram juntos na
mesma festa.
Para quem defende
o patriotismo não há nada mais ridículo do que ir a uma manifestação portando a
bandeira de outro país. Os Estados Unidos imperialistas e Israel sionista são
os eleitos por essa gente descerebrada. Nada para o Brasil, tudo para
esses países! Esse é o slogan que muitos desses brasileiros
patriotas defendem. Pedir que uma potência estrangeira nos bombardeie com
armas nucleares é coisa surreal que certamente nenhum cidadão, de qualquer outro
país, vai entender. Votemos em massa em quem nos negligenciou as vacinas para a
Covid-19, que matou mais de 710 mil dos nossos cidadãos. Vamos eleger quem quase
golpeou a nossa democracia e tentou matar os que foram democraticamente eleitos.
Vamos eleger quem criminaliza o certo e defende os ricos. Infelizmente metade
do Brasil é isso, enquanto a outra metade luta, crê na democracia, nos direitos
humanos e defende a autodeterminação soberana dos povos. Quem vencerá?
*Foi Professor em Porto Velho.
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