quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Brasil esquece muito rápido!

O Brasil esquece muito rápido!

 

Professor Nazareno*

 

O escritor Lima Barreto disse que “o Brasil não tem povo, tem público”, isso talvez porque povo luta pelos seus direitos, já o público assiste a tudo de camarote. Outra frase, sem um autor conhecido e também muito incômoda: “Visto de fora, o Brasil é grotesco”, povoa o nosso anedotário popular há tempos. Atribui-se erradamente a Charles de Gaulle, ex-presidente da França, outra fala igualmente polêmica: “O Brasil não é um país sério”. Nelson Rodrigues, escritor e dramaturgo, censurado em Rondônia, disse que “o brasileiro tem complexo de vira-latas”. Ele falou essa expressão para descrever a inferioridade que os brasileiros, de um modo geral, se colocam, voluntariamente, em face do resto do mundo. Segundo ele, nós sofremos de uma falta crônica de autoestima e de fé em nós mesmos, agindo como um “Narciso às avessas”, que cospe na própria imagem.

 Na verdade, não é o Brasil, somos nós brasileiros que nos esquecemos de tudo. E muito rápido. Esquecemos o colonialismo. Esquecemos a escravidão. Esquecemos os golpes de Estado. Esquecemos as ditaduras. Esquecemos os roubos. Esquecemos as perseguições. Esquecemos a corrupção. Esquecemos a tortura. Esquecemos o exílio. Esquecemos nossa própria História. Por falta de uma educação de qualidade e por falta de uma boa leitura de mundo e de conhecimentos estamos fadados a repetir, com toda força, as mazelas que sofremos através dos tempos. Como quem sofre da “Síndrome de Estocolmo”, esquecemos todo o sofrimento e nos aliamos ao agressor, aquele que nos impôs tamanha desgraça. Assim também é na política, no voto e na democracia, quando vergonhosamente mostramos ao mundo dito civilizado a nossa triste, cruel e patética face.

No domingo próximo, por exemplo, metade dos usuários do SUS, Sistema Único de Saúde, sem saber o porquê, deve votar em quem promete privatizar esse sistema. Metade dos beneficiários do Bolsa-Família afirma que vão votar no único candidato que vai extinguir, em dois anos, esse programa social. A maioria dos empresários do agro votará em quem vai favorecer o agro dos Estados Unidos. Muitos assalariados pedem voto e votarão também em quem diz que vai acabar com direitos trabalhistas e sequer foi votar na escala 5 X 2, que beneficiava todos os trabalhadores do país. Quase toda a classe média votará em quem vai subir o custo de vida, a maioria das vítimas da violência votará em um acusado de ser da milícia e do crime. Ou seja, metade do Brasil votará na sua própria autodestruição. Pior, insetos e inseticida comemoram juntos na mesma festa.

Para quem defende o patriotismo não há nada mais ridículo do que ir a uma manifestação portando a bandeira de outro país. Os Estados Unidos imperialistas e Israel sionista são os eleitos por essa gente descerebrada. Nada para o Brasil, tudo para esses países! Esse é o slogan que muitos desses brasileiros patriotas defendem. Pedir que uma potência estrangeira nos bombardeie com armas nucleares é coisa surreal que certamente nenhum cidadão, de qualquer outro país, vai entender. Votemos em massa em quem nos negligenciou as vacinas para a Covid-19, que matou mais de 710 mil dos nossos cidadãos. Vamos eleger quem quase golpeou a nossa democracia e tentou matar os que foram democraticamente eleitos. Vamos eleger quem criminaliza o certo e defende os ricos. Infelizmente metade do Brasil é isso, enquanto a outra metade luta, crê na democracia, nos direitos humanos e defende a autodeterminação soberana dos povos. Quem vencerá?

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

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