quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Não acredito: eu fui eleito!

Não acredito: eu fui eleito!

 

Professor Nazareno*

 

            Eu fui eleito nas últimas eleições do Brasil. Uma das maiores desgraças que podia ter acontecido na minha vida. O mais surpreendente foi o número avassalador de votos que recebi desta gentalha semianalfabeta e quase sem leitura de mundo. O detalhe é que eu nem queria me candidatar, mas me convenceram de que a grana do Fundo Eleitoral é muita alta e por isso, resolvi entrar, muito a contragosto, na política. Imaginei que se fizesse uma campanha insossa, prometendo o absurdo e defendendo ideias já ultrapassadas e monstruosas ninguém votaria em mim. Teria, no máximo, uns cinco ou dez votos, colocava a grana bolso e só nas próximas eleições apareceria de novo para pegar mais dinheiro fácil. Fiz alguns discursos e dei só umas entrevistas nos sites e nos canais de televisão e emissoras de rádio de minha família. Nada de aparecer em público.

            Defendi a matança de todos os índios, pois são selvagens que “não servem para nada”, só para dar despesas à nação, já que eles nada produzem. Disse que a Amazônia tinha que ser totalmente derrubada para dar lugar ao pasto e a outras plantações. “Aquele mato imprestável não alimenta ninguém”. Afirmei que lutaria pelo fim da licença-maternidade, que é um privilégio para as mulheres, e que o feminicídio não devia existir em nossas leis. Falei que a polícia tinha que matar todos os bandidos que encontrasse pela frente. Um limpa na sociedade que trabalha. O Fundo Eleitoral tinha que ser aumentado em 500 ou 600 por cento todo ano. Os políticos têm que ser beneficiados, pois trabalham muito para sustentar a sociedade, que quer viver de esmolas oficiais. A escala de trabalho 6 X 1 não poderia ter acabado. O ideal seria uma escala 7 X 0 para esses preguiçosos.

Em BOLSONARÓPOLIS, capital de Rondônia, afirmei que o progresso só virá depois que encherem o rio Madeira de garimpeiros extraindo o ouro e outras riquezas. Mercúrio não faz mal a ninguém. Na suja e fedorenta capital desse Estado nada de fazer rede de esgotos e nem de saneamento básico. Beber água de merda deve ser bom, pois há anos as pessoas bebem e nunca reclamaram de nada. Na parte social, as autoridades devem fazer bolos com centenas de metros e trazer cantores bregas para divertir as pessoas. Falei também que deveríamos expulsar todos os pobres das cidades. A cidade é um lugar para ricos, o pobre enfeia tudo por onde anda. No plano internacional, entendo que os eleitos deviam trazer o Trump e outros norte-americanos para nos administrar. Daríamos a eles nossas terras raras e deixaríamos que eles implantassem bases por aqui.

Em meus discursos disse que casamentos entre pessoas do mesmo sexo é uma excrescência. Falei da importância de se censurar algumas obras “que não servem para crianças” e defendi a transformação de todas as escolas públicas em estabelecimentos militares com disciplina de quartel. Atestei que os ricos desse país não deveriam pagar mais impostos e tentei convencer a todos que a Petrobras, os Correios, as estradas e todas as instituições púbicas deveriam ser privatizadas. Falei da pouca importância do STF, que deveria ser fechado e todos os seus ministros cassados e caçados. Devíamos também criar eleições indiretas para Presidente da República e para governadores e o Legislativo tinha que ser tutelado pelo Poder Executivo. Defendi tudo isso pensando que os eleitores eram conscientes e assim não votariam em mim. Só que quebrei a cara! Fui eleito com a maior votação da História. Da próxima vez prego o que Cristo pregou, para não ter votos.

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

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