quarta-feira, 25 de março de 2026

Rondônia, protegida pelo Diabo

Rondônia, protegida pelo Diabo

 

Professor Nazareno*

 

            Se Deus existe, certamente Ele nunca quis saber de Rondônia e nem de sua gente. Rincão atrasado, distante e subdesenvolvido, o insólito Estado foi resultado direto de uma das maiores devastações da natureza de que se tem notícia: a derrubada da floresta amazônica e a matança de povos originários foi o pontapé inicial para se instalar “a mais nova estrela no azul da União”, isso ainda nas décadas finais do século passado. E de lá para cá as agressões sistemáticas ao meio ambiente continuaram a todo vapor. Entra ano e sai ano e as agruras e lástimas continuam a infernizar a vida dos poucos habitantes que ainda insistem em permanecer por aqui. Chuvas torrenciais com muita lama no inverno e queimadas apocalípticas com muita fumaça tóxica nos meses de verão é uma dolorosa rotina que acompanha o morador daqui. É como se o Belzebu fosse o padroeiro do lugar.

Como se todo este infortúnio fosse pouco, ainda tem a classe política local. Por causa dela, o jovem Estado de Rondônia sempre viveu dias tenebrosos. Longe, isolada, atrasada, inculta, subdesenvolvida e muito pobre, essa distante e amaldiçoada província nunca, jamais na vida, deu notícias alvissareiras para o restante do Brasil. As novidades daqui, principalmente na área da política, são as mais sombrias possíveis. Mas apesar de todas essas desgraças visíveis, o insólito rincão ficaria, numa hipotética divisão territorial do Brasil, do lado mais conservador. Quando o deputado federal Paulo Bilynskyj propôs criminosamente dividir o Brasil em “Brasil do Norte” e “Brasil do Sul”, o mapa que ele mostrou tinha Rondônia como pertencendo ao Norte, mais subdesenvolvido e de maioria esquerdista. Um engano, pois Rondônia tem a extrema-direita reacionária em seu sangue.

Não há políticos bons, trabalhadores e inteligentes em Rondônia. Nunca houve. Um sequer que apareça e se destaque nacionalmente é conjunto vazio. E o pior: todos os anos de eleições muitos deles são eleitos e reeleitos pelo povão ignaro. Nem direita nem esquerda existem nestas plagas. A polarização daqui é para escolher quem é o pior dentre os candidatos a ser eleito. E mais de 70 por cento deles é da extrema-direita bolsonarista. Esquerda, se existe, está incubada, escondida, disfarçada, dissimulada, camuflada atrás dos seus gordos contracheques e também lá nas redes sociais. Apesar de ter os maiores percentuais de seguidores da fé cristã evangélica, Rondônia só pode ser obra de Lúcifer. Deus, o Todo Poderoso, não perderia tempo com um lugar assim. Até a única atração turística da capital é uma ferrovia velha e abandonada e que já tem um dono: é o Tinhoso.

A Ferrovia do Diabo foi vendida para forâneos. O porto rampeado do rio Madeira já foi retirado, levado para Manaus. Lá só restam o lixo, a catinga, o barranco escorregadio e fedorento, a sujeira, o lodo, os ratos e os urubus. A capital do Estado é uma espécie de Reino das Trevas protegido pelo Capiroto. Porto Velho é a pior dentre as 27 capitais do Brasil em qualidade de vida, saneamento básico e água tratada. Ninguém quer saber de Rondônia. Para vir ao Estado pagam-se pedágios caríssimos se vier de carro. É o Free Flow. E de avião é quase impossível: passagem do Sul Maravilha para cá é até mais cara do que ir à Europa. E não tem disponibilidades. Hospital de Pronto-Socorro, a capital não tem. O “Built to Suit” dos políticos terminou em “beiju de caco. Até o atual governador, que ficou oito anos no poder, prevê uma derrota nas urnas e quer desistir de se candidatar. Não se pode dizer que Rondônia é do senhor Jesus ou de Deus. Deve ser do Cramunhão!

 

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.


Nenhum comentário: