Rondônia,
protegida pelo Diabo
Professor
Nazareno*
Se
Deus existe, certamente Ele nunca quis saber de Rondônia e nem de sua gente.
Rincão atrasado, distante e subdesenvolvido, o insólito Estado foi resultado
direto de uma das maiores devastações da natureza de que se tem notícia: a
derrubada da floresta amazônica e a matança de povos originários foi o pontapé
inicial para se instalar “a mais nova estrela no azul da União”,
isso ainda nas décadas finais do século passado. E de lá para cá as agressões
sistemáticas ao meio ambiente continuaram a todo vapor. Entra ano e sai ano e
as agruras e lástimas continuam a infernizar a vida dos poucos habitantes que
ainda insistem em permanecer por aqui. Chuvas torrenciais com muita lama no
inverno e queimadas apocalípticas com muita fumaça tóxica nos meses de verão é
uma dolorosa rotina que acompanha o morador daqui. É como se o Belzebu
fosse o padroeiro do lugar.
Como se todo este
infortúnio fosse pouco, ainda tem a classe política local. Por causa dela, o
jovem Estado de Rondônia sempre viveu dias tenebrosos. Longe, isolada,
atrasada, inculta, subdesenvolvida e muito pobre, essa distante e amaldiçoada
província nunca, jamais na vida, deu notícias alvissareiras para o restante do
Brasil. As novidades daqui, principalmente na área da política, são as mais sombrias
possíveis. Mas apesar de todas essas desgraças visíveis, o insólito rincão ficaria,
numa hipotética divisão territorial do Brasil, do lado mais conservador. Quando
o deputado federal Paulo Bilynskyj propôs criminosamente dividir o Brasil em “Brasil
do Norte” e “Brasil do Sul”, o mapa que ele
mostrou tinha Rondônia como pertencendo ao Norte, mais subdesenvolvido e de
maioria esquerdista. Um engano, pois Rondônia tem a extrema-direita reacionária
em seu sangue.
Não há políticos
bons, trabalhadores e inteligentes em Rondônia. Nunca houve. Um sequer que
apareça e se destaque nacionalmente é conjunto vazio. E o pior: todos os anos
de eleições muitos deles são eleitos e reeleitos pelo povão ignaro. Nem direita
nem esquerda existem nestas plagas. A polarização daqui é para escolher quem é
o pior dentre os candidatos a ser eleito. E mais de 70 por cento deles é da
extrema-direita bolsonarista. Esquerda, se existe, está incubada, escondida,
disfarçada, dissimulada, camuflada atrás dos seus gordos contracheques e também
lá nas redes sociais. Apesar de ter os maiores percentuais de seguidores da
fé cristã evangélica, Rondônia só pode ser obra de Lúcifer. Deus, o Todo
Poderoso, não perderia tempo com um lugar assim. Até a única atração turística
da capital é uma ferrovia velha e abandonada e que já tem um dono: é o Tinhoso.
A Ferrovia
do Diabo foi vendida para forâneos. O porto rampeado do rio Madeira já foi
retirado, levado para Manaus. Lá só restam o lixo, a catinga, o barranco
escorregadio e fedorento, a sujeira, o lodo, os ratos e os urubus. A capital do
Estado é uma espécie de Reino das Trevas protegido pelo Capiroto.
Porto Velho é a pior dentre as 27 capitais do Brasil em qualidade de vida,
saneamento básico e água tratada. Ninguém quer saber de Rondônia. Para vir ao
Estado pagam-se pedágios caríssimos se vier de carro. É o Free Flow.
E de avião é quase impossível: passagem do Sul Maravilha para cá é até mais cara
do que ir à Europa. E não tem disponibilidades. Hospital de Pronto-Socorro, a
capital não tem. O “Built to Suit” dos políticos terminou
em “beiju de caco”. Até o atual governador, que ficou oito anos
no poder, prevê uma derrota nas urnas e quer desistir de se candidatar. Não se
pode dizer que Rondônia é do senhor Jesus ou de Deus. Deve ser do
Cramunhão!
*Foi Professor em Porto
Velho.
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