segunda-feira, 30 de março de 2026

Março de 1964: 62 anos de caos

Março de 1964: 62 anos de caos

 

Professor Nazareno*

 

            Há exatos 62 anos, setores militares brasileiros pressionados pela elite civil do país, por meio de um golpe militar, quebravam as regras institucionais vigentes e solapavam a nossa frágil democracia. A elite nacional, que estava receosa com o avanço do comunismo e inspirada pelos ideais norte-americanos, incentivou e patrocinou a aventura armada que mergulharia o Brasil em 21 anos de escuridão política. Enquanto durou, a tosca aventura fardada se chamou pomposamente de Revolução e somente depois de 1985 com o seu fim, convencionou-se chamá-la simplesmente de golpe militar. Apoiados por grande parte da alienada população brasileira, os golpistas deram a desculpa de estarem protegendo nossa democracia de irresponsáveis grupos armados inspirados pelo comunismo da antiga União Soviética e da China. Vivíamos a Guerra Fria e o medo.

            No entanto, a única vítima daquela malfadada aventura foi somente a democracia. Muitos militantes de esquerda foram enfrentados sob a acusação de tentar implantar por aqui um regime pró soviético e antidemocrático, enquanto as classes dominantes se encarregaram de dar um fim definitivo às aspirações comunistas. Quem vencesse a contenda “presentearia” o país com um regime de exceção. Por isso, os ganhadores, no caso a elite de direita e os militares golpistas, empurraram-nos de goela abaixo mais de duas décadas de trevas, cerceamento das liberdades individuais, ataques sistemáticos à democracia, perseguições políticas, medo, tortura de oposicionistas, além de outras excrescências típicas das ditaduras de repúblicas bananeiras do Terceiro Mundo. Nos “campos de batalha”, DOI-CODI, exílio e tortura viraram a aceitação do contraditório.

            Porém, muitos dos perseguidos e torturados daquela época, que conseguiram escapar, hoje viraram autoridades e em alguns dos casos até ministros, governadores, senadores, deputados, prefeitos e mesmo presidente da República. Embora ungidos pelo voto democrático, vários dos atuais mandatários chegaram ao poder denunciando a corrupção e os desmandos, mas reinventaram e ainda praticam essa mesma corrupção. Direita e esquerda se uniram para roubar o povo pagador de impostos. Depois deram as mãos e juntas elas inventaram também a polarização política atual para redimir pela metade tanto um grupo quanto o outro. Desde 1964 que o Brasil continua sendo um país rico, mas com multidões de pobres e miseráveis. Fila do osso, bolsa-família, auxílio gás, fome, fascismo, golpismo e miséria não podem combinar com a décima nação mais rica.

            Dos últimos presidentes, a partir da Nova República de 1985, pelo menos quatro deles já estiveram na cadeia e atualmente dois ainda estão em prisão domiciliar. Roubo, desvio de dinheiro, corrupção, enriquecimento ilícito e tentativa de golpe de Estado são as acusações mais frequentes. A esquerda começou a governar o país neste período, mas não mudou muita coisa: os ricos continuaram mais ricos e os pobres sempre mais pobres. Tentou-se até repetir o dia 31 de março de 1964 no dia 8 de janeiro de 2023, mas a fracassada empreitada terminou com quase todo mundo na cadeia. O velho Brasil continuou sendo grotesco quando visto de fora e daqui de dentro também. O entreguismo vil e humilhante é confundido com patriotismo. “Deus, Pátria e Família virou bordão entre quase todos: ricos, miseráveis e famintos. Militares são chamados de heróis e devem voltar a nos governar. Ditadura virou regime militar. E a pátria que se dane. PT saudações!

           

 

 

*Foi Professor em Porto Velho.

Nenhum comentário: