Março
de 1964: 62 anos de caos
Professor
Nazareno*
Há exatos 62 anos,
setores militares brasileiros pressionados pela elite civil do país, por meio
de um golpe militar, quebravam as regras institucionais vigentes e solapavam a
nossa frágil democracia. A elite nacional, que estava receosa com o avanço do
comunismo e inspirada pelos ideais norte-americanos, incentivou e patrocinou a
aventura armada que mergulharia o Brasil em 21 anos de escuridão política.
Enquanto durou, a tosca aventura fardada se chamou pomposamente de Revolução e
somente depois de 1985 com o seu fim, convencionou-se chamá-la simplesmente de
golpe militar. Apoiados por grande parte da alienada população brasileira, os
golpistas deram a desculpa de estarem protegendo nossa democracia de
irresponsáveis grupos armados inspirados pelo comunismo da antiga União
Soviética e da China. Vivíamos a Guerra Fria e o medo.
No entanto, a única vítima daquela
malfadada aventura foi somente a democracia. Muitos militantes de esquerda
foram enfrentados sob a acusação de tentar implantar por aqui um regime pró
soviético e antidemocrático, enquanto as classes dominantes se encarregaram de
dar um fim definitivo às aspirações comunistas. Quem vencesse a contenda “presentearia”
o país com um regime de exceção. Por isso, os ganhadores, no caso a elite de
direita e os militares golpistas, empurraram-nos de goela abaixo mais de duas
décadas de trevas, cerceamento das liberdades individuais, ataques sistemáticos
à democracia, perseguições políticas, medo, tortura de oposicionistas, além de
outras excrescências típicas das ditaduras de repúblicas bananeiras do Terceiro
Mundo. Nos “campos de batalha”, DOI-CODI, exílio
e tortura viraram a aceitação do contraditório.
Porém, muitos dos perseguidos e
torturados daquela época, que conseguiram escapar, hoje viraram autoridades e
em alguns dos casos até ministros, governadores, senadores, deputados,
prefeitos e mesmo presidente da República. Embora ungidos pelo voto democrático,
vários dos atuais mandatários chegaram ao poder denunciando a corrupção e os
desmandos, mas reinventaram e ainda praticam essa mesma corrupção. Direita e
esquerda se uniram para roubar o povo pagador de impostos. Depois deram as mãos
e juntas elas inventaram também a polarização política atual para
redimir pela metade tanto um grupo quanto o outro. Desde 1964 que o Brasil
continua sendo um país rico, mas com multidões de pobres e miseráveis. Fila do
osso, bolsa-família, auxílio gás, fome, fascismo, golpismo e miséria não podem combinar
com a décima nação mais rica.
Dos últimos presidentes, a partir da
Nova República de 1985, pelo menos quatro deles já estiveram na cadeia e
atualmente dois ainda estão em prisão domiciliar. Roubo, desvio de dinheiro,
corrupção, enriquecimento ilícito e tentativa de golpe de Estado são as
acusações mais frequentes. A esquerda começou a governar o país neste período,
mas não mudou muita coisa: os ricos continuaram mais ricos e os pobres sempre
mais pobres. Tentou-se até repetir o dia 31 de março de 1964 no
dia 8 de janeiro de 2023, mas a fracassada empreitada terminou
com quase todo mundo na cadeia. O velho Brasil continuou sendo grotesco quando
visto de fora e daqui de dentro também. O entreguismo vil e humilhante é
confundido com patriotismo. “Deus, Pátria e Família” virou bordão
entre quase todos: ricos, miseráveis e famintos. Militares são chamados de
heróis e devem voltar a nos governar. Ditadura virou regime militar. E a pátria
que se dane. PT saudações!
*Foi Professor em Porto
Velho.

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