A
violência nossa de cada dia
Professor
Nazareno*
Com pouco mais
de duzentos milhões de habitantes, o país da próxima Copa do Mundo de futebol
tem uma das sociedades mais violentas do planeta. Pior do que qualquer guerra
da humanidade, aqui, em tempos de paz, são mortos anualmente mais de 50 mil
cidadãos. São quase 140 homicídios por dia. A carnificina não escolhe lugar nem
região: das grandes cidades e metrópoles do centro sul do país até os mais
longínquos e remotos recantos de regiões mais atrasadas, conviver com a
brutalidade já virou rotina para todos nós. Mais do que em qualquer outro país,
no Brasil matam-se mais negros, mais pobres, mais mulheres, mais homossexuais,
mais policiais, enfim, não há quem escape do horror. Infelizmente todo dia estamos
sujeitos a sair de casa e não mais voltar. Instalou-se no país inteiro uma
espécie de “salve-se quem puder”.
Engana-se, porém, quem ainda
acredita que essa onda de violência que varre o país há décadas é fruto apenas
de ações individuais. A delicadíssima questão das drogas, as leis muito flexíveis,
o Estado corrupto e a inoperância do Poder Público associados à incompetência
dos órgãos de segurança estão por trás do horror. Aqui, nunca esteve tão em
voga a máxima de Jean-Jacques Rousseau de que “o homem nasce puro, mas a
sociedade o corrompe”. O Brasil tem hoje cerca de 540 mil indivíduos encarcerados,
mas só há vagas para pouco mais de 350 mil. Abarrotado, o sistema carcerário
poderia ser bem pior, pois para cada um que está preso, há pelo menos uns
quatro em liberdade praticando crimes diariamente nas ruas. Hipócrita, nosso
país não construiu escolas e teve vergonha de construir presídios, contrariando
assim o célebre Rui Barbosa.
Porém, a nossa sociedade, já
acostumada com a guerra diária, incentiva mais ainda a barbárie. “Bandido
bom é bandido morto”, ouve-se com frequência este absurdo. Bandido
bom é bandido preso, julgado e condenado pelo Poder Público, sem direitos a
regalias nem indultos. Isso sim seria civilidade. Violência só gera mais
violência. É preciso ter inteligência para perceber que só com educação de
qualidade e com justiça social poderemos enfrentar o caos. Aplaudir a morte de
bandidos sem propor algo concreto para enfrentar a crise só nos torna tão
criminosos quanto eles. Os incontáveis indultos a que eles têm direito
preenchem uma lógica macabra: precisa-se abrir mais vagas no já sobrecarregado
sistema prisional para que outros condenados cumpram também suas penas. Sem
vagas há muito tempo, o sistema está em colapso.
Além do mais, grande parte da
sociedade brasileira age na contramão da História e é contra a política de direitos
humanos, aceita no mundo civilizado. Triste, vejo jornalistas, professores e
até advogados se insurgirem contra os defensores dessa diretriz. Sem ela, a
carnificina só aumentaria e colocava o Estado brasileiro mais uma vez como
vilão. Segundo o IBGE, mais de 90 por cento dos nossos presos ou são
analfabetos ou têm menos de quatro anos de estudo enquanto um por cento apenas
tem ensino superior. No Brasil, o crime só é organizado porque o Estado é
desorganizado e frouxo. Nossas leis são elitistas e geralmente só punem “os
pequenos”. Precisamos melhorar nossas escolas e investir no futuro dos
nossos cidadãos, mas é muito difícil fazer isto, pois a sociedade não cobra,
não quer. Na próxima Copa, o nosso Holocausto vai assombrar o mundo já que este
problema não pode ser remediado: ou se investe em educação de qualidade ou nada
funcionará. E isto leva tempo. Muito tempo.
*É Professor em
Porto Velho.