quarta-feira, 24 de julho de 2013

O frio não combina com Rondônia



O frio não combina com Rondônia

Professor Nazareno*



            A forte massa de ar polar que alcançou o sul da Amazônia no final deste mês de julho dando origem ao fenômeno conhecido regionalmente como Friagem fez despencar as altas temperaturas da região e trouxe consigo algo inédito: a sensação de que em Rondônia vivemos na Europa ou em outro lugar desenvolvido e civilizado como a Serra Gaúcha, Curitiba ou mesmo o interior de quase toda a região sul do país. Esse fenômeno é uma verdadeira aberração da natureza: frio é no inverno e em todo o sul amazônico estamos no período da estiagem, ou seja, no verão. Então, nas terras de Rondon o frio aparece estranhamente na estação mais quente. Frio, se é que se pode chamar 14ºC de temperatura baixa. Aqui se pode, pois há três dias, estávamos “assando” com números diários acima dos 36 graus centígrados. Embora não seja surpresa para ninguém, o frio e a Friagem daqui nos incomodam. E muito: “não é que faz frio no fim do mundo?”.
        O meu maior incômodo, no entanto, é ter que andar nas ruas sentindo um cheiro de mofo, barata e naftalina que emana das bisonhas roupas grossas que as pessoas usam para mostrar o que não têm: guarda-roupa de inverno. Geralmente são roupas doadas por parentes que moram no Paraná ou em outro lugar onde realmente faz frio. Já rotas, molambentas, sujas e furadas, as mantas e os velhos agasalhos fazem ironicamente os transeuntes se parecerem com o que realmente aparentam ser: palhaços de um circo em decadência. Rondônia e sua capital Porto Velho são lugares atrasados, feios, sujos, sem a menor infraestrutura e que estão acostumadas com o calor, o mormaço e as altíssimas temperaturas características do lugar. Estão muito mais parecidos com os rincões da África subsaariana, o sertão do Nordeste e mesmo o inferno do que com a paradisíaca Serra Gaúcha ou o norte desenvolvido e civilizado da Europa.
        Além do mais, passar frio em Munique na Alemanha, em Gramado, Canela, Curitiba ou mesmo nos cantões da Suíça significa conviver com flores, belos jardins, canto de pássaros e também degustar a culinária característica da estação. Não há como deixar de apreciar o Fondue de queijo, o Cassoulet de feijão branco, Pirog polonês, vinhos finos e sopas deliciosas. Nestes lugares, o frio faz o romantismo aflorar nas pessoas que se apaixonam mais facilmente. Já em Porto Velho, o frio faz muitos beberem cachaça 61, vinho Sangue de Boi ou Chalise e comer Mandi frito além de esfregar as mãos e reclamar do tempo. Isso num ambiente cheio de poeira, fumaça das queimadas, lixo, podridão, ratos, esgotos a céu aberto, monturo e pessoas mal encaradas, geralmente bêbadas, fedidas e cuspindo para tudo que é canto. O frio daqui só traz desgosto, gripes, rinite alérgica, diarreias, curubas e outras doenças de pobre.
        Decididamente, o frio não combina com Rondônia nem com Porto Velho, pois não se pode conviver ao mesmo tempo com temperaturas baixas e políticos ladrões. Na fria Europa, por exemplo, quase não há corruptos. Então deve ser o calor rondoniano que faz a classe política daqui roubar tanto os cofres públicos. Faz também as autoridades locais se envolverem em briguinhas particulares em vez de trabalharem em benefício da população que os elegeu. Acredita-se que se o clima de Porto Velho fosse frio como está o dia hoje, haveria menos ataques ao Erário e o lugar seria bem mais desenvolvido. O frio faz as pessoas ficarem bem mais dispostas, além de dar mais predisposição para a boa leitura. Mas como essa “estranha” temperatura não é daqui, é bom que vá embora logo, pois precisamos voltar à nossa rotina diária de conviver com o calor, violência, corrupção, sujeiras e atraso. E banhos. Precisamos tomar mais banhos.







*É Professor em Porto Velho.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Edward Snowden devia vir para Rondônia



Edward Snowden devia vir para Rondônia


Professor Nazareno* 
        
         O ex-consultor norte-americano Edward Snowden pediu asilo temporário à Rússia depois de passar quase um mês na área de trânsito de um aeroporto da capital, Moscou. Procurado pelo governo dos Estados Unidos por ter violado segredos de Estado envolvendo casos vergonhosos de espionagem norte-americana a vários países, inclusive o Brasil, Snowden teve o seu passaporte cassado pelo Governo de seu país e se voltar à América pode ser condenado à pena de morte por traição à pátria. Mesmo assim, já recebeu propostas de asilo político da Venezuela, da Nicarágua e da Bolívia, cujo presidente, Evo Morales, teve recentemente seu avião impedido de sobrevoar o espaço aéreo de vários países europeus sob a suspeita de estar com o norte-americano a bordo e causando com isso um frenesi diplomático entre o MERCOSUL, bloco do qual os bolivianos fazem parte, e várias nações europeias.
No entanto, Edward Snowden deveria receber asilo diplomático do Governo da Cooperação e voar direito de Moscou para o aeroporto internacional Governador Jorge Teixeira de Oliveira e fincar definitivamente suas raízes nas terras de Rondon. A língua não seria obstáculo para ele, nem para nós, afinal já convivemos com Mangabeira Unger há tanto tempo que nem notaríamos o seu sotaque. Hábil em desvendar segredos, ele seria muito útil por aqui. O mundo inteiro ficaria sabendo, por exemplo, por que as tantas operações policiais em terras karipunas quase sempre dão em nada. É como “enxugar gelo” ao sol. Os presos de cada uma dessas operações, que jamais ficam mais do que poucos dias em cana, saem tranquilamente da cadeia, não devolvem um único centavo ao Erário Público e em alguns casos reassumem postos nos governos e ainda têm amplo espaço na mídia local para dar aulas de ética e se defenderem “de graça”.
Snowden diria ao mundo que em Rondônia, também conhecida por Roubônia, ninguém nunca governou de fato. Entra governo e sai governo e a única preocupação das autoridades parece ser apenas dilapidar os já esgotados cofres públicos sem nenhum acanhamento e mesmo tendo Justiça, tribunais, juízes, desembargadores, OAB, Ministérios Públicos, polícias e toda a parafernália de uma sociedade dita organizada, a roubalheira e a corrupção não param e já fazem parte da rotina do lugar, pois pouco tempo depois todos os corruptos estão soltos, ricos e o pior: rindo da cara do povo, que nada reclama e aceita tudo tranquilamente. Incrédulo, o mundo talvez perguntasse: por que é tão fácil roubar em Rondônia? Ele finalmente poderia descobrir o segredo do Prefeito da capital, que insiste em não trabalhar, mesmo já tendo parado de chover faz uns dois meses. Como ganhar 21 mil reais de salário mensal e não fazer absolutamente nada em prol dos sofridos habitantes do lugar?  Nem faz, nem dá explicação nenhuma.
Talvez o espião americano tivesse mais trabalho se bisbilhotasse a papelada da Assembleia Legislativa do Estado e da Câmara de Vereadores da capital. Provavelmente o mundo não gostaria de saber o que se passa dentro destas duas casas legislativas de Roubônia, já que poucas e raras pessoas aguentariam ver tanta sacanagem e sujeira. Sem surpresas, todos veríamos que a nossa sociedade vive bem melhor sem estas duas excrescências legislativas. Com Snowden saberíamos, finalmente, o porquê da briga entre os vários poderes “roubonianos”. Por que a cada operação, eles “guerreiam” entre si? Porém, quem perde com esta guerra absurda já se sabe: somos nós, os pagadores de impostos. Enfim, saberíamos por que parte da imprensa local, mesmo conhecendo o “trabalho” destes políticos insiste em noticiar diariamente fatos que enaltecem a imagem deles. Devíamos sair às ruas e pedir a vinda de Edward Snowden para cá. Além de ele ter um “bom e luxuoso apartamento” para morar de graça, aqui não teríamos mais tantos segredos. Pelo menos até o próximo ano, quando elegeremos novas e inocentes “ratazanas” para nos ajudar a comer do nosso queijo. E esperaremos outras operações.




*É Professor em Porto Velho.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vergonha da Honestidade



 Vergonha da       Honestidade

Professor Nazareno*

Quero aqui publicamente fazer um desabafo. Semana passada, fui destratado em sala de aula por um insolente aluno. Fiquei muito chateado e ainda estou perplexo. Depois de 37 anos de batente e 55 de vida, procurando sempre fazer o possível e o impossível para ensinar aos meus pupilos, fui desrespeitosamente chamado de HONESTO por um deles. Ele disse que desconfiava de que eu era um homem que gostava da verdade, era sincero e por isso, tinha quase a certeza de que eu era um homem HONESTO. Como aquelas palavras me magoaram. Insinuações sem provas machucam qualquer um e comigo não foi diferente. Fiquei arrasado e sem ter onde colocar a cara depois de tanta humilhação. Pensei em denunciá-lo na Delegacia de Polícia mais próxima. Pensei em ir ao Ministério Público reivindicar meus direitos. Pedi à Direção da escola que tomasse as devidas providências e que lhe chamasse os pais ou responsáveis. Repeti aos gritos para todo mundo ouvir: “isto não vai ficar assim”.
Rui Barbosa disse certa vez: “... De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Deve ser isto que está acontecendo comigo nesta hora e nestas circunstâncias. O discurso do “Águia de Haia”, que incrivelmente consegue ser atemporal, se encaixa perfeitamente aos nossos homens e autoridades de hoje e ribomba na minha cabeça como o badalar de um gigantesco sino. A minha consciência ainda me atormenta com a possibilidade de eu ser mesmo o que o aluno disse e por isso abro a todos a minha vida. Como se pode morar em Rondônia, “carinhosamente” chamada pelo resto do país de Roubônia, e ainda viver de forma a não subtrair nada de ninguém, não aceitar troco a mais, ensinar a moral e os bons costumes, não se envolver na política (para não saber o quanto valho no mercado de autoridades)? Deve haver algo errado.
Um verdadeiro absurdo: descobri recentemente que o meu padrão de vida é compatível com os meus rendimentos. Leciono em duas escolas e apesar do meu carro velho, ano 2009, às vezes tenho que andar de busão, o Interbairros. Declaro meu imposto de renda anualmente e moro num apartamento (ainda) financiado pela Caixa. Porém, já fiz muitas coisas que podem desabonar a minha ilibada conduta: vai ver que eu não sou “tão santo” assim. Participei no dia 20 de junho de 2013 das manifestações contra o Governo, a política e os políticos. Marchei com os outros mais de 30 mil na Sete de Setembro e não era a Banda do Vai Quem Quer, Passeata Gay ou Marcha para Maomé nem para Jesus. Integrei as manifestações das “Diretas Já” em 1984 e estive com os “caras pintadas” na saída do ex-presidente Fernando Collor em 1992. Também deve pesar contra mim o fato de eu ser casado há mais de 30 com a mesma pessoa, uma amável costureira de poucos estudos e nascida nas barrancas do rio Madeira.
Por tudo isto e pela minha vida aberta ao público, não aceito ser chamado de HONESTO por ninguém. Exijo respeito. Daqui a pouco vão dizer que, além da minha honestidade, eu também sou filantropo, um homem de bom coração, fiel esposo, bom pai, vizinho amável, grande companheiro, fiel a Deus, leal e amigo, solidário, uma pessoa compreensível, humilde, sincero, dentre tantas outras maledicências. Não posso aceitar insinuações contra a minha honra de forma alguma. Como vou me dirigir aos meus netinhos futuramente? Eles certamente terão vergonha de minhas atitudes no passado. Já pensou se eles, os meus netinhos, souberem que um dia torci contra a seleção brasileira de Neymar e falei mal, não sei por que, de Rondônia e de sua gente? Já pensou se eles descobrem que sempre vivi com o suor do meu salário? E pior: passei até dificuldades para criar meus dois filhos com decência? Como me explicar? Não, definitivamente não sou essa coisa. Por isso, abro todos os meus sigilos às autoridades para provar tudo o que estou dizendo. “HONESTO deve ser o seu pai”, desabafei na hora ao aluno irresponsável que ousou me afrontar na frente de todos.



*É Professor em Porto Velho.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A gata Alvinha nasceu em Rondônia



A gata Alvinha nasceu em Rondônia

Professor Nazareno*



            Na minha casa, temos três gatos lindos e maravilhosos. Na verdade, um gato e duas gatas. O nome deles é Zé Negão, Neguinha e Alvinha. Eles agem como se fossem gente. Toda noite, o Zé Negão sai de casa à procura não sei de quê. Passa as noites em claro e quando está amanhecendo, mia feito um jovem pedindo para que eu abra a porta. Quando entra em casa, ainda pela madrugada, o Zé Negão come um pouco de ração Wiskas, bebe um pouco de água e vai direto para o seu puf dormir. Dorme o dia inteiro. E quando o chamamos para lhe dar água, o mesmo só boceja e depois vai dormir de novo. Enquanto isso, as duas gatas ficam dormindo durante o dia pelas camas e em cima do sofá da sala. Corrijo as provas com eles me olhando e me ensinando não sei o quê.
Às vezes, não é toda vez, elas gostam de assistir aos programas de televisão. Quando vamos almoçar, pedimos para as mesmas sair de cima das cadeiras. Outro dia, presenciei uma briga medonha entre os meus gatos. Zé Negão chamava a Alvinha de “Branquela de uma figa” enquanto a Neguinha, chorando (na verdade, miando de forma diferente da usual), reclamava ter sido vítima de racismo por parte da Alvinha. Foi um trabalho muito danado acalmar os ânimos entre os bichos. Fiz a minha parte e acalmei a briga entre os felinos que pararam de miar, mas ainda hoje eles ainda se olham com desconfiança. Criar gatos é uma coisa fantástica. Todos deviam criar gatos em casa.
Todas as pessoas de bom senso deviam criar gatos em sua casa, sim. Claro que tem o problema da sujeira, mas isso é uma tarefa fácil. Todos nós devíamos estar acostumados com sujeira. Os gatos são como pessoas, coforme disse anteriormente e por isso tudo vale a pena. Meus gatos quase nunca adoecem, pois são muito bem tratados. Raramente é preciso levá-los ao veterinário. Eles têm uma saúde de ferro e isto pode ser comprovado quando estão soltos brincando no jardim ou correndo atrás de calangos. Raramente eles tomam banhos, mas quando isto acontece é uma festa aqui em casa. Chamamos todos os vizinhos para ajudar nesta árdua tarefa. O primeiro a entrar na bacia com água morna é o Zé Negão. Depois a Alvinha e por fim a Neguinha. As crianças se divertem vendo os felinos reclamarem da água batendo em seus pelos.
Dar banho em gatos não é uma profissão muito boa, os felinos não gostam de água e por isso miam e se debatem muito. Os meus gatos, não sei o porquê, adoram tomar banhos. Após o asseio, eles vão pegar sol e se lamber na janela. É muito bom ter gatos em casa: os ratos diminuem muito e ficam com muito medo de morar numa casa com felinos. Acho que é por causas do pelo dos gatos que se soltam e assustam os pobres ratinhos. Os ratos vão logo embora para a casa dos vizinhos ou mesmo para a rua. A gata Alvinha nasceu em Rondônia e por isso não gosta de ratos. Não é uma grande incoerência? Eu nunca entendi isto. Os outros gatos que tenho também nasceram por aqui, mas gostam de ratos e até brincam com os roedores. Quando ouço música, eles parecem querer também colocar os fones nos ouvidos e quando o Brasil faz um gol eles pulam de alegria e satisfação. Não há coisa melhor do que ter gatos em casa. Miau!


*É Professor em Porto Velho.