E
por que eu choro tanto?
Professor
Nazareno*
Estou
de olhos inchados. Acho que é de tanto chorar. E não sei ainda qual o porquê de
tanto desgosto, de tanta infelicidade. Preocupada, minha esposa pediu para que
eu fosse a um médico. Chorei mais ainda, pois teria que ir a um certo “açougue”
que fica na zona sul da cidade. Só que até conseguir ser consultado por lá, já esterei
cego. Com a vacinação em massa, a pandemia do Coronavírus praticamente já
acabou, mas ainda estou usando máscara para filtrar o ar que respiro. Estou com
medo de estar com pneumonia, já que estou tossindo muito e com os peitos
chiando e sob intensa pressão. Minha saúde não anda boa, preciso de uma
rezadeira para me espantar esse “mau olhado”. Preciso urgentemente de
socorro, de ajuda. Razões para chorar todos nós que moramos em Porto Velho, a
currutela fedida e agora fumacenta, todos nós temos de sobra. E nada nos
acalma.
Lamento
por causa da fumaça que dilacera a cidade e todo o Estado de Rondônia. Uivo por
que ninguém faz nada para combater esse caos. Praticamente todas as
autoridades, muitas delas chorando muito também, até agora não fizeram
absolutamente nada para pelo menos amenizar a situação. Até as Forças Armadas
do Brasil, que dizem estar na região somente para defender a Amazônia, nada
fizeram. Os bravos soldados continuam pintando as calçadas e o meio-fio dos
quartéis, cujas instalações estão, claro, também cobertas por fumaça e fuligem.
É que o presidente Lula não pediu até agora aos militares nenhuma missão para
combater incêndios e nem fumaça. Nem Lula nem a ministra Marina Silva do Meio
Ambiente e Mudança do Clima. Desde julho estamos respirando monóxido de
carbono. Com orgulho, temos o pior ar para se respirar no Brasil.
Por
isso, eu choro. Choro pela incompetência dos políticos locais, choro pela
extinção quase certa da Amazônia e choro também muito pelo majestoso rio
Madeira. Os rondonienses mataram esse pobre rio sem que ele tivesse feito nada.
Não deram a ele nem a chance de se defender. Coitado! Sofro por que Porto Velho
não tem sequer um “Built to Suit” para atender melhor aos
seus contribuintes asfixiados pela fumaça. Choro pelas crianças, velhos e os portadores
de doenças respiratórias. Grito pelos muitos porto-velhenses que, inebriados e
conformados na sua ignorância política, não questionam seus representantes nem
pedem nada deles para melhorar a coletividade. Choro pela falta de esgotos e de
saneamento básico na pior cidade do Brasil em IDH. E choro principalmente
porque não se veem perspectivas de melhorar qualquer coisa pelos próximos
quatro anos.
Quero
ir embora de Porto Velho como já fizeram muitos rondonienses e também muitos “rondonienses
de coração”. Sei que meus dois ou três leitores vão adorar essa ideia.
Acham eles que vão se livrar dos meus textos. Mas não posso, pois além de não
ter dinheiro suficiente para viajar de avião, não existem voos no acanhado
aeroporto dessa cidade amaldiçoada. A fumaça tem cancelado voos quase todos os
dias. Soluço também por que Porto Velho está totalmente isolada. Queria sair
pelo rio Madeira, mas com o rio já quase morto, os barcos deixaram de fazer
suas viagens regulares. E se meu ídolo Jair Bolsonaro não puder vir à “Capital
dos Destemidos Pioneiros”, na próxima quarta-feira, aí posso até me
suicidar de tanto desgosto. O “inelegível” vem observar de perto como um
povo sofrido, pobre e necessitado ainda consegue ser da direita reacionária. Clamo
por que os eleitores sofrem da síndrome de Estocolmo e todos riem como hienas
sádicas.
*Foi Professor em Porto
Velho.
Um comentário:
Situação difícil e crítica de Porto Velho. O texto consegue nos conectar aos sofrimentos das pessoas e, ao mesmo tempo, promover reflexões. Espero que as autoridades e a população em geral tomem vergonha na cara e protejam a Amazônia. Um abraço bem abraçado, caro Naza.
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